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Lúcio de Castro: a NFL e o asterisco, o City e o Soft Power, a nossa cartolagem e as bets

Colunista avalia modalidade em alta nos EUA, polêmica na Europa e as bets

PorLucio de Castro•Rio de Janeiro (RJ)
02/10/2026 08:00
Mosaico no jogo entre Ravens e Cowboys no Maracanã
Um bandeirão na histórica partida da NFL no Maracanã (Foto: MAURO PIMENTEL / AFP)

Truman, Eisenhower e Roosevelt assinariam sem ressalvas. Pela tela grande, conseguiram conquistar o mundo com sucesso muitas vezes não alcançado por marines e afins. De Shane a Rambo, o cinema se mostrava como arma muito mais poderosa para glorificar o sonho americano como modo de vida superior. Pelas mãos dos três presidentes, os Estados Unidos consolidaram a ideia de soft power pelo mundo. No último fim de semana, todos os conceitos que cercam a ideia de obter resultados por meio da atração e da persuasão estavam ali naquele Maracanã abarrotado.


A estranheza de um domingo em que o Fla x Flu atendeu pelo nome de Dallas Cowboys x Baltimore Ravens ainda não passou. Não há aqui qualquer discussão quanto ao sucesso da empreitada. Números sob tortura podem mentir. Mas quando se confirmam em diferentes variáveis, costumam traduzir os fatos com mais exatidão. Foram 72.792 pagantes, 94% dos lugares ocupados. Não menos do que 35% dos internautas brasileiros confessaram o
interesse pela bola oval. Um crescimento vertiginoso, já que em 2014 tínhamos a metade, com 18% dando a mesma resposta. Exatos 22 anunciantes. Também não foi pouco o dinheiro público na empreitada, no pacote de cerca de R$ 80 milhões entre estado e prefeitura por 3 confrontos da NFL. Sim, foi assunto na cidade. O que alguns ainda chamam de "talk of the town", ou, para sermos menos abestalhados, o assunto correndo por aí. Teve também grande audiência na TV, cliques bombando.

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Não subestimem. Hollywood já deu o papo. Com estratégia, deixa poucas salas pelo mundo para os cinemas nacionais. A bola redonda que se cuide e, acima de tudo, cuide com muito mais zelo do seu mal cuidado mercado.
A frase do executivo da NFL do Brasil ao fim da jornada não deixa dúvidas: "A NFL chegou para ficar". O sucesso valeu para o Rio também.

O deslumbramento dos cerca de 10 mil visitantes aqui para o evento deu o tom em centenas de depoimentos pelas redes. Pode alinhar com o cinema, a torta de maça e o rocknroll. Sim, a NFL chegou para ficar. É soft power na veia.
As manchetes de jornal, as reportagens na TV também não deixam dúvidas. Como dizem os tecnocratas, é um "case" de sucesso inescapável. Irrefutável.

Mas no auge das luzes e do brilho inegável, sempre tem o danado do asterisco. Aquele pontinho que alguém, em geral chamado de chato, insiste em lembrar. O jornalismo deve mesmo ter essa chatice inerente em sua alma.
Deixar os confetes para as páginas de eventos e lembrar que, em sua essência, está ali para lançar seu olhar sobre poderes, poderosos e nos milhões que vão e vem. Ao fim de tudo, uma imensa lacuna ficou. Pecamos.

Nem tudo é festa e purpurina no mundo da bola oval. Por trás do brilho, sobrevive um tanto de sombra. Foi também o bom jornalismo que nos mostrou. Em fevereiro de 2022, o New York Times publicou uma extensa investigação, tendo a primeira da série o título de "Prometida uma Nova Cultura, Mulheres Dizem que a N.F.L. em Vez Disso as Empurrou para o Lado". Apurado à exaustão, com mais de 30 entrevistadas, funcionárias da NFL, antigas ou então com vínculo, descreviam uma "cultura corporativa sufocante e profundamente enraizada que desmoralizava algumas funcionárias" da detentora da franquia. Segundo o jornal, 37% dos funcionários da NFL eram mulheres e 70% brancos.
No ano seguinte, o caso foi parar nos procuradores-gerais da Califórnia e de Nova Iorque, que anunciaram investigação conjunta sobre as práticas da NFL.

Relatos de toques indesejados por parte de chefes homens, comentários sexistas seguidamente no ambiente de trabalho, "festas da firma" onde prostitutas eram contratadas, tudo isso está nos relatos. Como conclusão, um histórico documentado e substancial de alegações de assédio moral, sexual e discriminação de gênero.

