Fracasso? Lulinha cita Endrick, rebate rótulo e defende carreira: 'Deu certo, sim'
Meia-atacante está há cinco temporadas na Indonésia e se prepara para seguir carreira como treinador

Aos 36 anos, Lulinha construiu uma trajetória bem diferente daquela que se imaginava quando surgiu no Corinthians. O meia-atacante foi um dos principais nomes das categorias de base do clube, com 297 gols, e chegou ao profissional cercado de expectativas. A passagem pelo Timão, porém, não correspondeu ao que se projetava para ele, embora o clube siga tendo um significado especial em sua carreira.
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Depois de deixar o Corinthians, o jogador passou por diferentes equipes e precisou encontrar novos caminhos para dar sequência à carreira. O momento de maior estabilidade veio na Indonésia. Lulinha defende o Madura United há mais de cinco anos, assumiu a braçadeira de capitão e se tornou uma das referências da equipe. No clube, são 113 partidas, 104 delas como titular, com 36 gols e 12 assistências.
A história do garoto que era apontado como uma das grandes promessas do futebol brasileiro e despertava o interesse de clubes estrangeiros, no entanto, ainda faz parte da forma como Lulinha é lembrado. O meia-atacante não concorda com a ideia de que sua carreira tenha sido uma decepção e, em entrevista ao Lance!, explica por que considera que conseguiu, sim, alcançar o sucesso no futebol.
— Nas redes sociais, os caras às vezes me marcam lá e eu respondo mesmo, porque eu falo: "Como é que eu não dei certo no futebol? Essa temporada minha é a minha 20ª temporada no profissional, então já são 20 temporadas jogando"?. É muito tempo. Eu comecei a jogar no profissional com 16 anos de idade. Fiz meu primeiro jogo com 16 anos de idade. Por exemplo, você pega uma pessoa que trabalha numa empresa. Você fala assim: "O cara tem 20 anos na empresa. Caraca, o cara é um bom funcionário." Ninguém vai ficar 20 anos trabalhando numa empresa se não for um bom funcionário. Então, assim, estou 20 anos jogando futebol, trabalhando com futebol profissional. Não estou falando de futebol amador, estou falando de futebol profissional. Então, assim, como é que eu posso dizer que eu não dei certo no futebol? — disse Lulinha.
— Mas as pessoas criaram a expectativa. Eu entendo. Eu também criei expectativa na época. Criei expectativa de jogar uma Copa do Mundo, de ser convocado para a seleção brasileira, de jogar num time grande da Europa. Normal, a gente cria expectativa. Mas as pessoas, eu penso que às vezes elas se frustram mais do que a própria pessoa que passou pela situação, entendeu? "Pô, achei que você ia pra isso e aquilo e tal, quebrei a cara". Então, assim, é zero, zero problema pra mim, sabe? As pessoas, infelizmente, vão comparar, às vezes, moleque da base, e aí vão falar: "Pô, novo Lulinha" e tal. Não tem jeito, né? — seguiu.

Veja abaixo a entrevista completa com Lulinha
Lance!: Hoje, olhando para trás, você entende por que as coisas não deram certo no Corinthians, apesar de toda a expectativa que existia sobre você?
Lulinha: — Hoje, mais experiente, a gente consegue fazer uma autoanálise de tudo, mais ou menos do que aconteceu, do que estava passando o clube no momento. Eu acho que, quando eu subo para o profissional naquela época, em 2007, é o ano que é o sonho de todo atleta, principalmente quem é da base, de subir para o profissional. E quando um treinador chega para você e fala: "Amanhã você vai treinar no profissional", para mim foi um dos dias mais felizes da minha vida. Mas, infelizmente, o Corinthians naquele momento estava passando por uma situação muito complicada, não só dentro de campo, mas também fora de campo. Quem sabe da situação do Corinthians em 2007, da parte da diretoria, do Nesi (Curi, vice-presidente), do Dualib (presidente), daquela confusão toda que estava passando… Mas nós, claro, como jogador, a gente estava ali para fazer o nosso trabalho, que era estar ali, estar jogando. E eu acho que isso, com toda certeza, contribuiu para que eu não rendesse tanto no Corinthians.
