História mostra que Seleção Brasileira sob desconfiança pode ser bom sinal para Copa
Pesquisa aponta que só 14.9% dos brasileiros estão animados ou muito animados com torneio

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A Seleção Brasileira foi convocada para a Copa do Mundo na segunda-feira por Carlo Ancelotti, em cerimônia com pompas, centenas de jornalistas de todo o mundo, em contraste com um clima de desconfiança entre os torcedores país afora. Neste ciclo de quatro anos, trocas de técnico, futebol aquém do que se espera de um time vestindo a camisa amarela, e o apelo a um estrangeiro. Pela primeira vez, um cidadão de outro país comandará o Brasil na competição que se iniciará no próximo mês em três países-sede: Estados Unidos, México e Canadá. Mas a história mostra que não haver uma euforia exacerbada pouco antes do início do torneio não é necessariamente ruim, pelo contrário.
De contrato renovado até 2030, Ancelotti vive um cenário inédito. Houve, em outras situações, estrangeiros no comando da Seleção Brasileira, o último deles um argentino em 1965. Mas todos em momentos pontuais. Já o técnico italiano prorrogou o seu vínculo até o fim da Copa de 2030, em claro sinal de respaldo que os treinadores que o antecederam não tiveram. Depois da saída de Tite, em 2022, a CBF não mostrou convicção semelhante nem com Fernando Diniz, que dividiu função com o comando do Fluminense, nem com Dorival Júnior, que não conseguiu se firmar. Só que a mesma confiança depositada em Ancelotti não se reflete em convicção dos torcedores em relação à equipe.
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Em pesquisa divulgada na última semana pela AtlasIntel, 39.8% dos brasileiros escolheram desconfiança como a palavra que melhor descreve seu sentimento em relação à Seleção Brasileira nesta Copa, com 31% escolhendo a indiferença, e 23.4% optando por esperança. O orgulho somou somente 0.2%, perdendo para a raiva, com 3.4%. Entre os que não pretendem acompanhar a competição, 59% atribuem a escolha ao desinteresse pela equipe de Ancelotti. Clima pesado? Para supersticiosos, pode ser o ambiente ideal. Não seria a primeira vez que o descaso terminaria em triunfo, como não foram poucas as vezes em que a euforia se transformou em vexame ou frustração.
Da descrença ao triunfo
Antes da Copa de 1994, por exemplo, um futebol apático nas Eliminatórias criou um ambiente turbulento deixando um clima de apreensão até a última rodada do torneio, em 19 de setembro de 1993. Foi quando Romário, então afastado por indisciplina, foi chamado por livre e espontânea pressão popular por Calos Alberto Parreira após a lesão de Muller. Entrou, deu show, resolveu. Avisou que a Seleção Brasileira, que amargava um jejum de 24 anos, voltaria campeã. E retornou exibindo a taça já na janela do avião.
Em 1958, Vicente Feola, descendente de italianos, saiu desacreditado por um Maracanazzo oito anos antes, novo fracasso em 54 e problemas estruturais do esporte no país. Colocou o Brasil no topo do futebol mundial pela primeira vez.
Agora, em 2026, a Seleção vem de vexame histórico ainda mal cicatrizado em casa contra a Alemanha, participações medianas nas edições seguintes, e, por ora, sem apresentar um futebol capaz de cativar. O ídolo maior, Neymar, está longe de seu auge e luta contra constantes lesões. E, ainda assim, todos os ingressos para a partida amistosa contra o Panamá, no próximo dia 31, no Maracanã, que marcará a despedida da Seleção rumo à Copa, se esgotaram em questão de horas no país do futebol.

A situação atual de Neymar, de certa forma, remete às dúvidas que cercavam o Fenômeno em 2002. Antes do penta, desconfiança. Felipão estava longe da unanimidade, Ronaldo tentava se recuperar de lesão gravíssima no joelho e era uma incógnita. A equipe se classificou aos trancos nas Eliminatórias, foram quatro técnicos naquele ciclo (Luxemburgo, Candinho, Leão e Scolari), com resultados vexatórios no caminho, como a eliminação na Copa América de 2001 para Honduras, nas quartas de final. E a história termina com Ronaldo artilheiro da Copa e taça na mão.
Da euforia à frustração
Quando a situação é inversa, não é raro a euforia não se traduzir em triunfo, ou até rimar com tragédia. Em 82, o timaço derrubado por Paolo Rossi foi para a Espanha sob absoluto favoritismo. O time de Telê Santana era considerado, se não o melhor, um dos melhores esquadrões do planeta, com uma campanha impecável nas Eliminatórias.

