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ONG que contesta Infantino pede intervenção da União Europeia na Fifa

Ao Lance!, diretor da FairSquare diz que entidade está pior do que na Era Blatter

PorMarcio DolzanRio de Janeiro (RJ)
19/08/2026 15:37
Atualizado há 0 minutos
Presidente da Fifa, Gianni Infantino em coletiva durante o Mundial de Clubes
Gianni Infantino está sob intensa pressão na presidência da Fifa (Foto: Juan Mabromata/AFP)

O modelo de governança da Fifa está ultrapassado, as associações-membro são reféns dele e isso só irá mudar com "intervenção política", possivelmente da União Europeia. É o que considera Nick McGeehan, diretor da ONG britânica FairSquare. A entidade de direitos humanos conduz estudos com foco no combate à exploração de trabalhadores migrantes e à repressão política, além de buscar melhorias na governança de instituições esportivas por causa do impacto delas na sociedade.

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Desde o ano passado, a FairSquare vem fazendo representações contra o presidente da Fifa, Gianni Infantino, junto a órgãos de controle da entidade e ao Comitê Olímpico Internacional (COI). Esta semana, a ONG pediu ao Comitê de Governança da Fifa que considere Infantino inelegível. A FairSquare também criou a campanha rebootfifa.com, que convida a comunidade internacional a debater a atuação da entidade máxima do futebol.

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Em entrevista exclusiva ao Lance!, Nick McGeehan revelou que um comitê independente da Fifa prometeu analisar o pedido de inelegibilidade de Infantino, e conclamou as associações-membros e atores políticos a se envolverem no processo. Ele também afirmou que a Fifa sob a gestão de Infantino "está mais autoritária" do que na época de Joseph Blatter, que caiu após o escândalo de corrupção conhecido como Fifagate — o ex-dirigente já foi inocentado duas vezes pela Justiça.

LANCE! — Em julho, a FairSquare apresentou uma queixa junto ao COI contra Gianni Infantino por suposta violação às regras de neutralidade política. Também havia feito isso junto ao Comitê de Ética da Fifa em dezembro de 2025. As reclamações tiveram andamento?

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NICK MCGEEHAN — Quanto à denúncia que apresentamos ao Comitê de Ética em dezembro de 2025, eles responderam que receberam a denúncia, mas disseram que não tinham nenhuma obrigação de nos fornecer mais informações a respeito. Nossa suposição, com base no fato de que Infantino continuou a violar as regras de neutralidade política desde aquela denúncia, é que essa investigação não vai dar em nada dentro da Fifa.

Em relação ao COI, eles responderam bem rapidamente à nossa denúncia e disseram que o assunto estava fora de sua jurisdição, o que é uma resposta ridícula. Infantino é membro do COI e está sujeito às regras. A ideia de que, por ele estar agindo assim no âmbito de seu cargo na Fifa, o COI não possa intervir, é uma resposta ridícula.

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O "The Ahtletic" noticiou que a FairSquare encaminhou ao Comitê de Governança, Auditoria e Conformidade da Fifa um pedido para considerar Infantino inelegível, visto que, na avaliação de vocês, ele estaria concorrendo a um quarto mandato, o que é vedado pelo estatuto. Vocês consideram que esta questão é possível de prosperar?

Sim, encaminhamos a um comitê independente. O Comitê de Governança nos respondeu ontem (terça-feira) à noite e afirmou que iria analisar o assunto. Foi interessante que eles tenham respondido, e a resposta foi redigida pelos três membros do comitê a quem dirigimos a carta.

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Não tenho muita esperança de que eles considerem Infantino inelegível, mas é certamente interessante que tenham respondido tão rapidamente e não tenham dito que a reclamação não era válida, o que poderiam facilmente ter feito.

Ao lado de Infantino, Donald Trump recebe Prêmio Fifa da Paz
Em dezembro de 2025, Gianni Infantino concedeu o primeiro Prêmio da Paz da Fifa a Donald Trump (Foto: Stephanie Scarbrough/AFP)

Existe outra alternativa para questionar um novo mandato, para além de reclamação junto à Fifa?

O Comitê de Governança é um comitê independente, ele é responsável pela elegibilidade. Isso está previsto nos estatutos, portanto esse é o órgão correto a quem recorrer. Mas, na minha opinião, isso só será eficaz se houver pressão para que eles ajam. Somos uma ONG pequena e, embora eu ache que nossa reclamação seja absolutamente válida, o que precisamos neste momento é que as associações-membro apresentem seus argumentos. Também precisamos que os políticos apresentem seus argumentos. 