Eu não falo só a questão fora de campo, mas infelizmente o elenco do Corinthians naquele ano de 2007 era um elenco muito limitado, vamos dizer assim, com peças, infelizmente, que não estavam ajudando, não estavam dando conta do recado. Quando você vê que está nessa situação, você não tem as peças legais, se você estiver bem, mesmo com pouca idade, você vai jogar. Então, comigo, eu não tive esse período de adaptação ao futebol profissional; já tive que chegar e tentar mostrar o meu futebol. Quando se sobe como uma grande promessa, como foi o meu caso, as expectativas são maiores.
Eu era muito novo, não era ainda um atleta totalmente formado para estar no profissional, estava com 16 anos apenas. Uma base, claro, totalmente diferente do profissional, vamos dizer assim. E, infelizmente, o elenco do Corinthians era muito limitado. Então eu vejo, por exemplo, vamos pegar um caso hoje do Endrick, que foi mais ou menos o que aconteceu comigo: subiu como uma jovem promessa, mas chegou um período ali que o Abel chegou para ele e falou assim: "Não tá no momento de você ir para a Disney ainda. Calma, momento de sentar ali um pouco, esperar." Então, ali, naquela época, não tinha alguém que chegasse assim: "Não, Lulinha, calma aí, não é seu momento ainda, vamos aguardar, você vai maturar ainda, vai chegar o momento de você jogar." Mas não tinha. Você tinha que jogar, porque não tinha outro ali para poder suprir as dificuldades que o time enfrentava. Eu, Dentinho, Everton Ribeiro, a gente teve que botar a cara. A gente estava representando o nosso clube, trabalhando.
Então eu acho que foi mais isso. E quando você sobe e começa a não render, isso aí acaba tirando a confiança. E o futebol, eu digo que é muito à base da confiança: se você não estiver confiante para poder jogar, para performar, você não vai render tanto. Então, ali, 16, 17 anos, começa a perder gol, a perder os jogos, e o pessoal falando, comentando, e a imprensa é aquilo… e isso acaba te abalando também um pouco.
Lance!: Como era o ambiente daquele elenco de 2007? Vocês chegaram, em algum momento, a imaginar que o Corinthians poderia acabar rebaixado?
Lulinha: — Na verdade, a gente sempre acreditou que a gente ia sair dessa situação. Essa é a realidade. Eu, em 2007, acabo vivendo muito pouco o Corinthians, porque o que acontece? Em 2007, eu tive muitas competições da seleção sub-17. Então, assim, eu tive, por exemplo, Pan-Americano sub-17, 2007, Pan-Americano que foi no Brasil em 2007, eu disputei; eu tive o Sul-Americano sub-17, eu tive o Mundial sub-17, eu tive mais duas competições antes de ir para o Mundial sub-17. Então, assim, eu estava muito na seleção. Eu acompanhava muito, só que eu já estava integrado ali ao elenco profissional, acompanhando sempre o Corinthians, as notícias.
Teve uma época em que se passaram, acho que dez jogos sem ganhar. Eu nem estava nesses jogos, sabe? Eu estava na seleção ali, torcendo para ganhar. Mas aí, quando eu volto da seleção, faltavam alguns jogos. Quando eu me apresento, a galera sempre muito motivada, os jogadores sempre motivados ali para poder tirar o Corinthians dessa situação. Teve o jogo contra o Vasco, que a gente joga em casa e, se a gente ganhasse ali, livrava. Perdemos o jogo e aí a gente começa: "Caramba, agora a gente vai jogar contra o Grêmio lá, vai ser muito difícil, os caras vão querer derrubar a gente", tudo mais, aquela situação. Mas sempre confiante de que a gente ia conseguir tirar o Corinthians daquela situação. Esse era o nosso principal pensamento ali. A gente nunca chegou a largar. Até o último jogo, a gente tinha essa esperança de que a gente ia conseguir tirar o Corinthians, porque a gente sabe da grandeza. O Corinthians nunca tinha sido rebaixado e a gente não queria estar marcado, infelizmente, por esse momento de rebaixamento.
Lance!: Você sente que ficou alguma pendência entre você e o Corinthians, no sentido de algo que ainda gostaria de ter vivido ou realizado no clube?
Lulinha: — Não tenho dívida, não, sabe? Eu sou muito grato ao Corinthians por tudo que eu passei lá dentro. Foram 11 anos dentro do Corinthians. Eu entrei no Corinthians com 8 anos de idade. Então, uma criança. E saí de lá praticamente um homem formado. E assim, sou muito grato ao Corinthians. Hoje acompanho muito, hoje mais como torcedor. Claro, de longe, vendo as notícias, os jogos também. Mas é gratidão, muita gratidão ao Corinthians.