Em resposta e em busca de uma melhora de imagem corporativa após a imensa repercussão, a NFL se coçou e implementou medidas para contrapor o histórico pouco edificante. Entre elas, a criação de um comitê consultivo de diversidade. Frentes de investigação seguem. A NFL permanece sob escrutínio, enquanto afirma sua disposição em colaborar e seguir em transformação. Por aqui, o sucesso foi, como dito acima, um estrondo. Mas existe um asterisco. Que não podia e não pode passar batido.

Estádio do Manchester City, Etihad Stadium.
Estádio do Manchester City, Etihad Stadium - (Foto: divulgação / X / Manchester City)

É SOBRE SOFT POWER DE NOVO…

E por falar em soft power, um dos casos mais bem sucedidos dessa modalidade diplomática vai se esfarelando numa velocidade alucinante. O Manchester City é um dos casos mais perfeitos da história para explicar o tal conceito.
Em 2008, quando o xeque dos Emirados Árabes assinou o cheque e comprou o lado azul de Manchester, iniciou um modelo de catálogo que os países do Golfo não alcançariam de nenhuma outra forma. Os críticos diziam que era "lavagem de imagem". Sendo ou não, a lavagem se dava com litros de títulos e conquistas, e a imagem sagrada de Guardiola no futebol. Está tudo indo por água abaixo.

As duas décadas de trabalho dessa lavagem é que ajudaram a aproximar os políticos dos dois países, escorrendo na crise sem precedentes do City. O resumo é simples, apesar dos muitos zeros que envolve: A turma dos Emirados Árabes aportou na verdade 949,4 milhões de libras, usando patrocinadores como laranjas, entre outras formas. Oficialmente, comunicavam gastos de 119,2 milhões. Ou seja, omitia 830,7 milhões de libras, estourando qualquer ideia de fair play financeiro.


Agora, é ver como as duas partes irão sair dessa. Um número deve nortear qualquer análise e nada tem a ver com futebol: o comércio bilateral de Emirados Árabes e Reino Unido movimenta US$ 31,8 bilhões anualmente. O que dá enorme poder à mesa para a família real de Abu Dhabi. No entanto, não há outra coisa possível a ser feita que não a
punição. É essa tensão entre a força da grana e o rigor da lei que veremos nos próximos dias. Aliás, toda vez que falarmos desse caso, devemos ter em mente uma conclusão: a turma que bate no peito e diz que "futebol e
política não se misturam" não deve conseguir ler direito o noticiário.

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BAP, BETS E A TAL DA EMPATIA

Os cartolas ameaçam parar. É a solução contrária do que foi feito na pandemia. Naquele momento, enquanto 700 mil brasileiros morriam, alguns, como os do Flamengo, ameaçavam quebrar o isolamento social e botar a bola para rolar.
Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do Flamengo, o mais veemente até aqui nas queixas, evocou a reputação.
"A gente tem um respeito enorme pela reputação da gente e ficou muito claro no minuto zero de que uma série de compromissos futuros estão ameaçados. Como é que eu vou pagar o Paquetá em janeiro? Essa Medida Provisória compromete as receitas do futuro, afeta a folha do futebol e as contratações".

Dono de uma receita bilionária e, ressalve-se, bem gerida nos últimos anos, sabemos que o Flamengo tem condição de seguir, ainda que, de fato, exista no primeiro momento um baque que demanda readequação. O que não tem sido dito pelo dirigente e pelos demais cartolas, em momento algum de suas queixas, é sobre a tragédia de uma epidemia
que mata, corroi pessoas, famílias, pessoas de baixa renda que se penduram até a outra vida e até adolescentes. Diante de uma calamidade, e sim, a palavra é essa, calamidade social, só há uma coisa a ser feita: desligar o botão da máquina de moer gente.


A Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), em estudo recente, mostrou que mais de 10 milhões de brasileiros já apresentam dependência. E mais dilacerante: 84,1 de adolescentes jogam online. E ainda: mais da metade já apresenta sinais de vício, ou "jogo problemático".

Diante do que, números e orçamentos esportivos tornam-se algo muito menor. A vida humana deve estar acima de tudo. Sempre. E só pode saber e entender isso quem tem alguma empatia pelo outro e não pelos números. Se o dicionário não apresentou tal palavra a alguns deles, aqui vai:

S. f.: Tendência para sentir o que sentiria caso estivesse na situação e circunstâncias experimentadas por outra pessoa.

Bap, presidente do Flamengo
Bap, presidente do Flamengo (Foto: Divulgação/Flamengo)
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