Nem as câmeras seguram as simulações
Como o comportamento dos atletas em campo reflete a nossa sociedade

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O jogador de futebol brasileiro é engraçado e estranho. O futebol mudou, se profissionalizou, a tecnologia chegou aos campos e parece que tudo continua igual. Hoje, são dezenas de câmeras nos jogos das séries A e B do Brasileirão. Câmeras nas laterais, câmeras na linha de fundo, na intermediária, câmeras do VAR, das emissoras, câmeras dos celulares dos torcedores. Tem câmera de tudo que é tamanho, com todos tamanhos de lente, com as mais diferentes qualidades. Câmera é o que não falta.
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Chego a imaginar que passem de milhares de câmeras em um único jogo, contando as dos celulares. Grande parte delas apontando pra onde? Para o campo, para os jogadores. Mesmo assim, nossos atletas se jogam no chão, simulam agressões, simulam lesões. E os goleiros, então? A cada cinco minutos, o goleiro do time que está em vantagem dá um jeito de cair. Impressionante. Mesmo sabendo que uma pequena farsa ou aquela "agressão terrível" será rapidamente desmascarada, eles insistem. Claro que não ignoram a nova realidade, mas insistem . É cultural? Não sei. É tentando ganhar vantagem? Difícil imaginar vantagem em algo que será desmentido em breve.

Na Europa e nos Estados Unidos, esse comportamento simplesmente não existe e, se acontecesse, a crítica e a vaia comeriam soltas. Não dá para dizer que é zero porque não existe nada zero em eventos com tantos atletas em campo diariamente na Europa e nos Estados Unidos. Mas é um índice infinitamente mais baixo do que nos dos gramados brasileiros e latino americanos. Pode ser educação? Pode ser. Mas acho mais provável que nossos atletas ainda acreditem na possibilidade, mesmo que remota, de que uma ligeira vantagem pode acontecer após uma simulação bem feita, mesmo diante das câmeras. Pena. Isso reflete valores que moldam as sociedades. Vencer uma partida de futebol deve significar ser melhor fisicamente, na estratégia e no talento e não vencer por ser melhor em uma enganação. Mesmo assim, nossos atletas insistem. São reclamações após uma decisão, reclamações na saída de campo, na ida para o vestiário e até durante o jogo.
A cultura da simulação e o impacto no espetáculo
Algumas chegam a ser agressivas até demais, punidas com cartão por palavrões, ameaças e ofensas descabidas. Mesmo sabendo que o juiz consultou o VAR, seguem as reclamações. Mesmo sabendo que a checagem mostrou a infração, seguem as reclamações. Isso atrapalha o espetáculo.
Isso mostra uma falta de preparo pessoal, uma falta de educação e, principalmente, que vale a pena tentar enganar. Uma sociedade como a nossa com tantos problemas de educação, de nível de instrução, de corrupção e de vantagem indevida no dia a dia, vê, regularmente, seus ídolos darem o péssimo exemplo de tentar ganhar uma vantagem indevida. É um reforço a tudo de ruim que temos nas nossas vidas e um reforço na tese de que levar vantagem vale a pena. Nossos atletas, exemplo para crianças, adolescentes e referências para todo Brasil, deveriam pensar um pouco mais antes de agir. Deviam lembrar que estão nas telas das TVs, dos computadores e dos celulares de quem os olha como exemplo. Pena que isso não acontece.

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