Talento em risco: lesões de Estêvão e Yamal evidenciam desgaste precoce
Estrelas podem ficar fora da Copa por sobrecarga que começa antes dos 18 anos

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Duas das maiores promessas do futebol mundial vivem um momento delicado na carreira, justamente às vésperas da Copa do Mundo. Estêvão e Lamine Yamal, representantes de uma geração que amadurece cedo e atua sob pressão desde a adolescência, enfrentam problemas físicos que ameaçam tirá-los do Mundial. Os dois sofreram lesões musculares que evidenciam um dilema crescente no futebol de elite: quanto mais cedo um talento se destaca, maior tende a ser o custo físico dessa exposição contínua.
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Antes de completar 18 anos, Estêvão somou 4.886 minutos como profissional, número superior ao de Neymar, que teve 3.468 minutos no mesmo período, quando subiu para o time principal do Santos. A diferença é de 1.418 minutos, o que corresponde a cerca de 40,9% a mais. Já Lamine Yamal, que se profissionalizou mais cedo, aos 15 anos, atingiu incríveis 8.158 minutos antes de completar a maioridade, superando Estêvão em 3.272 minutos e Neymar em 4.690 minutos. Em termos percentuais, isso representa uma exposição 66,9% maior que a de Estêvão e 135,2% maior que a de Neymar.

A exigência física sobre dois atletas muito jovens - Yamal tem 18 anos e Estêvão fez 19 na última sexta-feira (24) - se intensifica em meio a um calendário cada vez mais congestionado. A Liga dos Campeões mudou seu regulamento e a fase de grupos tem pelo menos dois jogos a mais para as equipes. Além disso, novas competições, como a Copa do Mundo de Clubes e a Liga das Nações, surgiram, aumentando a quantidade de partidas e diminuindo os dias de descanso.
Um estudo da FIFPRO (uma espécie de sindicato mundial dos atletas) aponta que clubes tiveram cerca de três semanas de pausa após o fim da temporada, o que reforça o cenário de sobrecarga.
Quase sem férias, Estêvão teve volta de lesão apressada
Estêvão mal teve tempo para férias. Depois da eliminação do Palmeiras no Mundial, em julho de 2025, se apresentou ao Chelsea ainda nos Estados Unidos para uma rápida convivência com a delegação. Voltou ao Brasil para um período de descanso e no início de agosto já estava em Londres, desta vez definitivamente integrado ao elenco do clube inglês. Contratado por 61 milhões de euros (cerca de R$ 358 milhões), rapidamente virou peça-chave do time.
Essa importância para o desempenho do Chelsea fez com que o clube apressasse a sua volta após sofrer a segunda lesão muscular na coxa, em fevereiro, que o afastou por oito jogos - e o tirou também dos amistosos da seleção contra França e Croácia. A previsão de retorno aos gramados era de seis a sete semanas, mas Estêvão voltou em cinco. E pagou caro por isso. Na derrota para o Manchester United por 1 a 0, no último dia 18, ele sofreu a sua terceira lesão muscular pelo clube. Desta vez, de grau 4 nos músculos isquiotibiais da parte posterior da coxa direita. É o tipo mais severo, com ruptura completa ou praticamente completa das fibras musculares ou do tendão.
Exames causam pessimismo no médico da seleção brasileira
Ao receber os primeiros exames, o médico da seleção brasileira, Rodrigo Lasmar, se mostrou pessimista quanto à recuperação do atacante. Os médicos do Chelsea recomendaram a cirurgia - como aconteceu com o zagueiro Éder Militão, do Real Madrid, já afastado da Copa. A operação provocaria um tempo mínimo de recuperação de três meses. Assim, é muito difícil que Estêvão esteja na lista de convocados que o técnico Carlo Ancelotti anunciará no próximo dia 18. Mas o staff do jogador ainda insiste num tratamento conservador, na esperança de que ele possa disputar a Copa.