Infelizmente, naquele ano a gente não conseguiu livrar o time, mas eu costumo dizer também que o Corinthians tem duas fases. Acho que é o antes do rebaixamento e o pós-rebaixamento. Acho que, naquele momento, claro, você vê uma queda; é ruim para o clube, ainda mais do tamanho do Corinthians, e tudo mais. Mas muita coisa dentro do clube foi limpa, tiraram aquelas pessoas que estavam, vamos dizer, mais prejudicando do que ajudando. As pessoas saíram e depois o Corinthians, em 2008, é campeão da Série B tranquilamente; a gente chega na final contra o Sport e perde na Copa do Brasil; 2009, ano do Ronaldo, campeão da Copa do Brasil, campeão paulista invicto; e depois a história: Libertadores, Mundial e tudo mais.
Então, assim, talvez se, não sei, mas talvez se o Corinthians não tivesse caído e a gente conseguisse livrar o Corinthians daquela situação, as coisas talvez não tivessem mudado dentro do clube. Eu falo de uma parte da diretoria. Talvez as pessoas que estavam ali continuassem, e o Corinthians, uma hora, iria acontecer. Então, assim, o rebaixamento foi ruim para o clube, claro, pela história, para o torcedor, para todo mundo, que a gente sabe da rivalidade. Mas o pós do Corinthians foi muito bacana, porque muita gente que estava dentro, que estava sugando o clube, acabou saindo.
Lance!: Você comentou sobre o interesse do Manchester United. Eles realmente foram até a sua casa? Como aconteceu esse contato e como foi aquele dia?
Lulinha: — Realmente aconteceu. É verdade. Eu tenho até foto com o diretor do clube na época. Acho que ainda tem um campeonato chamado Copa Nike. Esse campeonato é jogado em São Paulo e o campeão vai jogar fora do Brasil. Na época, eu tinha 14 anos ainda, eu jogava com a categoria mais velha. E a gente foi campeão em São Paulo e fomos disputar o campeonato em Manchester. A gente chegou até a semifinal, perdendo para o Paris Saint-Germain.
Quando foi no outro ano, que era meu ano mesmo, com a minha categoria, eu fui artilheiro do campeonato da Copa Nike e o representante foi até minha casa conversar com meus pais, porque tinha um projeto para mim, no caso, de ir para Manchester, de jogar no Manchester. Só que teria que fazer a mesma coisa que fizeram o Rafael e o Fábio, os gêmeos. A cada três meses ir para lá e depois voltar para o clube. Só que aí tinha um problema na época: eles não faziam mais negócio com o Corinthians, que tinha dado um problema com, acho que o Jô, na época, uns anos atrás. E ele falou assim: "A gente não faz com o Corinthians mais. A gente vai fazer o seguinte: vamos tirar você, colocar no São Paulo. Você vai ficar treinando e, a cada três meses, você vai a Manchester, fica lá três meses e volta, até você completar os 18 anos, que aí pode ficar lá direto."
Só que aí, na época, eu lembro, quando ele falou São Paulo, eu fiquei meio assim, porque realmente o São Paulo é um clube gigante, mas na época tinha essa rivalidade, de eu jogar contra a molecada da base do São Paulo e tudo mais. E eu tinha um sonho também, por ser corintiano, de chegar e jogar no profissional do Corinthians. Eu tinha esses desejos, esses sonhos. Eu ia aos jogos, eu ficava imaginando: "Caramba, daqui a uns anos, quem sabe eu estou ali também, jogando" e tudo mais. E aí, sair do Corinthians, que eu ia sair de graça, não tinha contrato de formação, não tinha contrato de nada, eu ia só pegar minha chuteira e ir embora…
E aí eu falei: "Não, eu quero continuar. Eu tenho esse sonho, eu sou corintiano, eu quero continuar no Corinthians, eu tenho esse desejo de jogar no profissional." Pensei mais com o meu coração do que com qualquer outro pensamento. Meus pais, na época, não entendiam muita coisa, deixaram muito mais para mim, falaram: "Ah, você que sabe, é seu futuro." Eu, com 14 anos de idade… então, assim, é difícil. E ali eu decidi realmente ficar. Mas realmente isso aconteceu: eles foram na minha casa, fizeram essa proposta para eu poder ir para o Manchester. Na época, só estava o Cristiano Ronaldo, o Rooney, o Scholes, essa galerinha aí no Manchester. Pouca qualidade, é. Porque o Fábio e o Rafael, a gente se encontrava muito na seleção. Então eles foram, fizeram isso, e aí eles tiravam foto com o Cristiano, com os caras, treinavam realmente com o profissional lá, e… Aí eu pensava: "Caraca, era pra mim estar nessa barca aí."
