Gestão Esportiva na Prática: quem lidera o futebol na era das redes?
Quando a urgência digital entra na sala, ouvir o torcedor deixa de ser o único desafio

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Há algum tempo, passei a repetir uma frase que, embora pareça exagerada, ajuda a compreender o futebol contemporâneo: a alta gestão de um clube tem mais medo das redes sociais do que do Ministério Público.
Evidentemente, não comparo o poder jurídico de uma instituição pública com a repercussão de uma postagem. O Ministério Público investiga, fiscaliza e responsabiliza. As redes adquiriram outro tipo de autoridade: o poder da urgência.
Uma notificação oficial chega ao departamento jurídico, é analisada e respondida dentro de um prazo. Uma crise digital parece não permitir reflexão. O telefone toca, as mensagens de WhatsApp se acumulam, um dirigente pergunta se o clube vai se posicionar e alguém garante que "todo mundo" exige a demissão do treinador.
Em poucos minutos, centenas ou milhares de comentários passam a representar milhões de torcedores. A repetição produz aparência de consenso. A intensidade ocupa o lugar da representatividade.
As redes não têm cadeira na reunião, mas estão presentes. Não assinam contratos, mas pressionam por contratações. Não pagam indenizações, mas exigem demissões. Não respondem pelo resultado, mas ajudam a construir publicamente os culpados.
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Este texto e o livro que publicarei até o final deste ano sobre o impacto das redes sociais no ecossistema do futebol nasceram também de uma provocação de Matheus Souto Maior, presidente do Sport. Ele sente diariamente o desafio de gerir um clube na era das mídias sociais: como ouvir a torcida sem transformar o ruído mais intenso na voz de todo o seu público?

O problema não está no direito de manifestação. O futebol nunca foi silencioso. Arquibancadas sempre vaiaram, rádios abriram microfones, jornais publicaram críticas e mesas de bar ofereceram soluções definitivas. As redes não inventaram a impaciência, a vaidade, a perseguição ou a busca por culpados. Fizeram algo mais poderoso: aceleraram e amplificaram tudo isso dentro de um sistema que transforma emoção em audiência, conflito em circulação e indignação em valor econômico.
No futebol, o presente engole o contexto
Curtidas, comentários e compartilhamentos criaram uma ilusão de objetividade. Se pode ser contado, parece representar a realidade. Mas o comentário agressivo chama mais atenção do que a ponderação. A condenação circula melhor do que a dúvida. Uma frase que aponta um culpado quase sempre derrota a explicação de um problema complexo.
No futebol, o presente engole o contexto. Duas derrotas reescrevem um trabalho. Um treinador que precisava de tempo torna-se ultrapassado. Um jogador apresentado como solução converte-se em problema. Um jovem de 17 anos pode ser chamado de craque numa semana e de decepção na seguinte.
Surge, assim, a gestão por repercussão. O clube deixa de perguntar apenas qual é a decisão correta e passa a perguntar como ela será recebida.
Não defendo que o futebol se afaste das redes. Seria impossível e indesejável. Elas ampliam a transparência, aproximam torcedores, dão voz a grupos antes ignorados e criam oportunidades comerciais. O desafio é viver dentro delas sem permitir que sua lógica comande todas as decisões.
O poder de influenciar se espalhou, mas a responsabilidade não foi distribuída na mesma proporção. Quem exige uma contratação pode apagar a publicação se o jogador fracassar. Quem pressiona por uma demissão pode defender outra solução na semana seguinte. O clube, porém, permanece com o contrato, o prejuízo, o atleta abalado e as consequências.
O dirigente que não ouve se isola. O dirigente que obedece ao barulho renuncia à própria responsabilidade. Entre a arrogância de ignorar o ambiente e a covardia de governar por ele existe um espaço difícil: o da liderança.
Não devemos encarar as redes sociais como um adversário impossível de ser derrotado. Elas fazem e seguirão fazendo parte do mundo contemporâneo. A pergunta não é como escapar delas, mas como impedir que um esporte tão profundo seja definitivamente administrado pela superfície.
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