Gestão Esportiva na Prática: acredite, esta não é uma coluna sobre política
Quase todos defendemos processos e convicções. Pelo menos enquanto os resultados ajudam

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Estamos acompanhando uma das mais delicadas crises institucionais dos últimos tempos. De um lado, um ministro questiona procedimentos adotados por outro. Surgem divergências públicas, acusações, questionamentos sobre limites, ritos, ética, transparência e concentração de poder. Aquilo que durante algum tempo parecia restrito a determinados grupos passa, de repente, a ocupar espaço central no debate público.
A crise atual ganhou outra dimensão a partir de uma investigação relacionada ao Banco Master. Um relatório da Polícia Federal trouxe questionamentos sobre a atuação de integrantes do próprio sistema de Justiça. Um ministro tornou públicas informações que atingiam outro, que reagiu levantando suspeitas sobre a maneira como a investigação havia sido conduzida. O conflito deixou de acontecer apenas nos bastidores, obrigou a presidência do Tribunal a intervir e colocou em discussão algo maior do que os próprios personagens: quem controla aqueles que têm o poder de controlar?
Mas essa discussão não começou agora. Desde 2019, quando o próprio Supremo abriu o chamado inquérito das fake news, existem questionamentos sobre sua origem, seus limites, a concentração de funções, sua duração e a amplitude das decisões tomadas a partir dele. O Tribunal reconheceu posteriormente a constitucionalidade do inquérito, mas isso não encerrou o debate sobre a maneira como ele passou a funcionar ao longo dos anos.
E talvez essa seja a parte mais interessante de qualquer crise. Muitas vezes, ela não começa quando descobrimos algo novo. Começa quando passamos a enxergar de outra maneira aquilo que já estava diante de nós.
Durante anos, determinadas práticas foram questionadas. Algumas críticas foram desconsideradas não necessariamente pelo conteúdo, mas pela identidade de quem as fazia. Afinal, quando discordamos de alguém, temos enorme facilidade para examinar suas intenções antes de analisar seus argumentos. Até que algo muda.
Não é verdade que a imprensa não tenha feito críticas antes. Fez. O que chama atenção é como determinados questionamentos ganham outra dimensão quando deixam de partir apenas de grupos políticos e passam a nascer dentro do próprio sistema. Aquilo que parecia exagero começa a merecer reflexão e o que antes era interpretado como ataque passa a ser chamado de preocupação institucional.
É curioso como os princípios podem ser elásticos.
Um procedimento parece aceitável enquanto produz consequências com as quais concordamos. Uma decisão parece corajosa enquanto entrega o resultado esperado. A autonomia é celebrada até o instante em que começa a nos incomodar. Depois disso, mudamos rapidamente o vocabulário.
Coragem vira irresponsabilidade, convicção passa a ser teimosia, autonomia vira insubordinação e planejamento começa a parecer omissão. Tudo depende do que aconteceu depois.
O que isso tem a ver com futebol?
E talvez você esteja lendo esta coluna imaginando ou se perguntando o que isso tem a ver com futebol. E eu te respondo: TUDO. ABSOLUTAMENTE TUDO.
Há anos ouvimos que os clubes brasileiros precisam profissionalizar a gestão, abandonar decisões emocionais, estabelecer processos, respeitar orçamento, construir planejamento e deixar de administrar suas instituições de domingo a domingo.
O problema aparece quando alguém tenta fazer exatamente isso.
Bastam alguns resultados ruins para que parte daqueles que defendiam planejamento passe a exigir mudanças imediatas. Quem cobrava estabilidade pergunta por que o treinador ainda não foi demitido. Quem criticava contratações em excesso cobra novos jogadores. Quem defendia responsabilidade financeira começa a perguntar por que o clube não investe mais.
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E quem exigia convicção passa a chamar convicção de teimosia. O futebol tem uma enorme capacidade de reorganizar nossas certezas depois que a bola entra ou deixa de entrar. E aqui mora uma das maiores dificuldades de quem administra um clube.
Óbvio que processos não podem virar dogmas, planejamento não pode proteger incompetência e que convicção não significa insistir indefinidamente no erro. Toda gestão precisa avaliar, corrigir e mudar quando os fatos demonstrarem que determinada decisão não funcionou. Mas existe uma diferença enorme entre mudar porque as evidências demonstraram que o caminho está errado e mudar simplesmente porque a pressão aumentou.
Qualquer dirigente consegue defender planejamento depois de cinco vitórias consecutivas. O desafio é defendê-lo depois de três derrotas, quando a arquibancada protesta, as redes sociais explodem e parte daqueles que exigiam paciência começa a perguntar até quando o clube pretende esperar.
Talvez o verdadeiro teste dos princípios aconteça exatamente aí, quando eles deixam de ser convenientes. Porque princípios que só sobrevivem aos bons resultados não são princípios. São circunstâncias.
E acredite, qualquer semelhança com Brasília não é mera coincidência.
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