Lance!: Hoje, aos 36 anos, você se arrepende de ter recusado aquele projeto com o Manchester United?
Lulinha: — Com toda certeza. Por exemplo, tenho um sobrinho que joga futebol. Eu converso muito com ele sobre isso, porque futebol é muito momento. Você tem que aproveitar o momento, não adianta. Naquele momento, eu era, vamos dizer, o cara da base, estava arrebentando, e essa oportunidade de ir para o Manchester… a gente não está falando de qualquer clube europeu, a gente está falando do Manchester, um dos maiores clubes da Europa, da Inglaterra. Então, assim, teria, com certeza. Acho que eu teria entrado nesse trem, teria embarcado.
Lance!: Como você imagina que teria sido essa experiência de treinar no São Paulo antes de ir para o Manchester United?
Lulinha: — Ia ter que ser assim, porque, na verdade, eu não ia jogar competição. Na verdade, eu ia só treinando, mantendo minha forma física. Três meses ficava em Manchester, voltava aqui, ficava três meses e mantinha minha forma física. Praticamente eu não ia estar competindo contra o Corinthians, em outros jogos, outras competições. Então, ia ser complicado, porque realmente eu jogava muito contra a molecada do São Paulo. Eu imagino eu sendo recebido lá em Cotia, na época, com a molecada… Chegava, deitava, fazia gol pra caramba, tinha briga, tinha tudo mais. Aquela rivalidade desde a base, não tem como. Então, assim, eu com certeza não ia ser muito bem recebido, não.
Lance!: Como foi sua fase final no Corinthians, entre os empréstimos e a saída em definitivo? E como aconteceu essa decisão de deixar o clube?
Lulinha: — Em 2009 eu fui para Portugal. Na verdade, a empresa Traffic vem, acho que pouca gente sabe disso, e compra 30% do meu passe com o Corinthians. Ou seja, o Corinthians recebe o dinheiro da empresa, que tinha comprado o Estoril Praia, o time de Portugal. E nisso eu vou, meu primeiro ano emprestado. Faço uma competição legal, porque o Estoril estava na segunda liga, na segunda divisão, na época. Faço uma competição boa, e aparece outro clube da primeira divisão de Portugal querendo me contratar, mas por empréstimo de novo. Vou para lá, também emprestado. Aí já não jogo tanto, acabo não tendo tanto espaço.
Aparece a oportunidade de voltar para o Brasil, para o Bahia. O clube estava voltando à Série A do Campeonato Brasileiro depois de seis, sete anos. No caso, era o Paulo Angioni, que faleceu um tempo atrás, que estava na diretoria e entrou em contato. Vou emprestado para lá. Depois de sete anos, a gente ganha o Campeonato Baiano. Foi muito bacana, foi top demais jogar. Eu faço, esse ano, se não me engano, sete ou nove gols na Série A. E eu tinha mais um ano de contrato com o Corinthians depois desse Campeonato Brasileiro. Foi aí que eu pensei: "Cara, acho que agora talvez seja o momento de eu voltar", porque eu estava com 21 anos, mas já experiente pra caramba, mentalmente melhor, fisicamente também já mais encorpado e vindo de confiança, porque fiz um campeonato muito bom da Série A.
Então imaginei que poderia ter uma chance no elenco. Não tô falando que eu ia jogar nem nada. Eu tinha mais um ano de contrato, o Corinthians pagava 100% do meu salário, e o Bahia não pagava nada. Eu estava com 21 para 22 anos. Só que também era o Tite o treinador na época. Conversei com o meu empresário e falei: "Cara, eu queria pelo menos fazer a pré-temporada aí para o Tite me ver, ver se eu tenho condições de ficar no elenco e tudo mais."