— Quando a lesão é próxima do osso, as possibilidades são maiores de recuperação. O rendimento pode ser igual porque existe a compensação dos outros músculos, que vão suprir a falha do que rompeu — analisou o médico Moisés Cohen, professor titular do Departamento de Ortopedia e Traumatologia da UNIFESP.
Segundo ele, o excesso de carga física pode ter provocado o rompimento da musculatura.
— A maior parte das lesões são atribuídas à sobrecarga. O músculo da coxa é o músculo do chute — explicou.
Estêvão quer voltar para o Brasil e fazer o tratamento no Palmeiras. Mas o Chelsea reluta em aceitar essa possibilidade. Enquanto o impasse não se resolve, o atacante divide seu tempo entre o departamento médico do clube e sua casa, tentando avançar na recuperação.
O tratamento conservador pode durar entre quatro e 12 semanas, dependendo do grau e da intensidade da lesão. Na primeira semana, consiste em repouso e tratamento para diminuir dor e inchaço, fisioterapia na segunda semana, e a partir da terceira semana, musculação para fortalecer e recuperar o local.
— O tratamento não cirúrgico pode envolver recursos como PRP e outras terapias regenerativas. O músculo funciona como um elástico: quando há ruptura, forma-se uma cicatriz que não possui a mesma elasticidade do tecido original. Isso aumenta o risco de novas lesões, já que a região se torna mais vulnerável — detalhou Cohen.
Lesão de Yamal é menos grave, mas deve tirá-lo da estreia
Já a lesão de Lamine Yamal no bíceps femoral da coxa esquerda é menos grave. Ele sofreu a contusão na vitória do Barcelona sobre o Celta de Vigo, no último dia 22. O clube e a seleção espanhola trabalham para preservá-lo e estudam a possibilidade de Yamal estrear apenas na última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo, contra o Uruguai. Neste caso, ficaria fora da estreia no Grupo H, contra Cabo Verde, e do segundo jogo, contra a Arábia Saudita.

Assim como Estêvão, Yamal passou por uma temporada de grande exigência física e quase nenhum descanso. O técnico do Barcelona, Hans Flick, chegou a reclamar publicamente em setembro, após ele ter sido convocado e escalado em duas partidas pela seleção, contra Bulgária e Turquia, mesmo sentindo a virilha. Quando voltou, foi diagnosticado com uma pubalgia, que o afastou de alguns jogos pelo clube.
— Ele [Yamal] foi para a seleção com dor, jogou e recebeu analgésicos para atuar. Ele jogou 79 e 73 minutos. Isso não é cuidar dos jogadores. A Espanha tem os melhores jogadores em todas as posições. Valeria a pena cuidar dos jogadores jovens. Fico triste com a situação — disparou Flick.
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Protagonistas em números
Mas o próprio Flick também não abriu mão de seu protagonista. Yamal jogou em média 80 minutos nas 25 partidas que disputou pelo Barcelona em 2026. Segundo dados da plataforma SofaScore, ele marcou 15 gols, deu 7 assistências e teve média de 2,9 passes decisivos e 3,6 finalizações por jogo (1,3 no alvo).

O impacto de Yamal vai além dos números diretos. Com média de 28,5 conduções por jogo e quase 250 metros percorridos com a bola, sendo mais de 150 metros em progressão, ele atua como um condutor constante do jogo ofensivo, avançando o time e quebrando linhas com frequência. As 6,9 conduções progressivas por partida reforçam essa capacidade de gerar desequilíbrios. Pela seleção espanhola, mesmo em amostra menor, mantém padrão semelhante de atuação.
Já Estêvão, em 2026 pelo Chelsea, apresenta a mesma característica de um atacante que conduz a bola para duelos um contra um. Em 13 jogos, sendo 9 como titular, somou 3 gols e 2 assistências, com média de 0,8 passes decisivos e 1,9 finalizações por partida (0,8 no alvo), com 716 minutos jogados.
