Logo do Lance! branca com exclamação amarela

Análise tática do Guffo: a Data Fifa serviu para a Seleção?

Colunista destaca o que importa desta janela para o time de Carlo Ancelotti

PorGustavo Fogaça•
Colunista
Rio de Janeiro (RJ)•
05/10/2026 23:17

Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Pedro corre para comemorar seu gol nos 4 a 0 do Brasil sobre a Índia
Pedro corre para comemorar seu gol nos 4 a 0 do Brasil sobre a Índia

A resposta honesta sobre esta Data Fifa mora no meio do caminho, e é por aí que a leitura precisa começar. O Brasil de Carlo Ancelotti fechou a janela com um 4 a 0 sobre a Índia, placar que no contexto vale quase nada, porque o rival não exigiu nem 20% do que a equipe vai encontrar com rivais mais capacitados. O que importa desta janela está no que o treinador conseguiu extrair entre o primeiro tempo vexatório contra a Austrália e o jogo-treino contra a Índia.

Na minha opinião, a grande confirmação foi o 4-3-3, e o mecanismo explica por que ele rende mais que o 4-2-4 que Ancelotti insiste em chamar de esquema ideal. Com um meio-campista a mais, o Brasil ganha o triângulo pelos lados, lateral, ponta e meia se associando para gerar superioridade numérica, e a posse ganha desenho de 2-3-5, com os laterais vindo por dentro e os pontas dando largura. É a estrutura que Holanda e Espanha usaram na última Copa, é o que os times de Guardiola fazem há mais de uma década, e o Brasil mostrou o esqueleto disso contra a Índia. Ainda tímido, ainda com laterais sem função definida, mas presente.

continua após a publicidade

O Esquema tem nome, mas falta identidade

O problema é que a timidez em jogo-treino vira fragilidade contra um rival de verdade. Se o lateral não vem por dentro, ele se marca, divide o corredor com o ponta e o ataque morre na estaticidade, e esse ajuste fino depende de entrosamento que só treino e repetição entregam. Ancelotti precisa definir a identidade da Seleção, se o 4-3-3 ou o 4-4-2 com volantes controladores, porque é a partir dessa escolha que os mecanismos passam a ser lapidados. O que a janela deixou claro é que o 4-2-4 puro, com dois pontas e dois atacantes enfiados, esvazia o meio e não combina com o gosto do torcedor.

➡️ Análise tática do Guffo: leia todas as colunas 

Individualmente, a janela entregou dois nomes que mudam o desenho da próxima convocação. Samuel Lino (LINK EXTERNO: https://fbref.com/en/players/2a295d33/Samuel-Lino) entrou querendo, pressionou, buscou o fundo, venceu no mano-a-mano e fez gol. E com a fase que ele vive no Flamengo, virou presença obrigatória. Danilo se afirmou como lateral que ocupa a faixa de ataque, infiltra, se desmarca e leva a marcação, e Bontempo repetiu o comportamento pelo lado direito, formando com Estêvão uma associação de boa fluidez. Gostei também do atacante do Chelsea, mostrou vontade de resolver.

continua após a publicidade
Vini Jr. disputa a bola na goleada do Brasil sobre a Índia
Vini Jr. disputa a bola na goleada do Brasil sobre a Índia (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

O ponto tático negativo

O ponto negativo da janela é estrutural e não depende do treinador. Jogar contra Índia e Austrália não exige intensidade, e o jogador de alto nível, acostumado aos maiores palcos, relaxa de forma inconsciente, não por falta de vontade em campo, mas por falta de exigência na preparação. O primeiro tempo do primeiro jogo contra a Austrália foi horroroso e expôs essa armadilha, e a CBF precisa entender que adversário fraco distorce a leitura, faz qualquer goleada parecer evolução quando pode ser apenas a fragilidade do rival.

O contexto também pede honestidade. A torcida ainda vive o luto da eliminação na Copa, o interesse pela Seleção é baixo e essa apatia pesa no comportamento dos jogadores, mas a super Data Fifa deu a Ancelotti exatamente o que ele mais precisava: tempo de treino. É nesse ambiente de teste, longe da pressão de uma competição, que o treinador pode decidir se aposta no 4-3-3 como sistema principal ou se constrói o 4-4-2 com quatro caras de controle, e ambas as portas seguem abertas.

continua após a publicidade

No frigir dos ovos, a Data Fifa foi ok, não empolgou ninguém, mas plantou uma semente. O risco é que essa semente seja regada contra rivais que não testam nada, e aí a próxima janela vira repetição de treino contra o vento. Jogar contra Singapura vai ser mais do mesmo. A expectativa é que Ancelotti saia da zona de conforto, enfrente adversários que exijam pressão real e confirme se o 4-3-3 é identidade ou só uma solução contra times fracos. O que está em jogo agora é o desenho do time que vai disputar a próxima Copa América, e a base desse desenho começou, ainda que timidamente, nesta janela.

Samuel Lino celebra um de seus gols nos 4 a 0 do Brasil sobre a Índia
Samuel Lino celebra um de seus gols nos 4 a 0 do Brasil sobre a Índia (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)
Sugerida para você!

Mais LANCE!