Só que eles não quiseram. E o Bahia, claro, tinha manifestado a questão da renovação do empréstimo e queria que eu ficasse lá também. Como não rolou de eu voltar para o Corinthians, eu acabei renovando mais um ano de empréstimo.
Lance!: O que fez você ficar tantos anos fora do Brasil? Você encontrou qualidade de vida e conforto no exterior ou foi mais uma questão profissional?
Lulinha: — Eu acho que a gente não planeja. A gente não planeja, Deus guia nossos caminhos. E aí, minha primeira… depois de Portugal, que eu voltei para o Brasil… eu estava jogando no Mogi Mirim, eu lembro. E, quando acaba o Campeonato Paulista do Mogi Mirim, não aparecem muitas situações legais para mim no Brasil. Aí eu me vi numa situação: dois meses em casa sem aparecer nada. Aparece a oportunidade de ir para a Coreia do Sul. Um empresário veio, gostou de um jogo que eu fiz contra o Palmeiras, inclusive, que eu tinha feito gol e tal, e tudo mais. Falou: "A gente vai levar você para a Coreia." E começa a minha aventura fora do Brasil. Foi uma experiência fantástica para mim. Fiz um ano e meio de contrato na Coreia, mas fui muito bem, fiz 20 gols.
E, depois de lá, aí começa a bater muito mais a parte financeira. A parte financeira começa a falar um pouco mais alto. Depois eu vou para Dubai, faço um contrato muito bom. Depois aparece o Chipre, o Pafos, me oferecendo três anos de contrato, coisa que no Brasil eu não iria pegar nunca, um clube que me desse três anos de contrato, ainda mais no valor que os caras estavam me oferecendo. E depois de lá vem o Japão. Então, assim, eu ficar tanto tempo fora do Brasil: realmente foram portas que foram se abrindo para mim no momento. Para mim, para minha família, era mais viável no momento. Então, fui acabando indo e indo, e aqui na Indonésia já é praticamente há cinco anos.
Lance!: Durante esse período fora do Brasil, você chegou a receber propostas para voltar e jogar por aqui?
Lulinha: — Eu tive algumas situações, sim, para voltar. É o que eu disse: algumas situações que a gente acaba analisando. Por que eu falo? Não adianta um clube que não esteja tão bem estruturado, que não esteja com um elenco tão bom, porque, por exemplo, vou chegar lá, "o Lulinha chegou aqui", legal e tal, e aí não vou bem, já sabe como é que é, vão cair muito: "Ah, Lulinha, não sei o quê, blá-blá-blá." Então eu pensava muito nessa situação. Não adianta ir para o Brasil, para um clube um pouco menor, de menor expressão, mas chegar lá, a gente sabe que tem um pouquinho de nome, o pessoal conhece um pouco mais; se não for bem, vão cair em cima. Então, eu preferia ficar. Claro, financeiramente pesava muito mais ficar fora do Brasil. Então, eu colocava na balança e sempre pesava para continuar fora.
Lance!: Você construiu uma relação importante no Madura United, se tornou uma das lideranças e chegou a ser capitão da equipe. Como foi conquistar esse espaço tão longe do Brasil?
Lulinha: — Eu sou o capitão. Assim, quando eu venho para a Indonésia, para falar a verdade, eu não entendia, eu não sabia como era o futebol. Eu saio do Japão, uma liga fantástica, um clube fantástico, estrutura, e tudo mais. E, quando aparece a oportunidade da Indonésia, eu falei: "Caramba, Indonésia." Fui pesquisar, fui perguntar a alguns amigos, algumas pessoas que estavam jogando aqui, como era. E as pessoas sempre falando muito bem: "Pode vir de olho fechado." Por exemplo, o meu clube aqui paga certinho, os caras são organizados até onde eles conseguem.
Aqui é a Ásia também, mas eles têm muito o nosso estilo brasileiro de torcer. Muito diferente, por exemplo, do Japão e da Coreia, que eles torcem, eles vão para o estádio, mas eles são mais frios. Aqui na Indonésia, não, o pessoal vai para o estádio mesmo, eles levam batuque, levam fogos. Então, assim, quando eu venho do Japão para a Indonésia, eu falo: "Caraca", sabe? Aquela motivação de jogar, torcedor ir ao estádio, torcedor fazer aquele corredor para você passar e gritar seu nome e tudo mais. Tem jogos aqui, por exemplo, dos clubes, que são 30, 40 mil pessoas e tudo mais.
