Do Brasileirão à Ligue 1, Filipe Luís e Davide Ancelotti causam impacto na Europa
Técnicos lideram Campeonato Francês depois de passagens por Botafogo e Flamengo

O Campeonato Francês celebra hoje um duelo de técnicos que os brasileiros viram de perto em 2025. Davide Ancelotti, do Lille, acabou de passar Filipe Luís, do Monaco, na liderança da tabela da Ligue 1, mas somente o saldo de gols os separa. Dois treinadores jovens, de 36 e 41 anos, respectivamente, que começaram em território carioca e rapidamente começam a ganhar relevância no futebol europeu. A ponto de chamar a atenção dos maiores clubes do continente.
Nesta sexta-feira, o campeonato continua, e a disputa pela ponta, também. O Monaco recebe o Lens e, se vencer, joga a pressão para o Lille, que visita o Nice no domingo. O confronto direto já tem data: 25 de outubro, na casa do time de Filipe Luís. Não é somente a colocação da tabela que vem chamando atenção. Os dois já enfrentaram o clube mais poderoso do país nas primeiras rodadas e, enquanto o brasileiro venceu, o italiano, filho do técnico da Seleção Brasileira Carlo Ancelotti, vendeu caro o empate em 2 a 2.
O correspondente do diário espanhol AS em Paris, Andres Onrubia, explicou ao Lance! que, apesar de ambos já notoriamente causarem uma boa impressão pelo início de campanha na França, ainda é cedo para colocá-los como possíveis substitutos nas listas dos maiores do continente.
— Acredito que eles estão tendo um ótimo início de temporada, sobretudo por liderarem a Liga e terem vencido quase tudo. Ancelotti empatou com o PSG, enquanto Filipe venceu. Estão ganhando bastante destaque na França devido aos seus métodos de trabalho. Não creio que já sejam vistos como grandes sucessores (nos maiores clubes europeus). É verdade que o nome de Filipe foi cogitado para o Atlético de Madrid e para substituir Simeone, mas acho que ainda é muito cedo. E ainda estamos em setembro. Não acredito que nenhum deles vá deixar sua equipe no meio da temporada — analisou o jornalista, que é autor de "Ligue 1, a Liga Francesa: o futebol francês visto por um correspondente espanhol".
O ex-lateral enfrentou a equipe comandada por Luis Enrique — sobre quem diversas vezes externou admiração — no fim do ano passado. Perdeu a Copa Intercontinental nos pênaltis em um jogo no qual chegou a ter chances reais de vitória. Mas já havia causado impacto entre os grandes clubes europeus com o desempenho do Flamengo no Mundial de Clubes da Fifa, em especial a vitória sobre o poderoso Chelsea. Davide pegou um cenário mais complicado em General Severiano, mas já começa a mostrar que tem qualidade para sair da sombra do sobrenome que carrega.

