Gestão Esportiva na Prática: a ponte que ainda não atravessamos
As crises de Ponte Preta e Guarani expõem um futebol que ainda confunde investimento com sustentabilidade e competição com sobrevivência

No último domingo (30), 16 jovens formados nas categorias de base da Ponte Preta entraram em campo para impedir que um dos clubes mais tradicionais do futebol brasileiro perdesse por W.O. Conseguiram.
A equipe foi derrotada pelo América-MG por 2 a 0, mas cumpriu aquilo que lhe havia sido pedido. O problema é que o verdadeiro W.O. já havia acontecido antes de a bola rolar. Os jogadores do elenco profissional estavam em greve. Salários e direitos de imagem acumulavam atrasos que, em alguns casos, chegavam a seis meses. Sem os profissionais, a responsabilidade de representar a instituição foi entregue aos meninos.
Os adultos produziram a crise. Os jovens administraram as consequências.
Há menos de um ano, a Ponte Preta comemorava o título da Série C e o retorno à Série B. Meses depois, encontra-se na última colocação da competição, impedida de registrar novos jogadores e recorrendo à base para evitar uma derrota administrativa.
A distância entre a conquista e o colapso revela a fragilidade de um modelo que funciona por ondas. Investe-se quando aparece dinheiro, amplia-se a estrutura, elevam-se os custos e antecipam-se receitas. Quando o dinheiro termina ou o resultado esportivo não acontece, o clube atrasa, renegocia, desmonta e espera pela próxima oportunidade de recomeçar.
Na mesma cidade, do outro lado de uma das rivalidades mais tradicionais do país, o Guarani também encerrou a semana diante de um fracasso esportivo e financeiro.
O clube entrou na Série C como favorito ao acesso, montou uma das folhas salariais mais caras da competição, contratou jogadores experientes, permaneceu entre os oito primeiros durante 16 das 19 rodadas e chegou a liderar o campeonato. Na última rodada, empatou com o Brusque e terminou em décimo lugar, um ponto abaixo da zona de classificação.
Ponte e Guarani: caminhos diferentes para chegar ao mesmo lugar
Os salários também começaram a atrasar. Parte do planejamento foi sustentada por recursos finitos, especialmente aqueles provenientes da venda de Richard Ríos, e pela expectativa de que a transformação em SAF acontecesse a tempo de financiar a estrutura montada. Não aconteceu.
Ponte Preta e Guarani percorreram caminhos diferentes para chegar ao mesmo lugar. Uma entrou em campo com os meninos porque os profissionais pararam. A outra montou um elenco caro e terminou a competição antes da fase mais importante.
Campinas, uma das cidades mais simbólicas da história do futebol brasileiro, viu seus dois grandes clubes encerrarem o mesmo fim de semana confrontados por uma pergunta que não pertence apenas a eles:
Como construir um futebol capaz de sustentar aquilo que promete?
Um clube não se torna viável porque encontrou dinheiro para financiar uma temporada. Torna-se viável quando consegue disputar a temporada seguinte sem consumir antecipadamente os recursos dos anos posteriores.
O futebol brasileiro se acostumou a elaborar orçamentos sustentados por receitas que ainda não existem. O acesso que pode acontecer, o jogador que talvez seja vendido, a premiação que depende de uma classificação, o investidor que pode chegar ou o adiantamento de receitas futuras passaram a financiar compromissos presentes.
Quando as previsões não se confirmam, a conta não desaparece. Apenas muda de mãos. Jogadores, funcionários, fornecedores, credores e torcedores passam a financiar, muitas vezes sem consentimento, uma estrutura que o clube não conseguia sustentar. O atraso salarial, nesse contexto, deixa de ser somente uma consequência da crise e se torna uma forma involuntária e inaceitável de financiamento da competição.
Mais da metade dos 40 clubes das Séries A e B declarou algum tipo de débito na segunda verificação promovida pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol. A crise da Ponte Preta não pode ser tratada como uma anomalia distante. Ela é um sinal.
Por isso, a construção de uma liga única é tão necessária. Os clubes brasileiros precisam deixar de se relacionar apenas como adversários e compreender que são também sócios do mesmo produto. Nenhuma competição será verdadeiramente forte se parte de seus participantes estiver permanentemente próxima da insolvência.
Uma liga pode melhorar a comercialização dos direitos, organizar o calendário, qualificar estádios, criar padrões de governança e aumentar a previsibilidade das receitas. Pode também estabelecer mecanismos de controle, transparência e solidariedade capazes de proteger a competição dos desequilíbrios provocados pela irresponsabilidade financeira.
Mas a liga não será uma solução automática. Se for criada apenas para vender direitos conjuntamente e dividir dinheiro, terá resolvido somente a parte mais visível do problema. Uma liga não pode ser somente um condomínio comercial de clubes financeiramente frágeis. Precisa representar um compromisso coletivo com a sustentabilidade. Isso exige regras que impeçam um clube de contratar aquilo que não pode pagar, controles que atuem antes do colapso e consequências esportivas para quem transforma o descumprimento de obrigações em vantagem competitiva.
Exige também uma discussão que não termine nas Séries A e B. Uma liga que pretenda fortalecer o futebol brasileiro precisa olhar para toda a pirâmide. O Guarani está na Série C. Outros clubes históricos estão na Série D ou sequer possuem calendário nacional. Se a nova estrutura aumentar apenas a prosperidade de quem já está dentro, poderá fortalecer duas divisões e enfraquecer ainda mais o sistema.
Não se trata de impedir investimentos ou condenar a ambição. Clubes precisam crescer, correr riscos e buscar resultados. O problema não está em investir, mas em transformar expectativa em receita garantida e esperança em orçamento.
➡️Siga o Lance! no WhatsApp e acompanhe em tempo real as principais notícias do esporte
O futebol brasileiro precisa fazer uma travessia. Sair da aposta para o planejamento, da sobrevivência individual para a responsabilidade coletiva e do hábito de gastar aquilo que espera arrecadar para o compromisso de sustentar aquilo que decidiu construir. A Ponte Preta precisou colocar seus meninos em campo. Talvez, sem desejar, tenha nos mostrado que a ponte mais importante do futebol brasileiro ainda precisa ser atravessada.
Ela não liga a Série B à Série A, nem separa a vitória da derrota. Liga o futebol que vive hipotecando o amanhã ao futebol que finalmente será capaz de construir o próprio futuro.

