Brasileiro fez de Uber a 'delivery' de barcos antes de virar proeiro na elite
Pedro Trouche trabalhou como motorista por um ano para bancar despesas, mas hoje prefere se dedicar aos barcos, seja na prestação de serviços ou com títulos na classe Star

As ruas e avenidas da Região Metropolitana do Rio de Janeiro foram cenários de alívio para o niteroiense Pedro Trouche. O velejador, atual quarto colocado no ranking de proeiros (quem cuida da preparação das velas no momento da troca) da classe Star e uma das atrações do Campeonato Europeu da categoria nesta semana, em Riva del Garda (ITA), trabalhou como motorista do Uber para pagar as contas, antes de iniciar a escalada que o permitiu viver da sua paixão.
Campeão das Finais da Star Sailor League (SSL) em dezembro do ano passado, ao lado de Jorge Zarif, em Nassau (BAH), Pedro é parceiro de Lars Grael na disputa italiana, que marca a despedida do veterano das competições internacionais. Aos poucos, tenta se desenvolver em meio a lendas de um esporte que, até pouco tempo atrás, ele praticava de forma amadora.
Em 2016, Trouche iniciou a faculdade de Administração, em Niterói, e resolveu se tornar independente dos pais. O serviço de caronas garantiu retorno financeiro durante um ano. Nas horas vagas, o atleta velejava na equipe da Marinha.
A proximidade com o setor o levou a agarrar oportunidades. Primeiro, fez "delivery" de embarcações. Depois, aceitou convites para disputar campeonatos ao lado de timoneiros que estavam sem parceiros. De forma inesperada, veio o título nas Bahamas e a certeza de que a vida mudou.
– Eu precisava pagar as contas. Trabalhei de Uber até 2017, mas também passei a fazer delivery de barcos grandes. Fiz dois grandes naquele ano e outros menores pelo Sudeste, de Ilhabela ao Rio. Com isso, larguei o aplicativo e passei a me dedicar mais à vela e à Star, pela qual tenho uma relação de amor – disse o velejador, ao LANCE!.
As premiações na classe Star, de fato, são atraentes. Em Nassau, Pedro e Zarif faturaram US$ 40 mil (cerca de R$ 160 mil) pelo título. No Europeu, serão distribuídos US$ 100 mil (cerca de R$ 400 mil) entre os dez primeiros colocados.
Apesar dos resultados, o velejador ainda complementa sua renda com outras atividades, mas agora dentro do barco. Entre o Europeu e o Mundial de Star, que ele disputará em junho, ao lado do holandês Haico de Boer, em Porto Cervo, Trouche passará dez dias na Espanha como charter, função desempenhada por donos de embarcações que as alugam e prestam serviços de turismo.
– Fiquei com mais dúvida ainda sobre o futuro depois de conquistar o título nas Bahamas. Eu estava começando a procurar estágio e queria trabalhar em uma empresa para ter experiência em escritório, mas surgiram os convites – falou o atleta, de 28 anos, que pretende velejar em alto nível enquanto os resultados aparecerem.
– Há muitos proeiros na Star com mais bagagem do que eu. Estou subindo uma escada. Quero me tornar mais técnico e vou tentar me manter. Tenho a idade a meu favor.

Velejador celebra recuperação do pai após câncer
Pedro Trouche viveu um ano difícil em 2018. Além de perder o avô, que considerava um herói, o atleta viu seu pai se submeter a uma cirurgia de urgência para extrair um dos rins, após descobrir um câncer. Tudo isso enquanto os convites para velejar apareciam.
Ele viajou para Nassau, onde ganhou as Finais da SSL, poucos dias após a operação, que foi bem sucedida. O pai sempre incentivou a presença do filho nas regatas, mesmo nas horas mais difíceis.
– Esta semana, ele fez um exame de sangue que mostrou muita melhora. O rim está funcionando bem. Estou com a cabeça leve. Quando fui para as Bahamas, pensava nele. Família é o mais importante para mim. Sou filho único, neto único e único neto homem do lado de mãe. Sempre fui muito presente na vida dos meus pais e avôs – contou o niteroiense.
Scheidt e Maguila lideram o primeiro dia
O Brasil liderou o primeiro dia do Campeonato Europeu, que tem status de Grand Slam da Star Sailors League. Ontem, Robert Scheidt e Henry Boening encerraram na ponta, após duas regatas. Eles obtiveram um terceiro e um primeiro lugar (quatro pontos perdidos). Em seguida, aparecem o americano Paul Cayard e o brasileiro Arthur Lopes, com cinco pontos perdidos.
– Foram duas regatas fortes, mas há muitas ainda por vir. Não estamos pensando se estamos em primeiro. Agora, queremos fazer boa média e evitar colisões – afirmou Scheidt.
Henry acredita que as largadas decidiram a boa colocação da parceria, em um dia de condições duras. A primeira foi decretada com temperatura de 8ºC e ventos de 18 nós.
– As duas foram bem difíceis. As largadas serão decisivas nas condições daqui – afirmou Boening.
Augie Diaz e Bruno Prada estão em oitavo, com 23pp. Já Pedro Trouche e Lars Grael ocupam a 11ª colocação, com 34pp. Samuel Gonçalves aparece em 35º, com 76pp, ao lado de Haico de Boer. O pior resultado é descartado. De hoje até domingo, serão realizadas duas regatas por dia. Os 10 primeiros se classificam às finais.
– Hoje (quarta-feira) não foi ruim diante do que velejamos. Não merecemos ainda estar entre os dez, pois tivemos dificuldades de nos adaptar ao barco. Mas é uma semana longa. Tivemos pouco tempo de treino e o entrosamento não é 100% ainda – disse Trouche.

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