Curiosamente, Filipe Luís e Davide Ancelotti têm passaporte italiano. O primeiro nasceu em Jaraguá do Sul (SC), e o usou durante toda a carreira como jogador, na qual despontou como ídolo do Atlético de Madri de Simeone, um dos seus maiores mentores, pelas suas próprias palavras. A sua transição para a área técnica foi rápida e espetacular. Títulos em todos os trabalhos que fez. Na Copa Rio, em 2024, em cima do Vasco no Sub-17. Promovido ao Sub-20, campeão mundial ao vencer o Olympiakos na final da Copa Intercontinental.
Davide percorreu um caminho diferente. Jogou somente na base do Milan, mas decidiu encerrar a carreira aos 20 anos e partiu para aprimorar seus conhecimentos antes de trabalhar com o pai. Estudou Ciência do Esporte na Universidade de Milão e, em 2012, passou a fazer parte da comissão técnica de Carlo como preparador físico do PSG. Ainda trabalhou como assistente de preparação no Real Madrid antes de ser efetivado por Carlo como auxiliar técnico definitivo no Bayern de Munique. Em 2018, tornou-se o auxiliar principal e substituiu o pai à beira do campo quando ficou fora por suspensão.
Depois das passagens por Napoli e Everton, Davide voltou a Madri como braço-direito de Carlo em 2021, e lá permaneceu até 2025, quando foi com ele para a Seleção Brasileira, e de lá para o Botafogo no segundo semestre. Já Filipe Luís colheu os frutos do sucesso na base rubro-negra e ganhou uma chance no profissional em outubro de 2024 com a demissão de Tite.
Já deu o cartão de visitas com o título da Copa do Brasil, vencendo o Atlético-MG, mas chamou atenção principalmente por recuperar um estilo de jogo agressivo que rapidamente remeteu à memória da torcida o Flamengo de 2019, comandado por Jorge Jesus — outro que Filipe considera como grande mentor na carreira e com quem mantém contato constante.
Estilos diferentes
O estilo de jogo dos dois se assemelha em alguns momentos, mas é bem diferente em outros. Enquanto Filipe Luís sempre pregou um Flamengo jogando da mesma forma, abusando da marcação por pressão e priorizando o controle da posse de bola, Davide Ancelotti é conhecido por ter um estilo mais adaptável à situação de jogo, mais próximo do trabalho atual de Leonardo Jardim, por exemplo.
Enquanto o brasileiro usava, quase sem exceção, a saída de bola curta da linha de defesa, Ancelotti pedia mais aproximação dos volantes para acionar os alas em projeção. Já Filipe Luís, com a bola, colocava suas fichas em controle do jogo, muitos toques e encaixes, e não era raro o time terminar partidas com mais de 70% da posse de bola — dado que, por sinal, não se repete na Ligue 1, na qual o Monaco tem média de menos de 50% de posse nas quatro primeiras rodadas.
— Não diria perde e pressiona. A ideia é não perder a bola, ter o controle e sempre pressionar. É um estilo de jogo que a torcida exige — definiu Filipe Luís ainda em janeiro de 2025, quando nem imaginava que terminaria a temporada com uma coleção histórica de títulos e entraria definitivamente para o hall dos maiores do clube.

Davide, por sua vez, também cita Simeone como inspiração, além de Jürgen Klopp, Guardiola, De Zerbi e Unai Emery. Além, é claro, do próprio pai, de quem normalmente recebe ligações depois das partidas e que o visitou na segunda rodada do campeonato local para a partida entre Lille e PSG, no dia 28 de agosto — esteve no estádio ao lado de Paul Clement, auxiliar inglês de Carlo Ancelotti na Seleção.
— É a rotina, para saber se estou bem. Mas meu pai me liga depois de cada jogo para conversar a respeito — contou ao canal oficial da Ligue 1 neste domingo.
Davide detalhou o que pensa sobre sua maneira de jogar em maio deste ano:
— Não acho que um treinador tenha que ser uma coisa ou outra. Você se adapta aos jogadores e ao adversário, mas precisa ter ideias claras sobre o que gosta.
Onrubia descreveu o estilo que ambos têm buscado na França e aponta Filipe Luís como um treinador muito mais "agressivo" na tática de jogo. O correspondente vê Ancelotti seguindo os passos do pai também na forma de ajustar sua equipe.
— O time de Ancelotti é pragmático, demonstra solidez defensiva e é muito perigoso nas bolas paradas. É verdade que é uma equipe de ritmo mais lento, mas vem fazendo um excelente início de temporada. Já o Monaco de Filipe tem um treinador mais intervencionista, mais agressivo na pressão e com um jogo muito vertical. A diferença, ao meu ver, é que David Ancelotti é mais pragmático, como o pai, enquanto Filipe é um técnico muito mais agressivo.
Filipe levou vantagem no Brasil
Antes de comparar os números de ambos em território brasileiro, é preciso ressaltar também a diferença de cenário. Não que Filipe Luís tenha assumido uma tarefa fácil, pelo contrário. O ambiente no momento da demissão de Tite estava longe de bom, o time não encaixava e a torcida não escondia a impaciência.
Mas Davide Ancelotti pegou um Botafogo na temporada seguinte à melhor da história do clube, com a conquista do Brasileirão e da inédita taça da Libertadores. Não bastasse a sombra do ano anterior, o time perdeu referências por atacado, de Igor Jesus e Luiz Henrique a Almada, e mergulhou em uma crise financeira com uma guerra pelo controle da SAF acontecendo nos bastidores. Chegou a dizer que pediu demissão porque "não tinha nem presidente".
— Eu não tinha nenhuma indicação do que aconteceria dali para frente, então pedi demissão. Não me demitiram porque não havia nem um presidente para isso — contou ao jornal francês L'Équipe, em julho deste ano.