Tudo sobre

Futebol Nacional
IA projeta classificados para semifinal da Copa do Brasil
Há 1 hora
Cruzeiro
Cruzeiro perde chances de títulos em 2026 e foca em 'obrigação'
Há 1 hora
Palmeiras
Palmeiras aposta em dupla mais goleadora do ano para confirmar vantagem sobre o Santos
Há 1 hora
Futebol Nacional
Flamengo pode tirar o Vasco do Z-4 nesta quarta-feira; entenda
Há 1 hora
Atlético Mineiro
Análise: Atlético vence com méritos e Fred brilha pela primeira vez
Há 2 horas
São Paulo
Como o São Paulo garimpa os garotos que Dorival tem usado?
Há 2 horasMais LANCE!

Corinthians: veja 10 jogadores que podem sair em 2027

Jogos de hoje: quem joga no futebol e onde assistir ao vivo – quarta-feira (02/09/2026)

Santos terá que quebrar tabu de 20 anos contra Palmeiras para avançar na Copa do Brasil

Vasco tenta manter escrita quase perfeita após abrir vantagem na Copa do Brasil

Matheus Pereira lamenta eliminação do Cruzeiro e não vê 'crise criativa'

Fred não esconde emoção após classificação do Atlético: 'Nem no melhor sonho'

Domínguez ressalta conexão com jogadores e crescimento do Atlético: 'Acreditar'

Alexsander grava Kaio Jorge e provoca atacante após classificação do Atlético: 'Papai tá aqui'

Diretor do Cruzeiro se desculpa com torcida, cobra reação e promete vaga na Libertadores

Artur Jorge explica alterações em Atlético-MG x Cruzeiro

Dê suas notas: avalie as atuações em Cruzeiro x Atlético-MG

Fred marca, Atlético-MG vence Cruzeiro de virada e avança na Copa do Brasil


