Lúcio de Castro: no cardápio de sexta, Marcão, Jardim, Memphis e Neymar — tudo ao mesmo tempo agora
Colunista avalia o desempenho dos clubes brasileiros que sobreviveram e caíram nas copas

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Que coisa feia.
Nunca imaginei abrir uma coluna assim. Mas foi isso.
Uma coisa feia a atuação do Flamengo no Maracanã na noite de ontem.
Não é admissível que um time com tal nível de investimento, com tal elenco, entre em campo tão desligado, quase
descompromissado com o jogo como o rubro-negro entrou.
O preço poderia ter sido muito alto.
Nem uma torcida que empurrou o time, quase como fazia nos tempos do velho Maracanã, contagiou o time.
Mas obviamente, só isso não explica tudo.
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Aliás, e isso fica para outro dia, uma das coisas que me incomodam em muitas das análises dos tempos atuais é que boa parte só enxerga o jogo por um viés.
Uns priorizam apenas a parte tática e outros falam apenas do anímico.
Ler Pep Guardiola é também entender o óbvio: se você não olhar para o todo, tem um retrato final ruim.
Nenhum jogo pode ser analisado e entendido sem as questões táticas. Mas também nenhum pode ser entendido sem tudo de humano que carrega. E aqui falamos de motivação, mobilização, concentração, dedicação e afins…
E ontem o todo foi terrível em cada parte.
Na parte tática, nas escolhas de Leonardo Jardim e no anímico da equipe.
Junte-se a tudo isso um gramado inacreditável que hoje é o palco do Maracanã, dificultando muito a bola rolando.
E, para completar, a expulsão do excelente Jorginho, deixando o time com um a menos na maior parte do jogo.
Se na parte da mobilização o time falhou, e é inadmissível que isso falhe quando uma semifinal de Libertadores está em jogo, o plano de Jardim também pareceu um rascunho feito em cima da perna. Mal feito.
A velha opção do português em buscar um jogo mais vertical se fez de novo presente.
E ontem essa escolha não fazia o menor sentido.
Um jogo em casa, com vantagem de 2 x 0, do outro lado um time inferior tecnicamente e de valores. Não fazia o menor sentido jogar sem prender a bola, sem manter alta posse, envolver em vez de buscar transições rápidas.
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Para piorar, com Pedro no banco, estratégia que tinha dado certo em Quito, mas que deveria ter sido repensada, o time retinha menos ainda a bola na frente, sem sua habitual parede que espera o time chegar com a pelota controlada.
O resultado foi um time absolutamente sem controle. E não há uma explicação razoável para um time sem controle diante do Independiente del Valle, em casa e com vantagem no confronto.
Um lance fortuito, uma falha do goleiro adversário, deu fim ao sufoco aos 38 do segundo tempo e estabeleceu o 1 x 1 que leva para a semifinal.
Não faz o menor sentido e não tem explicação razoável para a atuação do Flamengo na noite de ontem.
Leonardo Jardim deve essas explicações.
Ainda que não sejam razoáveis.
Por fim, quem acompanha a coluna e o "Lúcio de Papo" é testemunha do tanto que falamos sobre o projeto do time equatoriano.
Chamado aqui de melhor projeto de futebol do continente.
O FLUMINENSE DE MARCÃO

Marcão. De novo.
O Fluminense vai chegando com ele. De novo.
Não é a primeira vez que o ex-jogador e agora auxiliar permanente nas Laranjeiras, assume e que o time melhora.
Também está na semifinal da Libertadores.
Muitos perguntam e acham injusto que ele não tenha o status de treinador permanente.
Pode parecer injusto.
Mas aqui entendo Marcão e entendo o Fluminense.
Não efetivar Marcão como treinador não é desrespeito, como pode parecer.
Ao contrário, é respeito.
Por uma equação muito simples: efetivado, o treinador, em pouco tempo, cumpriria a sina dos treinadores brasileiros e estaria na rua.
Assistente permanente, nos primeiros sinais de que vai dar ruim, deixa o banco de treinador e volta para o posto.
E assim pode fazer a vida.
Cada um sabe onde o calo aperta.
Marcão certamente não foi do grupo de jogadores a fazer independência financeira para as gerações que virão de sua família.
Com seu senso de sobrevivência de quem veio de baixo, fez a escolha dos sobreviventes.
Daqueles que sabem o que fazer para chegar ao fim do mês.
Está na história do clube já.
MEMPHIS DEPAY, NEYMAR E SOBERANIA

Sandro Moreyra foi um jornalista histórico.
Mais do que um jornalista, um personagem da cidade do Rio de Janeiro.
Notabilizado pelas "Histórias do Sandro Moreyra", casos espetaculares que ele contava em sua coluna no finado Jornal do Brasil.
Entre as que mais gosto está o episódio do torcedor brasileiro que o cercou na saída do estádio Sarriá, de Barcelona, depois da fatídica derrota do Brasil para a Itália em 1982, que eliminou uma seleção mágica.
Dramático e desconsolado, o sujeito perguntou a Sandro Moreyra: "E agora, Sandro?".
E Sandro mandou de bate-pronto, na lata: "Agora, amigo, são 12 meses para pagar sua viagem. Um ano de prestações".
O pensamento me ocorreu igualmente na noite da última quarta-feira ao ver Santos e Corinthians eliminados da Sul-Americana e da Libertadores, respectivamente.
Quis o destino que tudo acontecesse numa mesma noite.
Enquanto a bola de Memphis Depay entrava em órbita, depois de passar muito acima do gol do Estudiantes, o Santos de Neymar era eliminado diante do Galo.
Agora já não resta muita coisa em jogo para os dois no ano.
Mas se encalacraram até a alma para pagar por algo que estava muito acima de suas possibilidades.
Um quadro notório de irresponsabilidade.
Jogando tudo na possibilidade de a bola entrar.
Mesmo que tivesse entrado, já seria irresponsável. E não entrou.
Um fez todas as vontades de Memphis. Atendeu a todos os caprichos, aturou vídeo de Parque São Jorge pegando fogo, exigências mil.
O outro virou refém e dependente financeiro de Neymar.
Já não há mais nada em disputa. Já não há possibilidade de retorno.
E agora?
E agora são muitos meses para pagar. Como aquele torcedor da porta do Sarriá.
Muito mais do que os tais doze meses. Anos.
Vai custar caro demais aos dois não ter respeitado o fato de que uma instituição está sempre acima de qualquer jogador.
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