Se no fim de 2024, quando Filipe Luís assumiu o Flamengo, o Botafogo tinha um elenco tão forte quanto o rival da Gávea, em 2025, quando Ancelotti assumiu, o quadro era outro. Foram 33 jogos no comando alvinegro, com 15 vitórias, 11 empates e sete derrotas, um aproveitamento de 45.45%. No total, o time sob sua batuta somou 53 gols marcados, ou 1,6 por jogo em média, e 40 sofridos, média de 1,2 por partida.
Os números de Filipe Luís impressionam. Dos 101 jogos à frente da equipe rubro-negra, ganhou 64, empatou 22 e perdeu somente 15, um aproveitamento de 70.6%. Ganhou a Copa do Brasil, Supercopa, Carioca, Libertadores e Brasileirão. O time marcou 184 gols (1,82 por jogo), sofreu 68 (0,63 por partida em média), e não foi vazado em 46 partidas.
Mas Filipe deixou o Flamengo também em situação peculiar. Efetivado pela gestão anterior, logo na chegada de José Boto, em dezembro de 2024, houve o primeiro sinal de quanto isso importava internamente, com o dirigente português fazendo questão de chamar para si a decisão de manter o técnico, alegando que foi escolha sua e que tinha carta branca da presidência para mudar. Já não pegou bem, nem internamente, nem publicamente.
A relação complicou quando, depois de empilhar títulos em 2025, o planejamento do Campeonato Carioca deu errado. A equipe Sub-20 não correspondeu, deixou o time à beira do rebaixamento, e Luiz Eduardo Baptista resolveu intervir por acreditar que, a este ponto, se fazia necessário proteger a instituição, e impôs o retorno da equipe principal antes do previsto, comprometendo o planejamento da pré-temporada. O Flamengo não foi rebaixado no torneio local, mas o presidente ficou incomodado. Posteriormente, confirmou a irritação ao afirmar no podcast Barbacast que não havia planejamento nenhum — usando o termo "conversa fiada" — e que jamais foi consultado sobre o assunto, que considera uma decisão institucional.
Ele acabou demitido em março deste ano após vencer por 8 a 0 o Madureira e garantir vaga na final do Carioca. A forma como foi conduzida a demissão causou repercussão interna muito negativa e provocou distanciamento de lideranças de Boto, que teve uma conversa de segundos com Filipe Luís ainda no vestiário do Maracanã. Diversos jogadores, como Arrascaeta, se posicionaram publicamente para defender o treinador. Léo Ortiz foi outro a falar abertamente em entrevistas sobre o tratamento dado ao ex-lateral do clube, citando "falta de respeito com os ídolos".

Na França, Davide é líder por um detalhe
Davide Ancelotti e Filipe Luís estão separados somente por um gol no saldo, já que ambos somam dez pontos em quatro jogos. Mas, se a liderança no momento é do italiano, o brasileiro já traz, nesse início de Campeonato Francês, um grande feito: bateu o PSG, que figura somente na sétima posição. O Lille, por sua vez, empatou com o gigante comandado por Luís Henrique. O tropeço do Mônaco foi diante do Strasbourg, no último sábado.
Ambos os times só sofreram dois gols até agora. No caso do Lille, todos no empate em 2 a 2 contra o PSG. O Mônaco, além do gol que levou do time de Paris na vitória por 2 a 1, sofreu o segundo nesta rodada. Somente um gol no saldo separa os dois na tabela. Situação que pode mudar logo mais, ou não. O time de Filipe Luís pode ficar até domingo na liderança em caso de vitória na sexta, mas, para manter a posição, terá de torcer por um tropeço do rival no domingo, ou construir uma vantagem no saldo que não seja revertida no jogo da equipe de Davide Ancelotti. Fato é que a performance de ambos tornou-se atraente não somente para os gigantes europeus, mas também para o público brasileiro que os acompanhou em 2025.
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