Marcos Assunção: 'Darei a vida para ganhar e ver o meu filho feliz'

Se existe um jogador com uma grande responsabilidade na noite desta quarta, na decisão da Copa do Brasil, esse é Marcos Assunção. Aos 36 anos, o volante do Palmeiras é o mais experiente do grupo. Além disso, é o capitão do time e pode levantar uma taça nacional depois de 14 anos.

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Mas essa pressão é a menor de todas. O camisa 20 tem uma responsabilidade grande em casa. Mais do que alcançar uma realização profissional e ver a festa da torcida, o jogador quer voltar para casa e observar o sorriso do filho, Bryant, de três anos – ele ainda tem uma filha, Nicole, de oito. Se na semana passada o menino não dormiu pela comemoração do arquirrival, dessa vez, a ideia é passar a noite acordado para festejar o título do Verdão. E vibrar ainda mais ao ver o pai levantar a taça.

Assunção é o quarto jogador do elenco com mais partidas pelo Alviverde – são 129. Em um pouco mais de dois anos no clube, ele passou a amar o Palmeiras. Principalmente, por causa do filho.

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Em uma conversa de 40 minutos com o LANCENET!, o volante falou sobre a família, a ansiedade em poder levantar a taça, elogiou o Coritiba e quase se emocionou ao falar de sua família. Confira:

LANCENET!: Após 14 anos, você pode ser o capitão do Palmeiras a erguer uma taça nacional. Como controlar essa ansiedade?
Marcos Assunção: É difícil. Às vezes, você deita na cama para dormir e o sono demora para vir. Passa um filme na cabeça, tem a ansiedade. A gente não pode só pensar em ser campeão. Vai ser uma guerra, uma batalha dura. A ansiedade é muito grande. Fico pensando nas coisas que não podem acontecer, como a gente tomar gol, se desesperar durante o jogo, levar sufoco, o que é normal. Mas a maior parte do pensamento é em algo grande: levantar a taça e ser campeão depois de todo esse tempo. Eu e mais alguns jogadores estamos aqui há dois anos e a gente sabe o que trabalhamos para estar nessa final. O que a gente quer é dar essa alegria para a torcida, para nossa família, que aguenta a gente nos momentos ruins. Na minha carreira, com 36 anos, me acho um vencedor. Só em poder estar aqui com essa idade, jogando pelo Palmeiras e atuando na maioria dos jogos é super importante. Gostaria que todo jogo fosse uma final para que eu tivesse a possibilidade de levantar um troféu. Esse é a hora que eu sempre esperei desde quando cheguei, desde quando voltei ao Brasil: ser campeão, lutar por um título. Chegou o meu momento. É o momento de os jogadores do Palmeiras, o clube e a torcida comemorarem. Com muito respeito ao Coritiba, mas vamos dar tudo nessa partida. Vamos dar nossa vida para sermos campeões.

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LNET!: O que você vai dizer para o grupo no vestiário antes do jogo?
MA: Todo mundo passa confiança. Não é porque eu sou o mais velho e experiente que só eu tenho de falar. Em nenhum lugar tem de ser assim. Se o mais novo, com 17 anos, quiser falar, ele vai falar e eu, com 36, vou ouvir. Não é porque estou com 36 anos e sou o mais velho do grupo que sou o dono da verdade. É impossível de ser assim, é ruim de ser assim e eu não sou assim. Sou um cara bem conversador, que gosta de analisar as coisas. Se eu estiver errado, sou o primeiro a baixar a cabeça. Se eu fizer algo de errado, sou o primeiro a abaixar a cabeça e pedir desculpa. É assim que tem de ser nossa vida.

LNET!: Você chegou a dizer que esse seria seu principal título na carreira. Por que tem essa opinião?
MA: O que passou, é passado. Quero fazer história pelo Palmeiras. Fiz história pela Roma? Fiz. Fiz história pelo Betis por ter sido campeão também? Fiz. Fui campeão nos Emirados Árabes? Fui. Mas aqui é meu lugar hoje. Aqui é onde venho todo dia, é o clube que aprendi a gostar e ter prazer de pegar o carro de manhã, dar um beijo no meus filhos e vir treinar. Aqui me dedico todos os dias. Tive a possibilidade de levar o clube a uma decisão depois de tanto tempo e tenho a chance levantar uma taça como capitão. Isso eu nunca fiz. Nos títulos que ganhei, não era capitão. Tenho a chance de dar essa alegria para a torcida depois de tanto tempo e colocar o Palmeiras onde sempre esteve.

