Logo do Lance! branca com exclamação amarela
EXCLUSIVO PARA ASSINANTES

Gestão Esportiva na Prática: quem lidera o futebol na era das redes?

Quando a urgência digital entra na sala, ouvir o torcedor deixa de ser o único desafio

PorFelipe Ximenes
Colunista
Rio de Janeiro (RJ)
05/08/2026 07:05

Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Torcedores tiram fotos com celulares durante a vitória da Seleção Brasileira contra a Croácia, pela Copa do Mundo de 2014
Torcedores tiram fotos com celulares durante a vitória da Seleção Brasileira contra a Croácia, pela Copa do Mundo de 2014 (Foto: Diego Padgurschi/Folhapress)

Carregando conteúdo exclusivo...

Há algum tempo, passei a repetir uma frase que, embora pareça exagerada, ajuda a compreender o futebol contemporâneo: a alta gestão de um clube tem mais medo das redes sociais do que do Ministério Público.

Evidentemente, não comparo o poder jurídico de uma instituição pública com a repercussão de uma postagem. O Ministério Público investiga, fiscaliza e responsabiliza. As redes adquiriram outro tipo de autoridade: o poder da urgência.

continua após a publicidade

Uma notificação oficial chega ao departamento jurídico, é analisada e respondida dentro de um prazo. Uma crise digital parece não permitir reflexão. O telefone toca, as mensagens de WhatsApp se acumulam, um dirigente pergunta se o clube vai se posicionar e alguém garante que "todo mundo" exige a demissão do treinador.

Em poucos minutos, centenas ou milhares de comentários passam a representar milhões de torcedores. A repetição produz aparência de consenso. A intensidade ocupa o lugar da representatividade.

continua após a publicidade

As redes não têm cadeira na reunião, mas estão presentes. Não assinam contratos, mas pressionam por contratações. Não pagam indenizações, mas exigem demissões. Não respondem pelo resultado, mas ajudam a construir publicamente os culpados.

➡️Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte

Este texto e o livro que publicarei até o final deste ano sobre o impacto das redes sociais no ecossistema do futebol nasceram também de uma provocação de Matheus Souto Maior, presidente do Sport. Ele sente diariamente o desafio de gerir um clube na era das mídias sociais: como ouvir a torcida sem transformar o ruído mais intenso na voz de todo o seu público?

continua após a publicidade
Futebol: Matheus Souto Maior, presidente do Sport, durante a partida contra o CRB, na Ilha do Retiro, pelo Brasileirão Série B 2026
Matheus Souto Maior, presidente do Sport, durante a partida contra o CRB, na Ilha do Retiro, pelo Brasileirão Série B 2026 (Foto: Marlon Costa/AGIF/Folhapress)

O problema não está no direito de manifestação. O futebol nunca foi silencioso. Arquibancadas sempre vaiaram, rádios abriram microfones, jornais publicaram críticas e mesas de bar ofereceram soluções definitivas. As redes não inventaram a impaciência, a vaidade, a perseguição ou a busca por culpados. Fizeram algo mais poderoso: aceleraram e amplificaram tudo isso dentro de um sistema que transforma emoção em audiência, conflito em circulação e indignação em valor econômico.

No futebol, o presente engole o contexto

Curtidas, comentários e compartilhamentos criaram uma ilusão de objetividade. Se pode ser contado, parece representar a realidade. Mas o comentário agressivo chama mais atenção do que a ponderação. A condenação circula melhor do que a dúvida. Uma frase que aponta um culpado quase sempre derrota a explicação de um problema complexo.

continua após a publicidade

No futebol, o presente engole o contexto. Duas derrotas reescrevem um trabalho. Um treinador que precisava de tempo torna-se ultrapassado. Um jogador apresentado como solução converte-se em problema. Um jovem de 17 anos pode ser chamado de craque numa semana e de decepção na seguinte.

Surge, assim, a gestão por repercussão. O clube deixa de perguntar apenas qual é a decisão correta e passa a perguntar como ela será recebida.

continua após a publicidade

Não defendo que o futebol se afaste das redes. Seria impossível e indesejável. Elas ampliam a transparência, aproximam torcedores, dão voz a grupos antes ignorados e criam oportunidades comerciais. O desafio é viver dentro delas sem permitir que sua lógica comande todas as decisões.

O poder de influenciar se espalhou, mas a responsabilidade não foi distribuída na mesma proporção. Quem exige uma contratação pode apagar a publicação se o jogador fracassar. Quem pressiona por uma demissão pode defender outra solução na semana seguinte. O clube, porém, permanece com o contrato, o prejuízo, o atleta abalado e as consequências.

continua após a publicidade

O dirigente que não ouve se isola. O dirigente que obedece ao barulho renuncia à própria responsabilidade. Entre a arrogância de ignorar o ambiente e a covardia de governar por ele existe um espaço difícil: o da liderança.

Não devemos encarar as redes sociais como um adversário impossível de ser derrotado. Elas fazem e seguirão fazendo parte do mundo contemporâneo. A pergunta não é como escapar delas, mas como impedir que um esporte tão profundo seja definitivamente administrado pela superfície.

continua após a publicidade
Sugerida para você!

Mais LANCE!