Seus números indicam presença ofensiva, ainda que com menor volume de ações decisivas. Na condução, mantém características importantes: 10,8 conduções por jogo e mais de 100 metros percorridos, sendo cerca de 60 metros em progressão. As 2,5 conduções progressivas por partida e a condução máxima de 37 metros mostram que ele segue capaz de gerar avanço territorial e ações verticais relevantes.
Biotipo franzino e fortalecimento muscular
Com biotipo parecido - franzinos, ágeis e velozes - Estêvão e Yamal tiveram de se submeter a um trabalho de fortalecimento muscular quando se tornaram profissionais. Uma programação que exige cuidados e pode aumentar o risco de lesões.
— Na Europa, há uma tendência de fortalecer muito o jogador para o contato físico. Mas isso nem sempre funciona para todos. O Estêvão é um jogador leve, de drible e explosão. Se você altera demais essa característica, ele perde justamente o que tem de melhor — afirmou Amoroso, que jogou no futebol italiano (Udinese, Parma e Milan) e alemão (Borussia Dortmund) e enfrentou lesões ao longo da carreira. A mais grave delas em 1994, ainda jovem, aos 20 anos, quando era o artilheiro do Campeonato Brasileiro. Rompeu o ligamento cruzado do joelho direito, ficou 11 meses afastado e perdeu um contrato que já estava bem encaminhado com o Barcelona, além de adiar o sonho de vestir a camisa da seleção.
— Não é fácil para um atleta jovem viver esse processo. Você está no melhor momento e, de repente, uma lesão muda o cenário. A Copa parece mais distante, e é preciso estrutura emocional para lidar com isso — lembrou Amoroso.
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O atleta que chega cedo ao mais alto nível, submetido a pressão constante, pode enfrentar não apenas desafios físicos, mas também impactos emocionais, como ansiedade e perda de confiança. Em vez de consolidar uma trajetória, a sobrecarga pode comprometer sua continuidade.
— A precocidade na formação do atleta pode ter um custo. Hoje há mais conhecimento e tecnologia, mas também mais cobrança. O suporte ao jogador é fundamental para que ele consiga sustentar esse processo — explica o fisiologista Turíbio Leite de Barros.
— Existe uma sobrecarga violenta. A incidência de lesões nas categorias de base é muito grande hoje em dia. Existe exagero de todas as partes, com muitos atletas tomando hormônio de crescimento. Isso pode acabar com o sonho de uma pessoa. A exigência é que eles sejam atletas altos e fortes — analisou Moisés Cohen.
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O dilema: acelerar a formação de talentos sem esgotá-los
O futebol encurtou seus ciclos. Jogadores são exigidos mais cedo, por mais tempo e com maior intensidade. Assim como em outros esportes, a busca por talentos precoces é cada vez maior. E o risco de ausência na maior vitrine mundial, a Copa do Mundo, se intensifica quanto mais apertado fica o calendário. A própria Copa aumentou o número de seleções e de jogos.
— De modo geral, não é uma grande ideia. Eu nunca mudei minha opinião sobre isso. Temos que cuidar dos jogadores. Eu sei o quanto a recuperação é importante para eles, e precisamos dar tempo para que se recuperem. Esse é um aspecto que não podemos mudar. O jogo é tão bom quanto os jogadores são. E os jogadores são tão bons quanto o seu estado físico permite — disse recentemente Jürgen Klopp, técnico que fez história no Liverpool e no Borussia Dortmund e hoje gerencia todas as equipes de futebol do projeto Red Bull.
Yamal e Estêvão representam uma geração que combina talento precoce, valor de mercado e apelo global. A possibilidade de vê-los fora de um grande torneio expõe uma contradição do futebol moderno: o sistema acelera o surgimento de estrelas, mas ainda busca formas de protegê-las adequadamente.
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O talento surge cada vez mais cedo, mas o corpo nem sempre acompanha o ritmo imposto. Preservar esses jogadores passa por repensar o equilíbrio entre desempenho e recuperação. O alerta vai além de um torneio específico — envolve a longevidade de toda uma geração.
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