Brasileira na Geórgia, Thaisa quase desistiu do futebol e agora disputará a Champions
Meia paraense do WFC Lusso conta como quase abandonou a carreira para estudar para concurso, relembra o recomeço no futebol e expectativa de disputar o torneio europeu

Poucos anos atrás, a carreira de Thaissinha caminhava para um fim precoce. Depois de quase uma década defendendo equipes do Pará, como a Tuna Luso e a ESMAC, a meia acreditava que já havia alcançado o limite do que o futebol feminino poderia lhe proporcionar naquele momento. A instabilidade da modalidade, especialmente fora dos grandes centros do país, fez com que ela cogitasse abandonar os gramados para se dedicar aos estudos e prestar concurso para a Polícia. O plano parecia definitivo, mas uma ligação mudou completamente o rumo da história da paraense, que hoje atua pelo WFC Nike Lusso, da Geórgia, e se prepara para disputar a fase classificatória da Champions League Feminina.
Natural de Belém (PA), Thaísa Renata Assunção Pereira cresceu tendo o futebol como parte da rotina. Antes mesmo de entrar em uma escolinha, passava os dias jogando nas ruas ao lado dos meninos e, aos dez anos, iniciou sua formação na Tuna Luso, onde deu os primeiros passos na modalidade. A evolução fez com que chegasse à Esmac, principal referência do futsal feminino paraense na época, clube pelo qual permaneceu durante vários anos e viveu experiências importantes nas categorias de base e também no profissional.
— Graças a Deus eu sempre tive apoio da minha família, especialmente dos meus avós, que foram os primeiros a me incentivar e a me dar esse apoio. Eles são os grandes responsáveis por eu estar vivendo isso hoje.

Ainda muito jovem, Thaissinha conciliava futebol de campo e futsal. Aos 15 anos disputou um Mundial Escolar na Itália e passou a integrar equipes adultas da Esmac, acumulando competições nacionais e uma bolsa de estudos que lhe permitiu iniciar a faculdade. Apesar da evolução, a realidade financeira e estrutural do futebol feminino começou a pesar à medida que os anos passavam.
Depois de defender a Esmac e também o Remo, a meia chegou aos 22 anos convencida de que era hora de encerrar a carreira. A decisão foi comunicada aos avós, que sempre acompanharam sua caminhada, enquanto ela iniciava uma rotina completamente diferente, voltada para a preparação de concursos públicos.
— Eu já estava bem desanimada. A realidade do futebol feminino, principalmente fora das grandes capitais, era muito difícil. Falei para os meus avós que não queria mais continuar e que jogaria apenas por hobby. Eles ficaram tristes, mas entenderam.
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O recomeço aconteceu em 2023, quando uma antiga companheira de equipe, que já atuava em São Paulo, insistiu para que ela aceitasse defender o Realidade Jovem na disputa do Campeonato Paulista. Sem grandes expectativas, Thaissinha enxergou a oportunidade apenas como uma última tentativa antes de abandonar definitivamente o futebol.
— Ela falou para eu ir, que não custava nada tentar. Eu aceitei e aquilo acabou sendo um divisor de águas na minha vida.
As boas atuações no Campeonato Paulista despertaram o interesse do Alianza Lima, do Peru, que ofereceu à brasileira a primeira oportunidade de atuar fora do país. A decisão, embora representasse a realização de um sonho, também trouxe inseguranças naturais de quem deixaria a família pela primeira vez para viver em uma cultura completamente diferente e sem dominar o idioma.
— Eu tinha muito medo porque seria minha primeira experiência internacional. Não falava espanhol e fiquei receosa, mas sempre tive coragem para enfrentar desafios. Conversei bastante com a minha família e resolvi aceitar. Foi uma experiência que mudou muita coisa na minha vida.
No futebol peruano, Thaissinha conquistou o Campeonato Nacional, disputou a Libertadores e criou uma relação próxima com a torcida do Alianza Lima, que permanece até hoje.
— Eles continuam acompanhando minha carreira, comentam nas minhas publicações e sempre demonstram muito carinho. Foi um clube que me recebeu muito bem e eu guardo um carinho enorme por todos.
Após a passagem pelo Peru, retornou ao Brasil para defender o Avaí/Kindermann durante a Série A2 do Campeonato Brasileiro, mas a instabilidade enfrentada pelo clube fez com que buscasse um novo destino poucos meses depois. A proposta seguinte veio da Geórgia, país sobre o qual conhecia muito pouco e que, inicialmente, parecia distante demais para fazer parte dos planos.
— Quando apareceu essa oportunidade eu pensei que era longe demais. Deu aquele receio de novo, porque seria outra cultura, outro idioma e uma realidade completamente diferente, mas conversei com as pessoas próximas e entendi que era o melhor caminho naquele momento.
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A adaptação exigiu paciência. Sem falar georgiano, ela passou a se comunicar principalmente em inglês, com auxílio de uma tradutora disponibilizada pelo clube, enquanto aprendia pequenas expressões do idioma local para facilitar o dia a dia e estreitar a relação com as companheiras de equipe. Em sua primeira temporada no WFC Lusso, conquistou o Campeonato Georgiano e a Copa Nacional, resultados que garantiram ao clube uma vaga na fase classificatória da Champions League, competição que a brasileira disputará pela primeira vez.
Ao analisar a própria evolução, Thaissinha acredita que as experiências internacionais modificaram principalmente sua preparação física e sua compreensão tática do jogo.
— Acho que evoluí muito fisicamente porque hoje consigo investir mais em mim mesma. Também aprendi bastante na parte tática, principalmente durante minha passagem pelo Avaí, entendendo melhor minhas funções dentro de campo.
A meia também reconhece que a questão financeira foi determinante para permanecer no exterior. Segundo ela, embora o futebol feminino brasileiro tenha evoluído nos últimos anos, muitos clubes ainda não conseguem oferecer estabilidade profissional semelhante à encontrada em outros mercados.
— Existe uma diferença considerável. Aqui eu tenho contrato profissional, estrutura e todo o suporte necessário. No Brasil a modalidade cresceu bastante, mas ainda existem clubes que não conseguem oferecer essa segurança para as atletas.
Mesmo vivendo o melhor momento da carreira longe do país, a paraense não esconde o desejo de retornar ao futebol brasileiro futuramente, sobretudo pelo crescimento técnico das competições nacionais.
— Quero voltar ao Brasil em algum momento porque a liga está cada vez mais competitiva e eu também quero viver esse momento da modalidade.
Enquanto esse retorno não acontece, o foco está totalmente voltado para a disputa da Champions League. Sempre que pensa na oportunidade de representar o clube em uma das principais competições do futebol feminino europeu, Thaissinha relembra a própria trajetória e o momento em que acreditou que tudo havia terminado.
— Todos os dias eu lembro de tudo o que passei para chegar até aqui. Há poucos anos eu nem sabia se conseguiria sair do meu estado e hoje vou disputar uma Champions. Isso me motiva muito e faz com que eu queira aproveitar cada oportunidade que o futebol está me dando.

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