Quando eu faço minha primeira temporada aqui, eu vou muito bem no clube. E aparecem algumas situações para eu sair, até aqui na Indonésia, para outros clubes aqui da Indonésia. Mas eu preferi fazer uma coisa que eu nunca tinha feito ainda: criar uma história dentro de um clube. Então acho que é por isso que eu tenho tanto tempo. Na minha terceira temporada, quando eu decido ficar também, o diretor chega e fala para mim: "Você vai ser o capitão do time no ano que vem, na próxima temporada." E eu fiquei feliz pra caramba, porque eu tinha esse desejo também, sabe? De ser capitão de um clube, de ter essa responsabilidade. E é legal demais. É bacana demais. Eu estou indo para minha quinta ou sexta temporada aqui no Madura, e estou muito feliz, muito feliz de estar conseguindo ainda estar jogando em alta performance por tanto tempo.
Lance!: Aos 36 anos, você pretende encerrar a carreira na Indonésia ou ainda pensa em voltar ao Brasil antes de se aposentar?
Lulinha: — Fisicamente, graças a Deus, eu estou muito bem. Claro, uma lesão aqui, outra ali, que é normal também. Mas eu queria muito encerrar num clube no Brasil, sabe? Tenho esse desejo. Faz 11 anos que a minha família não me vê jogando de perto mais. Então, assim, eu tenho ainda esse desejo de encerrar num clube do Brasil. Eu quero continuar aqui na Indonésia, quero, até onde eu puder, estar aqui fazendo a minha história aqui no clube, como, por exemplo, eu sou o maior artilheiro da história do clube, tenho mais de 100 jogos e tal, mas quero continuar criando a minha história aqui no clube. Mas eu tenho esse desejo de voltar e ainda jogar no Brasil, sabe? Jogar e a minha família estar indo nos jogos, porque do outro lado do mundo é complicado, é difícil.
Lance!: Você teria abertura para jogar por algum rival do Corinthians antes de se aposentar?
Lulinha: — Sim. Mas, assim, hoje eu não tenho problema nenhum com isso, mas acho que seria difícil um rival me contratar. Mas, assim, com toda certeza, eu não teria problema nenhum.
Lance!: Mas, pelo seu vínculo com o Corinthians, você acha que seria mais complicado jogar por um rival, principalmente agora que você até vai ao estádio torcer pelo clube?
Lulinha: — É complicado também. Ainda mais pela idade também, sabe? O cara hoje em dia contrata os caras… Pô, tá louco. Mas, assim, eu tenho esse desejo de voltar a jogar no Brasil. Eu não sei qual o clube no Brasil. Talvez esteja jogando o Campeonato Paulista, perto de casa, se possível, para poder encerrar essa carreira, né? Essa carreira, que para mim, assim, é maravilhosa. Eu conquistei tudo através do futebol, até hoje consigo as minhas coisas por meio do futebol, sou muito grato. E eu tenho essa intenção de um dia, quem sabe, encerrar num clube ali do ABC Paulista, que é onde eu moro, onde é a minha região, onde eu cresci ali. Então, vamos ver. Vamos ver o que Deus vai reservar para o futuro aí.
Lance!: E essa história de ser treinador? Você já pensa na carreira depois de jogador e está fazendo as licenças da CBF? Como surgiu esse interesse?
Lulinha: — Sim, sim. Então, assim, na verdade, como eu disse, o clube aqui, eles gostam muito de mim mesmo. E, quando foi no meu contrato de renovação, eles perguntaram se eu tinha o desejo de ser treinador. Eu falei: "Eu gosto. Não sei se eu tenho esse desejo todo, mas eu gosto." Eu gosto dessa função, ainda mais depois que eu me tornei capitão: comecei a falar mais, precisava falar mais, interagir mais, entender mais os jogadores, o elenco e tudo mais. Isso me impulsionou mais para fazer isso. E o clube falou: "Pô, a gente tem o desejo de botar no contrato que você faça as licenças, né?" Então, assim, eles pagaram, estão pagando as minhas licenças.
