Gestão Esportiva na Prática: treinadores não jogam. Mas precisam liderar
Em um jogo impossível de controlar, liderar talvez seja menos ensinar o que fazer e mais preparar pessoas para decidir

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Há conversas que terminam quando nos despedimos. Outras continuam trabalhando dentro da gente.
Nesta semana tive uma dessas com meu amigo Evandro Mota, uma das pessoas mais interessantes que conheci no futebol. Evandro atravessou gerações, clubes, países, grandes conquistas e diferentes formas de entender o jogo. Esteve na preparação da Seleção Brasileira campeã do mundo em 1994 e também na Copa de 1998, na França. Trabalhou em grandes clubes brasileiros e europeus e acumulou uma experiência que lhe permite olhar para o futebol sem a ansiedade de quem precisa encontrar uma resposta nova para cada problema antigo.
Falamos muito sobre as novas gerações. E talvez aí esteja um dos maiores desafios do futebol contemporâneo.
É comum ouvir que os jogadores de hoje não prestam atenção como os de antigamente, que estão excessivamente conectados, que questionam demais, que se concentram menos e que têm dificuldade de absorver informações mais longas. Pode até haver alguma verdade nisso.
O problema começa quando usamos essa constatação apenas para reclamar da geração atual e, ao mesmo tempo, reconstruímos o passado com cores muito mais bonitas do que ele realmente teve.
Os jovens mudaram. Mas o mundo também mudou. E nós, líderes, mudamos suficientemente para continuar nos comunicando com eles?

Essa pergunta me interessa muito mais
Não adianta exigir atenção sem aprender a conquistá-la. Não adianta reclamar que as pessoas não escutam quando continuamos nos comunicando da mesma maneira. E não adianta despejar cada vez mais informação sobre atletas e acreditar que quantidade de informação significa necessariamente conhecimento. Vivemos justamente o problema contrário. Nunca tivemos tantos dados, vídeos, análises, relatórios, plataformas e informações disponíveis. O desafio passou a ser separar informação de ruído e transformar informação em conhecimento útil.
No futebol isso se torna ainda mais evidente porque uma partida é uma sucessão quase infinita de acontecimentos imprevisíveis. Durante aproximadamente cem minutos, cada jogador observa companheiros, adversários, bola, espaço, tempo, placar, comportamento do árbitro, contexto emocional e dezenas de outras variáveis que se modificam permanentemente.
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Não existe preleção capaz de antecipar todas essas combinações. Não existe treinador capaz de transmitir previamente todas as respostas. E talvez exista aí uma mudança importante na forma como devemos compreender liderança no futebol.
Durante muito tempo imaginamos um grande líder como aquele que tinha as respostas. Talvez o grande líder contemporâneo seja aquele capaz de preparar pessoas para encontrá-las. Mais do que ensinar, precisamos colocar nossas equipes na posição de aprendiz. Criar ambientes em que o atleta aprenda a observar, interpretar, escolher, errar, corrigir e aprender novamente. Porque, quando a bola começa a rolar, a decisão deixa de pertencer ao treinador.
Liderança pertence aos jogadores
É por isso que uma das frases da nossa conversa permaneceu comigo: líderes precisam formar líderes. Não líderes de discurso. Líderes de decisão. Jogadores capazes de compreender o jogo e assumir responsabilidades dentro dele. Comissões técnicas capazes de discordar sem romper alinhamentos. Executivos capazes de decidir sem esperar que alguém acima valide cada movimento.
Quanto mais complexo o ambiente, menos sustentável será uma organização dependente de uma única pessoa que pensa e de dezenas que apenas executam. Isso vale para o futebol. E provavelmente vale para quase todas as organizações. Nossa conversa terminou também em uma espécie de filtro para aquilo que fazemos diariamente. Diante da quantidade quase ilimitada de metodologias, tecnologias, treinamentos, especialistas e novidades que chegam ao futebol, talvez precisemos fazer perguntas muito simples.
- Aquilo que estamos fazendo aumenta o desempenho?
- Melhora o processo?
- Fortalece o alinhamento de propósito?
- Contribui para a longevidade da atividade?
- Produz conhecimento útil e atualizável?
Esses são cinco pilares que deveriam ser inegociáveis. Aumento de desempenho. Melhoria do processo. Alinhamento de propósito. Longevidade da atividade. Busca de conhecimento útil e atualizável.
Se uma nova ferramenta, metodologia ou ideia não contribui de alguma maneira para esses pilares, talvez estejamos apenas adicionando mais informação a um ambiente que já sofre pelo excesso dela.
Saí da conversa com Evandro pensando que talvez um dos grandes equívocos do futebol atual seja procurar novas respostas com uma velocidade muito maior do que aquela com que formulamos novas perguntas.
Queremos jogadores mais atentos? Precisamos nos comunicar melhor.
Queremos jovens mais comprometidos? Precisamos explicar melhor o propósito.
Queremos atletas capazes de decidir? Precisamos permitir que decidam mais durante o processo de formação.
Queremos novos líderes? Então precisamos parar de formar apenas seguidores.
O futebol continuará imprevisível. Talvez seja justamente essa a razão de continuarmos apaixonados por ele. Nossa obrigação não é eliminar essa imprevisibilidade. É preparar pessoas melhores para enfrentá-la.

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