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Gestão Esportiva na Prática: Quando continuar é o mais difícil

Na reta final da temporada, é hora de diminuir o horizonte e confiar no que foi construído.

PorFelipe Ximenes•
Colunista
Rio de Janeiro (RJ)•
08/10/2026 08:00

Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Ilustração de um estádio de futebol com partida observada por torcedores
Foto: IA

Chegamos àquele momento do futebol brasileiro em que quase todas as equipes começam a fazer contas. Nas Séries A e B, à medida que a temporada se aproxima do fim, a tabela vai deixando de ter apenas uma classificação para se transformar também em uma espécie de arquivo de arrependimentos, ou muro das lamentações. Aparece o jogo que não poderíamos ter perdido, os pontos que escaparam nos minutos finais, aquela contratação que deveria ter sido feita, a contusão que mudou o planejamento, o jogador que poderia ter chegado antes, a decisão que, vista de outubro, parece tão óbvia.

O problema é que outubro tem informações que março, maio e julho não tinham.

É muito fácil reconstruir uma temporada de trás para frente. Difícil é tomar decisões enquanto ela está acontecendo, com informações incompletas, pressão, limitações financeiras, lesões, erros de arbitragem, mudanças de ambiente e todas as variáveis que fazem do futebol algo tão fascinante quanto cruel.

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Por isso, penso que existe um momento da temporada em que precisamos parar de assistir ao filme inteiro. É preciso fragmentá-lo em fotografias. Quando faltam poucos jogos, olhar para os meses que passaram pode produzir um peso que já não ajuda. Da mesma maneira, olhar excessivamente para aquilo que ainda falta pode transformar cada rodada em uma equação impossível. É necessário diminuir o horizonte.

O próximo jogo, o próximo treino, a próxima recuperação, a próxima decisão. Não porque tudo o que aconteceu antes deixou de importar, mas justamente pelo contrário. É nesse momento que uma equipe precisa confiar no repertório que construiu ao longo do ano. Repertório técnico, físico, emocional e, principalmente, comportamental.

Na reta final, dificilmente haverá alguma grande novidade capaz de transformar completamente uma equipe. Os times já sabem jogar, os jogadores já se conhecem, as virtudes e limitações estão expostas. O treinador conhece as respostas do elenco e o elenco conhece as reações do treinador.

É quando aquilo que foi repetido durante meses começa a aparecer sem que seja necessário pensar tanto. E é justamente aí que mora uma das maiores diferenças entre equipes preparadas para chegar ao fim e aquelas que simplesmente chegaram até ele.

Uma temporada brasileira é longa demais para ser vencida apenas com entusiasmo. Não existe estado permanente de motivação, ambiente perfeito ou sequência contínua de bons resultados. Em algum momento virão derrotas, contusões, cobranças, conflitos, viagens desgastantes e decisões difíceis.

Nessas horas, mais importante do que acelerar é não interromper o movimento.

Tenho pensado muito nisso. A capacidade de seguir fazendo o que precisa ser feito, sob qualquer condição, mas
principalmente nas piores, separa os bons dos diferentes. Continuar treinando bem quando o resultado não veio. Manter critérios quando a pressão pede atalhos. Sustentar convicções quando todos exigem rupturas. Conversar quando é mais fácil se esconder. Cobrar quando o ambiente pede complacência. E, principalmente, não abandonar aquilo em que se acreditou apenas porque o momento ficou desconfortável.

Existe uma enorme tentação, nesta fase da temporada, de procurar alguma ação extraordinária capaz de resolver em poucas semanas tudo aquilo que foi construído, ou não foi, durante meses. Na maioria das vezes, ela não existe. O final de uma temporada raramente pertence a quem consegue produzir o maior sprint.

Pertence, muitas vezes, a quem soube manter a cadência, acelerou quando era necessário,
reduziu quando o corpo e o ambiente pediram, corrigiu a rota quando percebeu o erro, mas
nunca deixou de caminhar.
E essa é uma das partes mais difíceis da gestão no futebol: continuar fazendo aquilo que
acreditamos ser correto mesmo quando já não existe nenhuma garantia de que o resultado
irá nos recompensar. Porque ela não existe. Podemos trabalhar melhor, decidir melhor, preparar melhor e ainda
assim perder.

Futebol não tem contrato com a justiça.

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Por isso, em determinados momentos, a única recompensa possível é outra: chegar ao fim do dia sabendo que, diante das circunstâncias, você continuou fazendo aquilo que precisava ser feito.

É colocar a cabeça no travesseiro em paz.
Mesmo que seja para não dormir.

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