Fundador da Joga10 Sports defende papel dos agentes de ir além dos contratos no futebol feminino
Rodrigo Fagundes contou a criação da agência e refletiu sobre o papel do agente

Fundador da Joga10 Sports, Rodrigo Fagundes entrou no mercado de gestão de atletas após anos trabalhando como treinador e desenvolvendo jogadoras. Foi nesse período que identificou uma lacuna no futebol feminino: muitas atletas tinham potencial, mas careciam de orientação para planejar a carreira, negociar contratos e tomar decisões fora das quatro linhas. Em 2016, criou a empresa com o objetivo de oferecer acompanhamento de longo prazo, inspirado em duas referências do esporte: Marta e Ronaldinho Gaúcho, ambos eternos camisas 10.
À frente da agência, Fagundes representa nomes como a goleira Cláudia, do Cruzeiro e da Seleção Brasileira, além de atletas como Day Silva e Hingredy, do Atlético-MG. Para ele, o papel de um agente vai além das negociações e exige proximidade com a realidade das jogadoras.
Em entrevista ao Lance!, o empresário também avaliou o momento vivido pelo futebol feminino brasileiro, criticou práticas antiéticas no mercado e projetou os impactos da Copa do Mundo de 2027 no desenvolvimento da modalidade.
Esta reportagem fecha uma série especial do L! sobre o mercado de transferências no futebol feminino. Ao longo das próximas publicações, serão apresentados agentes, empresas e profissionais que atuam nas negociações de atletas, além de discutir o funcionamento desse mercado, seus desafios e as oportunidades que impulsionam o crescimento da modalidade.
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Entrevista com Rodrigo Fagundes, da Joga10 Sports
Lance! - Rodrigo, como você entrou no mercado de gestão de atletas e como surgiu a Joga10 Sports?
Rodrigo Fagundes - Sempre trabalhei com esporte, especialmente no futebol, atuando como treinador e desenvolvendo atletas. Foi justamente nesse período que comecei a perceber uma grande lacuna no mercado: muitos jogadores e jogadoras tinham talento, mas não possuíam qualquer orientação profissional para construir uma carreira sólida. Faltava planejamento, acompanhamento e alguém que defendesse seus interesses dentro e fora de campo.
Essa realidade despertou meu interesse em estudar gestão de carreira, me especializar no mercado esportivo e obter minha licença de intermediário da CBF. Entendi que poderia contribuir muito mais acompanhando o desenvolvimento das atletas durante toda a carreira do que apenas dentro das quatro linhas.
A Joga10 Sports surgiu em 2016 com um propósito muito claro: criar oportunidades e oferecer uma gestão profissional para atletas de futebol. O nome da empresa é uma homenagem a dois dos maiores camisas 10 da história do esporte, Marta e Ronaldinho Gaúcho, referências de talento, criatividade e excelência. Desde o início, nosso objetivo sempre foi oportunizar atletas, desenvolver suas carreiras e construir projetos de longo prazo, sempre pautados pela ética, transparência e profissionalismo.
Lance! - Quais características e conhecimentos são fundamentais para trabalhar com gestão de carreira de atletas do futebol feminino?
Rodrigo Fagundes - A gestão de carreira no futebol feminino vai muito além da negociação de contratos. É preciso compreender a realidade de cada atleta, principalmente sua estrutura familiar e o suporte que ela possui fora de campo. Cada jogadora tem uma história diferente, com desafios financeiros, emocionais e psicológicos que precisam ser compreendidos.
Na Joga10 Sports convivemos diariamente com essas diferentes realidades. Em muitos momentos, nosso trabalho ultrapassa a função de agente. Existem atletas que chegam até nós sem uma base familiar estruturada, e acabamos exercendo um papel de orientação, acolhimento e direcionamento. Em alguns casos, somos quase uma figura paterna e materna para essas meninas, porque entendemos que o desenvolvimento da atleta depende também do equilíbrio fora de campo.
Além do conhecimento sobre os regulamentos da CBF e da FIFA, negociação e planejamento estratégico, acredito que ética, empatia, responsabilidade e capacidade de gestão de pessoas são características indispensáveis para quem deseja atuar no futebol feminino.
Lance! - Qual foi um dos maiores cases ou momentos de que você mais se orgulha na sua trajetória como agente?