Na Copa que sucedeu o bicampeonato mundial brasileiro, em 1966, o ambiente igualmente era de empolgação e convicção de que o tri era questão de tempo - e era, só que levaria mais quatro anos. A preparação se contaminou pela euforia e pela pressão de federações estaduais e do regime militar. Foram 47 jogadores convocados para o período de treinos, com o Brasil sendo dividido em quatro seleções diferentes que excursionavam pelo país para exibição. O resultado foi uma eliminação ainda na primeira fase após derrotas para Hungria e Portugal.

O Mundial seguinte ao sucesso dos três "R" também outro exemplo de euforia desmedida, certeza do hexacampeonato, e final frustrante. A "farra" na Suíça, em Weggis, em 2006, com treinos abertos para milhares de pessoas que pagavam para ver as atividades, invasões de campo, badalação. Adriano e Ronaldo se apresentaram fora das condições ideais, e o artilheiro de 2002 chegou a sofrer até com bolhas nos pés em função de chuteiras novas. No caminho do Brasil, novamente, havia Zidane. Nas quartas, contra a França, o craque mais uma vez ditou o ritmo da eliminação brasileira, com direito a cenas como a de Roberto Carlos ajeitando o meião no lance do gol que selou a derrota.
Pesquisa detalha interesse na Copa e popularidade dos atletas
E o momento atual é de convicção e esperança ou ceticismo? Segundo a AtlasIntel, somente 14.9% dos brasileiros estão animados ou muito animados com a Copa do Mundo. Pouco animados e nada animados chegam a 49.8%, quase metade dos entrevistados, com 35.3% indiferentes. A descrença é ainda maior entre os mais velhos, com 62.7% das pessoas com mais de 62 anos nada empolgadas com a participação do Brasil na competição.

Na análise por renda familiar, o desânimo bate mais forte em quem ganha entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, com 57.8% dos entrevistados respondendo não estarem nada animados para o Mundial. Por região, a mesma resposta foi escolhida por 63.2% dos participantes da pesquisa que residem no Centro-Oeste. Outro número que chama atenção é o de 59% das pessoas que não pretendem acompanhar a Copa terem justificado a atitude com desinteresse pela Seleção Brasileira. A segunda justificativa mais recorrente foi perda de hábito, com 21%.

Com Neymar convocado, os holofotes sobre Vini Jr se dividem. Jogador já eleito melhor do mundo, que decidiu duas Champions League, mas que, de amarelo, ainda não conseguiu repetir as performances do Real Madrid. Contra o Panamá, a Seleção terá sua última oportunidade em território nacional de fazer a empolgação tomar a nação. Mas o craque também é motivo de desconfiança para a torcida brasileira.
Os dados sobre a popularidade dos comandados de Ancelotti mostra que Vini Jr é conhecido por 83.9% dos entrevistados e lidera a lista seguido do veterano Casemiro, com 81%, e do jovem Endrick, emprestado ao Lyon pelo Real Madrid. Porém, somente 46% dos que o conhecem o avaliam como muito bom, ficando em quinto lugar na lista dos nomes analisados, atrás até de Danilo, do Botafogo, que só passou a ser convocado neste ano.

Luiz Henrique, do Zenit, que somente 44.7% disseram conhecer, é o que recebeu melhor avaliação: 63% o enxergam como muito bom. Ele vem seguido de Endrick, com 59%, e Rayan, com 51%. Na ponta debaixo desta tabela, Douglas Santos (12%), Ibañez (11%), e Bremer (10%), são os piores entre os analisados. Vale lembrar que a lista foi feita com base na última convocação antes da chamada final para a Copa e não incluiu, portanto, jogadores como Lucas Paquetá.
Curiosamente, medalhões do futebol brasileiro como Danilo, do Botafogo, e Léo Pereira, do Flamengo, são desconhecidos por mais da metade dos entrevistados. E a lista inclui destaques internacionais como João Pedro, do Chelsea, Rayan, do Bournemouth, Gabriel Martinelli, do Arsenal, e Wesley, do Roma. Todos são conhecidos por menos de 40% dos entrevistados.

Ainda de acordo com a pesquisa, a França é franca favorita para vencer a Copa do Mundo, com 35.8% dos votos, mas surpreendentemente não tão distante do Brasil, em segundo lugar com 29.7%, bem longe da terceira colocada Espanha, com apenas 9.8% dos participantes convictos de que erguerão a taça.
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