LNET!: De onde veio toda essa identificação com o Palmeiras?
MA: A gente precisa ter amor onde trabalha. Tenho amor no que eu faço. Logo quando cheguei, fiz uma entrevista e o cara perguntou se eu gostava do Palmeiras, se era palmeirense. Respondi: "Olha só, no trabalho, é como em um relacionamento. Você conhece a pessoa, se está dando certo, você se apaixona, e depois você começa a amá-la até o momento que você se casa. Se disser que amo o Palmeiras hoje, estarei mentindo e isso é não faço. Estou chegando agora e não posso falar que gosto e me identifico". Hoje, não. Já se passaram mais de dois anos e isso se transformou em amor. Logo quando vim para cá, meu filho tinha um ano e pouco. Hoje, quase com quatro, ele já entende de futebol. Ele aprendeu a ser palmeirense. Quando falo que vou trazê-lo para o treino, ele não dorme e fica falando para a mãe. Teve uns dias que eu ia trazê-lo, mas não deu porque estava frio. Quando cheguei em casa, ele deu uma dura em mim e na mãe. Isso faz a sensação crescer. Ele usa o computador e só quer ver coisa do Palmeiras. Ele vem e sabe o nome de todos. Vou ser eternamente grato ao Palmeiras quando parar. Esse amor aumenta quando vejo meu filho. Isso faz com que crie forças para jogar. Nessa decisão, não é querendo me gabar, mas vou dar minha vida para ser campeão, ser feliz, ver meu filho feliz, fazer minha família, meus amigos e a torcida felizes. Pode ter certeza de que essa vai ser minha decisão. É a final dos jogadores do Palmeiras, que estão com essa confiança.

LNET!: O que representa saber que seu filho pode ver pela televisão, quem sabe, o pai levantar a taça?
MA: Não faz isso que eu choro. Verdade. A gente até brinca. Ele estava em casa e quando o Corinthians foi campeão e falei: "Filho, e aí?" Ele respondeu: "Pai, não consegui dormir à noite". São muitos fogos. Disse, então: "Filho, não esquenta, porque na semana que vem você não vai conseguir dormir de felicidade. Vão ser fogos porque o Palmeiras ganhou". Aí, ele abre um sorrisão largo e você pensa que precisa ganhar. Tem de ganhar para dar essa felicidade especialmente para ele. Minha maior felicidade vai ser ver a felicidade dele e dos torcedores. Por isso, falo que vai ser o meu título mais importante. Quero vencer aqui como foi minha carreira inteira. Onde passei, deixei minha marca. Se pegarem minha primeira entrevista, queria ganhar um título importante para o Palmeiras. Estou tendo essa chance. Não posso deixar passar a oportunidade.

LNET!: O goleiro Bruno comentou que quando vocês estão no vestiário, olham os pôsteres antigos e comentam que o espaço de vocês está reservado. Como é isso?
MA: Brinco muito com César Sampaio, Galeano. Toda a vez que eu entro naquele vestiário, dou de frente com a foto do Sampaio levantando a taça da Libertadores. Toda vez, eu me arrepio e penso: "Meu Deus do céu, quando vai chegar a minha hora? Quando vai chegar o meu momento de fazer aquilo?" Penso que tenho de estar naquela parede em alguma foto. O importante é ser lembrado depois que você sair e ter as portas abertas.

LNET!: Como está a questão da aposentadoria na sua cabeça e quanto o titulo pode ajudar você a resolver?
MA: Eu não pensei nisso. Meu pensamento é a Copa do Brasil. Se eu parar ou continuar, isso é depois, quando terminar o ano. Não faço planos, espero o momento. O momento hoje é a Copa do Brasil. Não consigo dormir pensando na Copa do Brasil. Muitas vezes, me estresso em casa e aí tem briga (risos). Mas tudo isso é pensando na Copa do Brasil, pensando nos jogos que tínhamos. Isso eu deixo mais para frente. Acho que vou sofrer muito, porque sempre deixo as coisas para a última hora. Não faço planos. No fim do ano, vejo o que vou fazer.

LNET!: Qual o jogo exemplar do Palmeiras para ser repetido?
MA: Acho que o jogo contra o Grêmio, no Sul. É jogar fechadinho, tranquilo. Muitos times chegam aqui e jogam no nosso erro. A gente quer atacar e o time vem e faz o gol. Jogando fora de casa contra grandes equipes, acho que tem de ser assim. Contra Grêmio e Coritiba, que são difíceis de enfrentar no campo deles, temos de jogar assim. É ficar com a bola quando acharmos necessário e, quando estiver sem, marcar forte, porque vão vir com força. Precisamos ter consciência que vamos ser pressionados, mas vamos ser fortes para suportar a pressão. Vão jogar diante da torcida deles, mas temos de ser 11 guerreiros em campo que vão suportar essa pressão. Os 30 mil estão fora. Lá dentro, vão ser 11 contra 11.