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A Fifa é uma organização importante, e os limites ao mandato presidencial são um pilar essencial de uma governança boa e responsável; não se deve permitir que simplesmente violem essas regras. Assim, acho que é o órgão certo, mas acredito que esse órgão vai precisar de pressão política adicional, seja de dentro da Fifa e das associações-membro, seja, de fato, de atores políticos externos.

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Infantino assumiu em 2016 após os escândalos de corrupção que abalaram a Fifa e culminaram na queda de Joseph Blatter. É possível fazer uma comparação sobre o momento da entidade naquela época e o momento vivido hoje?

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Acho que essa é uma ótima pergunta. É a mesma organização, nada mudou. Houve algumas reformas em 2016, mas foram reformas internas e não abordaram os principais problemas estruturais da Fifa. Os problemas estruturais dizem respeito à relação entre o presidente e as federações-membro. A Fifa distribui enormes quantias de dinheiro a essas federações-membro em troca da lealdade política delas. Todos dentro da Fifa são mantidos satisfeitos com dinheiro e poder, essencialmente, e era exatamente assim que funcionava na época de Blatter.

De certa forma, dá para argumentar que está pior, porque acho que o que Infantino fez foi conseguir centralizar o poder. A Fifa provavelmente está mais autoritária do que jamais esteve na época de Blatter, e isso se reflete, creio eu, na maneira como vemos Infantino se comportar.

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Embora pareça uma organização potencialmente diferente e tenha havido algumas reformas importantes que entraram em vigor após 2016, quando não se resolve o problema de fundo é óbvio que essas medidas nunca seriam eficazes. Por isso, acho que dá para argumentar que a organização está pior agora sob a gestão de Infantino do que jamais esteve sob a gestão de Blatter.

Presidente de honra da Fifa João Havelange conversa com Sepp Blatter
João Havelange foi sucedido por Joseph Blatter; modelo de governança da Fifa com Infantino se mantém (Foto: Kevork Djansezian/Getty Images/AFP)

O modelo de governança da Fifa e a forma como são escolhidos seus dirigentes são adequados ou ultrapassados? Vocês propõem algum tipo de mudança?

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O modelo de governança da Fifa está completamente ultrapassado. Ele não é de forma alguma adequado ao seu propósito. A Fifa é uma associação regida pela legislação suíça, e é administrada da mesma forma que se administraria um clube de pingue-pongue ou de tênis. Isso é aceitável quando se trata apenas de uma pequena organização amadora que sedia e organiza eventos esportivos. Mas, infelizmente, a Fifa também é um importante ator comercial. É um gigante financeiro. E não dá para ter essas duas competências lado a lado.

Não dá para ser responsável por administrar o esporte de forma sustentável e ética, tendo em mente a integridade competitiva, ao mesmo tempo em que se é o principal ator comercial. Isso é um conflito de interesses muito claro e perigoso. E, por isso, ela precisa, sem dúvida, de uma reforma.

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Infelizmente, isso não pode ser feito de dentro, porque não há ninguém dentro da organização que tenha qualquer incentivo para propor uma reforma, e porque as federações-membro, que hoje dependem do dinheiro da Fifa para se manterem, não vão votar em um presidente que chegue e mude esse sistema. Todas elas dependem desse dinheiro e, portanto, não vão perturbar um sistema que lhes proporciona esses recursos. Por isso, mais uma vez, precisamos de intervenção política, sem dúvida, para regulamentá-lo adequadamente.

No curto prazo, quais medidas vocês consideram as mais adequadas para a crise que vive a Fifa?

É a intervenção política. O futebol não consegue se reformar sozinho. Ele já provou, repetidas vezes, que não consegue se governar de forma adequada e responsável. Acho que os atores políticos que provavelmente estão em melhor posição para intervir seria a União Europeia (UE). Essa não é, de forma alguma, uma solução perfeita, mas é provavelmente a melhor solução que temos no momento.

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A União Europeia é uma organização que regula as grandes empresas de tecnologia, por exemplo. Organizações que não estão sediadas na União Europeia, mas que precisam cumprir a legislação europeia se quiserem ter acesso ao mercado europeu. O mesmo poderia se aplicar ao esporte e ao futebol.

A UE é um bom órgão regulador e acredito que seja a melhor esperança para qualquer coisa. Obviamente, haveria preocupações quanto a isso ser eurocêntrico, mas os princípios de boa governança promulgados pela legislação da UE seriam benéficos para toda a comunidade do futebol e, na verdade, garantiriam que o dinheiro que a Fifa distribui para o Sul Global fosse realmente utilizado de forma a beneficiar as federações membros da região, bem como o futebol, os jogadores e os torcedores locais.

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