Gestão Esportiva na Prática: os três pontos não têm versão
O resultado encerra a discussão da partida. Mas não deveria encerrar a discussão sobre o clube

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O que me moveu a escrever esta coluna foi observar como o futebol consegue mudar a narrativa sobre um time sem que esse time tenha mudado na mesma velocidade. E, mais uma vez, vivi isso na prática.
Com a vitória sobre o Londrina, pela Série B, em apenas seis dias, o Sport deixou de ser descrito como uma equipe que estava há nove jogos sem vencer e passou a ser apresentado como um time que não perde há seis partidas.
Duas afirmações verdadeiras. Isoladamente, porém, parecem descrever duas equipes completamente diferentes. Não descrevem. A equipe não se transformou por completo. Quatro empates pertencem às duas sequências. O que mudou foram duas vitórias. E, com elas, mudou também o ponto a partir do qual escolhemos contar a história. Esse é o futebol.
Uma eterna e interminável batalha de narrativas, na qual buscamos heróis, vilões, culpados pela derrota e responsáveis pela vitória. Transformamos problemas complexos em explicações simples, processos coletivos em responsabilidades individuais e acontecimentos imprevisíveis em demonstrações definitivas de competência ou incompetência.
Depois de cada partida, todos correm para contar a história antes que outra versão prevaleça. O desempenho se interpreta. O merecimento se discute. A vitória, não.
Os três pontos não têm versão
Nas últimas quatro décadas, enfraquecemos sistematicamente os clubes brasileiros. Não apenas financeiramente, mas principalmente como instituições. Permitimos que presidentes, grupos políticos, profissionais, conselheiros e crises se tornassem maiores do que os próprios clubes.
Ao mesmo tempo, os clubes perderam autoridade e capacidade de liderar o ecossistema. Cederam espaço e poder à mídia, à torcida, aos jogadores, aos empresários, aos patrocinadores, às federações e, mais recentemente, às plataformas digitais.
Não se trata de responsabilizar esses atores. Eles apenas ocuparam os espaços deixados vazios. Quando uma instituição não consegue se posicionar, decidir e sustentar suas escolhas, outros passam a fazê-lo por ela.
Quanto mais fraco se torna o clube como instituição, maior é o espaço para que outros disputem, de fora para dentro, a narrativa sobre o que ele é, quem tem razão e quem deve ser responsabilizado.
Dentro desse processo, abnegados e profissionais passaram a ocupar trincheiras opostas.
De um lado, dirigentes que dedicaram parte importante de suas vidas aos clubes acusam os profissionais de terem afastado o futebol de sua identidade, transformando paixão em planilhas e relações humanas em processos corporativos. Do outro, executivos acusam a política dos abnegados de ser responsável pelo improviso, pela ausência de governança, pelo acúmulo de dívidas e pela enorme volatilidade dos profissionais.
Somadas, as dívidas dos 20 principais clubes do país chegaram a R$ 16 bilhões em 2025.
Os dois lados têm argumentos. Os dois lados também utilizam parte desses argumentos como álibi. Criamos ainda uma equivalência perigosa. Passamos a acreditar que profissionalismo é sinônimo de competência e que amadorismo é sinônimo de incompetência. Nem uma coisa, nem outra.
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Existem profissionais incompetentes, assim como existem abnegados extremamente preparados. Ser remunerado não garante conhecimento, responsabilidade ou capacidade de execução. Da mesma forma, doar tempo ao clube não autoriza ninguém a decidir sem método, governança ou prestação de contas.
Profissionalismo não é uma condição salarial. É uma forma de agir. Está na qualidade da decisão, na definição das responsabilidades, na transparência, na disciplina e na obrigação de responder pelas consequências.
A SAF tornou-se, talvez, o capítulo mais recente dessa disputa
Para alguns, representa a ruptura definitiva com a política, o improviso e o modelo associativo que acumulou dívidas durante décadas. Para outros, significa entregar patrimônio, identidade e poder de decisão a investidores sem vínculo histórico com o clube. Também aqui existem argumentos legítimos dos dois lados.