LNET!: Como o grupo recebeu a notícia do problema de Barcos?
MA: Foi complicado. Na reunião, falamos que iríamos fazer de tudo pelo nosso companheiro. Não só por ele, mas por Luan, que estava machucado, por Wesley, que chegou e teve uma lesão supergrave. O grupo do Palmeiras hoje é muito bom por isso. Não tem briga, não tem ciúmes.

LNET!: Como está sentindo Felipão nesse momento decisivo?
MA: Ele está bem tranquilo. Por ter ganho tudo, ficar muito tempo sem ganhar irrita e vem a pressão. Mas ele suporta tudo. Estourava para fora daquele jeito dele, mas no vestiário chegava e falava: "Pessoal, estamos juntos, vou dar a cara por vocês". Não me lembro o jogo em que tivemos problemas. Eu, Bruno e Henrique entramos na sala dele e dissemos: "Professor, se isso aqui arrebentar, vamos arrebentar juntos. Se isso aqui cair, vamos cair juntos. Não vamos deixar você segurar a peteca sozinho, porque estamos juntos com o senhor para o que der e vier". Ele até me deu um bilhete que dizia: "Quando o leão velho vê algum tipo de dificuldade..." Sei lá. Quando um leão velho vê alguma dificuldade, ele vai lutar até a morte. É quase isso. Peguei e colei no meu armário. Toda vez que abro, vejo aquilo. Falamos para ele que estávamos juntos. E olha onde a gente está hoje: na final da Copa do Brasil. Ninguém mais do que ele vai desabafar por toda a pressão que sofreu. Vou ficar superfeliz por ele. É um cara sensacional, o mais honesto com quem trabalhei no futebol. Não tenho o que falar. Tem o programa do Raul Gil de tirar o chapéu. Eu tiro para Felipão.

LNET!: Kleber foi um problema para o Palmeiras na última temporada?
MA: Não digo. Minha honestidade começa por aí. Jamais falei e não vou falar mal de um companheiro que jogou comigo. Para mim, ele não foi um problema. Nas vezes em que esteve em campo, me ajudou. Nas vezes em que vestiu a camisa, tentou honrar. Teve problema com a diretoria, com o clube, a torcida. Mas para mim, nunca fez nada. Não estaria sendo honesto ou profissional, com o cara lá no Sul, falar que Kleber é isso ou é aquilo. Ele quis ver o lado dele. Em nossa vidas, temos opções e temos de ir para um lado. Ele foi para o lado que achou ser o certo. Não julgo. Quem sou eu para julgar Kleber? Prefiro me lembrar dos momentos que passamos.

LNET!: Você já imaginou fazer uma homenagem para Caieiras ou para seus filhos se levantar a taça?
MA: Já pensei. Vocês vão ver na hora se a gente for campeão. Sou muito família, amigo. Moro no mesmo lugar onde nasci. Meus amigos são os mesmos da infância. Saio daqui, vou para lá e fico o dia inteiro com meus amigos, minha mãe, meus irmãos. Gosto de jogar sinuca com uns velhinhos do bairro que me viram crescer. Meu mundo é aqui. Gosto da minha vida simples.

LNET!: Pensa em deixar o bigode para homenagear o Felipão?
MA: Pô, não cresce. Mas se pegarem uma foto antiga, tinha bigodinho na época do Santos. Independentemente de qualquer tipo de homenagem, vou ficar feliz se a gente conquistar o título e ele tiver mais uma conquista.

Marcantes para Assunção:

Tatuagens


Marcos Assunção tatuou algumas frases que servem de inspiração: "O fraco não tem espaço", "A preguiça é inimiga da vitória" e "O covarde morre sem tentar" e "Só Deus pode julgar".

Chuteira


Marcos Assunção continua com o pé calibrado na temporada. O camisa 20 marcou oito gols e tem dez assistências. Ano passado, ele marcou duas vezes contra o Coritiba, uma no Couto.

Família


O volante sempre fala dos filhos: Nicole e Bryant, que é fanático pelo Verdão: "No fim de semana, ele só quer usar a roupa do Palmeiras. Tem vez que quer colocar para ir à escola".

Títulos na carreira:

Santos
Pelo Alvinegro, ele conquistou os primeiros títulos da carreira: o Torneio Rio-São Paulo de 1997 e a Copa Conmebol do ano seguinte.

Roma (ITA)
Pelo clube italiano, venceu o Campeonato Italiano e a Supercopa da Itália em 2001.

Betis (ESP)
Na Espanha, o único título de Marcos Assunção foi a Copa do Rei, vencida em 2005.

Al-Ahli (EAU)
Pelo Al-Ahli, o jogador conquistou o último título até agora: a Copa dos Emirados Árabes, em 2007.

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