Rodrigo Fagundes - Toda negociação concluída e cada atleta que consegue evoluir representam um motivo de orgulho. O maior patrimônio da Joga10 Sports é acompanhar o crescimento profissional e pessoal das atletas que confiam no nosso trabalho.
Entre os casos que marcaram nossa trajetória estão a goleira Cláudia, do Cruzeiro e da Seleção Brasileira, campeã da Copa América; a atacante Day Silva, do São Paulo; Hingredy, zagueira e capitã do Atlético Mineiro; Day Silva, protagonista de uma das maiores contratações da história do futebol feminino do Atlético Mineiro; além das goleiras Renata May, do Juventude, e Nagila, do Mixto.
Também destaco minha atuação como diretor do São Francisco do Conde no primeiro Campeonato Brasileiro Feminino Sub-18, em 2019, uma competição que marcou o desenvolvimento da base feminina no Brasil. No Ipatinga, como supervisor, conquistamos por dois anos consecutivos o título do interior e garantimos a classificação para o Campeonato Brasileiro Feminino A3.
Além da gestão de atletas, realizamos consultorias para diversos clubes, contribuindo para a estruturação de projetos esportivos e ajudando equipes a conquistarem acesso às competições nacionais, como as Séries A2 e A3 do Campeonato Brasileiro Feminino.

Lance! - Como você avalia o atual mercado do futebol feminino no Brasil e quais são os principais desafios que ainda precisam ser superados?
Rodrigo Fagundes - O futebol feminino brasileiro vive o melhor momento da sua história em termos de visibilidade, investimento e interesse do mercado. Ainda estamos longe do cenário ideal, mas é inegável que houve uma evolução significativa nos últimos anos.
Ao mesmo tempo, acredito que ainda precisamos avançar muito na profissionalização. Construir uma carreira exige disciplina, preparo e comprometimento diário. O talento é fundamental, mas sozinho não sustenta uma carreira de alto nível.
Também considero que o mercado precisa evoluir em relação à ética profissional. Infelizmente ainda existem pessoas que atuam como agentes sem respeitar o trabalho desenvolvido por outros profissionais, assediando atletas que já possuem representação e criando promessas que não dependem delas cumprir.
As atletas também precisam compreender cada vez mais qual é o verdadeiro papel de um agente. Nós não escalamos equipes nem prometemos minutos em campo. Nossa responsabilidade é construir oportunidades, negociar contratos, proteger os direitos das atletas e planejar suas carreiras. Quem vende a ideia de que controla decisões técnicas normalmente está criando expectativas que não correspondem à realidade.
Outro ponto importante é entender que profissionalismo não se mede por quem oferece presentes, materiais esportivos ou convites. O verdadeiro profissional é aquele que luta pelos direitos da atleta, constrói oportunidades de forma ética e pensa na carreira dela a longo prazo.
Lance! - O que você espera que a Copa do Mundo Feminina de 2027 deixe como legado para as atletas brasileiras e para o mercado do futebol feminino no país?
Rodrigo Fagundes - Espero, antes de tudo, ver a goleira Cláudia representando o Brasil na Copa do Mundo de 2027. Como agente, seria uma enorme satisfação acompanhar uma atleta da nossa empresa vivendo esse momento. E, como brasileiro, espero que finalmente possamos conquistar esse título inédito.
Tenho muita confiança no trabalho desenvolvido pelo Arthur Elias. Acredito que a atual gestão da Seleção Brasileira está construindo um projeto consistente, com organização, planejamento e valorização das atletas. Tenho convicção de que os resultados serão consequência desse trabalho.
Também espero que a Copa do Mundo de 2027 deixe um legado permanente para o futebol feminino brasileiro. Que a CBF continue investindo na modalidade e reconheça cada vez mais a importância dos agentes sérios no desenvolvimento das carreiras das atletas. Somos parte desse processo e desempenhamos um papel importante na proteção, orientação e crescimento profissional das jogadoras.
Da mesma forma, espero que as federações estaduais passem a enxergar o futebol feminino como uma modalidade estratégica para o desenvolvimento do futebol brasileiro, e não apenas como uma obrigação de calendário. Se conseguirmos aproveitar o impacto da Copa para fortalecer clubes, categorias de base, competições e a formação de profissionais, o Brasil estará dando um passo definitivo para consolidar o futebol feminino entre as grandes potências mundiais.
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