Agora mesmo eu terminei a licença A, foi lá na Granja Comary, foi top. O Filipe Luís foi dar aula pra gente, os professores muito inteligentes foram dar aula para a gente. A gente, às vezes, por ter essa cabeça de jogador ainda, pensa: "Cara, vou lá ficar dentro da sala de aula, escutar o cara falar tudo de futebol, a vida toda que eu fiz, que eu jogo" e tal. Mas, assim, são muito importantes, as licenças são muito importantes mesmo, porque realmente você sai de lá com a cabeça diferente. Você aprende muito sobre tática, sobre esquema tático, sobre lidar com jogadores, que acho que esse é o mais difícil do treinador: você lidar com o jogador, você saber ali conversar, você saber entender a situação do jogador, para você não perder ele. Então, assim, é bem legal. Então, terminei a licença A, ainda tem mais um processo, que é a licença PRO. Que aí é a última. E, quem sabe, ser treinador no futuro.

Lance!: Você acredita que a experiência de ter vivido tanta pressão desde a base pode ser um diferencial seu para trabalhar com jovens no futuro?
Lulinha: — Exato, eu penso muito nisso. É claro, se isso realmente se concretizar, eu não quero já chegar e pegar um time profissional, jamais. Eu quero realmente começar no sub-15, sub-17, sub-20, como foi o Filipe Luís. Ele fez esse trajeto no Flamengo, pegou sub-17, depois sub-20. Eu quero realmente, exatamente por isso. Porque eu entendo muito do menino que é a promessa. E às vezes o menino que é a promessa é que não vai vingar, vai ser o outro. É saber lidar, conversar. Porque às vezes o menino vem de uma família que não tem estudo, que não sabe passar, talvez, uma situação, e ele nem sabe lidar com aquela situação toda. Então é importante você ter um treinador que entenda isso também. Então eu quero muito também ter essa influência na categoria de base, por ter passado por tudo isso que você falou. Todas as seleções, praticamente, desde os oito anos no Corinthians. Então eu entendo bastante dessa parte da formação.
Lance!: De onde surgiu o apelido "Lulinha"? Tem a ver com Luiz, seu nome de batismo? Como esse apelido nasceu?
Lulinha: — Então, o apelido realmente veio do Luiz. Não tem nada a ver com o presidente. Meu nome é Luiz Marcelo, né? Eu sempre fui muito pequenininho, não cresci muito até hoje (risos). Mas, assim, meu pai, como forma de carinho, sempre me chamou de Lulinha. E meus amigos na rua escutavam aquilo, falando "Lulinha, Lulinha, Lulinha". Enfim, pegou, não teve jeito. Isso desde moleque. Então, ninguém me conhece como Luiz.
Lance!: Depois de tudo que viveu na carreira, como você gostaria de ser lembrado quando se aposentar? O que você gostaria que as pessoas dissessem quando lembrassem do Lulinha?
Lulinha: É assim: infelizmente, talvez pela minha passagem no Corinthians, que é um clube muito grande, as pessoas talvez vão se remeter muito mais ao Lulinha do Corinthians, vai ficar essa marca, infelizmente. Mas, assim, pra mim está tudo certo, não tem problema nenhum. Mas eu vejo que o futebol, infelizmente, cria uma bolha, uma bolha que é muito pequena. O futebol, se você parar para pensar, são poucos jogadores que vão jogar no Real Madrid, que vão jogar no Manchester United, que vão jogar na Copa do Mundo. E os outros que não jogaram, quer dizer que não deram certo? Esse é o problema. O futebol cria uma bolha, os torcedores às vezes criam uma bolha, que só é bom se joga no Corinthians, só é bom se joga no Flamengo, só é bom se joga no Palmeiras. Tem muito jogador aí, por exemplo, numa Série B, que jogaria num Corinthians tranquilamente. Às vezes é falta de oportunidade, é falta de espaço, é falta de alguém falar: "Pô, investe nesse cara aqui" e tal, tudo mais.
Eu estava vendo que a CBF vai mudar as regras na questão dos estrangeiros e tal, para potencializar mais a base. Eu acho bacana pra caramba isso aí, porque tem muito garoto que, às vezes, não está tendo oportunidade, porque você vai chegar no elenco e o elenco está cheio, tem 15 estrangeiros e tal e tudo mais. Enfim, mas voltando à sua pergunta: o que eu quero é ser lembrado como o menino que, às vezes, não deu certo pela expectativa que se criou, mas que conseguiu fazer sua carreira dentro do futebol, conseguiu jogar profissionalmente durante muitos anos e, graças a Deus, deu certo, sim.
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