A SAF pode ser um instrumento importante de reorganização, investimento e governança. Não é, porém, um certificado automático de competência. Uma associação pode ser bem administrada e uma SAF pode ser mal administrada. A natureza jurídica não elimina vaidades, conflitos de interesse, erros estratégicos ou decisões ruins. Trocar o dono da decisão não significa necessariamente melhorar a decisão.
Quando os abnegados tratam os profissionais como invasores e os profissionais enxergam os abnegados apenas como representantes do atraso, quem perde é o clube. A tradição sem transformação envelhece. A transformação sem identidade não cria pertencimento.
No meio dessa guerra, os três pontos seguem soberanos
Uma das maiores invenções do futebol foi transformar a vitória em pontos. Na primeira liga inglesa, criada em 1888 por iniciativa de William McGregor, estabeleceu-se que uma vitória valeria dois pontos e o empate, um.
Aquela decisão transformou uma sucessão de partidas em uma competição acumulativa. A vitória deixou de terminar no apito final e passou a permanecer na tabela. Quase um século depois, o inglês Jimmy Hill teve outra intuição genial. Em 1981, defendeu que a vitória passasse a valer três pontos, incentivando as equipes a correrem mais riscos em busca do resultado. O sistema chegou à Copa do Mundo em 1994 e depois se espalhou pelo futebol.
Ao aumentar o valor da vitória, aumentou-se também o poder dos três pontos sobre todo o ecossistema.
A vitória compra tempo, silencia críticas, protege cargos e transforma decisões questionáveis em demonstrações de convicção. A derrota produz o movimento contrário. Destrói reputações, interrompe projetos e faz parecer incompetente até aquilo que vinha sendo construído com coerência.
Não existe gestão tão ruim que não encontre argumentos depois de algumas vitórias. Também não existe trabalho tão consistente que permaneça completamente protegido diante de uma sequência de derrotas.
Isso não significa relativizar o resultado. Futebol é competição. O placar importa, a classificação importa e os três pontos importam. Um clube que despreza o resultado transforma-se em seminário. Enxergar apenas o resultado transforma-se em refém. Os três pontos são um escudo legítimo. O problema começa quando se tornam anestésico.
Uma vitória pode esconder uma dívida crescente, um elenco mal construído, processos frágeis, decisões personalistas e uma instituição que continua perdendo a capacidade de escolher o próprio futuro. Da mesma forma, uma derrota pode esconder decisões responsáveis, mudanças necessárias e um trabalho que precisa de tempo para amadurecer.
O resultado responde ao que aconteceu naquela partida. Não responde, sozinho, se o clube está melhor do que estava antes dela.
Instituições fortes precisam construir critérios que sobrevivam à tabela. Precisam definir responsabilidades, avaliar profissionais, registrar decisões, preservar a memória e criar mecanismos para que presidentes, conselheiros, executivos e dirigentes trabalhem de maneira complementar.
A política deve estabelecer a direção, proteger a identidade e fiscalizar. A gestão profissional deve executar, organizar recursos e responder pelos resultados. Nenhuma das duas pode utilizar a outra como desculpa permanente.
O certo pode estar certo mesmo dando errado. O problema é que, no futebol, o errado também costuma parecer certo quando vence. Gosto de dizer que, no futebol, só existe uma verdade: tudo é mentira. É um exagero, evidentemente. Mas um exagero que revela muito sobre um ambiente no qual cada acontecimento pode ser recortado, interpretado e apresentado conforme o interesse de quem o conta.
A exceção são os três pontos. Depois de creditados, nenhuma narrativa consegue retirá-los pela força de um argumento.
Eles não têm versão. Justamente por isso, não podemos permitir que sejam os únicos responsáveis por escrever a história dos clubes.
O Sport joga hoje. Amanhã, a partida ganhará suas versões. A história do clube, porém, precisa continuar a ser escrita para além do jogo.
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