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Copa do Mundo feminina no Brasil terá teste de força dentro e fora de campo

Torneio acontece daqui a menos de um ano

PorThiago BragaSão Paulo (SP)
21/08/2026 07:00
Atualizado há 0 minutos
Copa do Mundo Feminina
Copa do Mundo Feminina 2027 irá reunir 32 seleções e será disputada no Brasil (Divulgação/Fifa)

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O Brasil receberá pela primeira vez o maior torneio do futebol feminino na América do Sul, terá a seleção anfitriã na abertura, no Maracanã, e espalhará 64 partidas por oito cidades. Ao mesmo tempo, a competição chega ao país em um momento em que o futebol feminino já não precisa provar que consegue atrair grandes públicos. A pergunta agora é outra: até onde esse crescimento pode chegar quando o principal torneio da modalidade for disputado em um país que tem o futebol incorporado à própria identidade nacional?

A décima edição da Copa do Mundo Feminina da Fifa será disputada entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, com 32 seleções e 64 partidas em Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. A abertura e a final serão no Maracanã, estádio com capacidade para 78 mil pessoas, que já recebeu decisões das Copas do Mundo masculinas de 1950 e 2014 e as finais olímpicas de futebol de 2016.

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A distribuição do torneio revela uma tentativa de fazer a competição ultrapassar as cidades que tradicionalmente concentram o futebol brasileiro. O calendário foi montado considerando deslocamentos, períodos de descanso, logística, transmissão, audiência e venda de ingressos, ao mesmo tempo em que busca levar as principais seleções a diferentes regiões do país.

O Brasil, colocado em sétimo no ranking da Fifa, chega ao torneio atrás de Espanha, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Japão e França. A posição coloca a seleção brasileira entre as candidatas que entram no Mundial com expectativa real de disputar as fases decisivas, embora exista uma distância considerável em relação ao grupo que ocupa as primeiras posições.

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— Estamos nos aproximando da Copa e essa definição foi importante. A logística é favorável e vamos nos antecipar no planejamento da logística. Nossa meta é sempre se classificar em primeiro e, neste caso, é importante, porque nos dá um dia a mais para o jogo da semifinal e da final — Arthur Elias, técnico do Brasil, em entrevista para a CBF.

A presença da Inglaterra entre as dez primeiras posições merece uma ressalva: a seleção, vice-campeã em 2023, não estará na Copa do Mundo de 2027. A ausência reduz uma das forças recentes do futebol europeu no torneio e abre espaço para que outras equipes assumam protagonismo em uma competição que terá pela primeira vez 32 participantes.

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A Espanha aparece no topo e representa uma geração que transformou o país em uma das grandes referências técnicas do futebol feminino. Os Estados Unidos, tradicionais protagonistas da modalidade, permanecem entre os primeiros colocados mesmo depois de um período de renovação. A Alemanha conserva o peso histórico de uma das escolas mais vencedoras da Europa, enquanto o Japão mantém a combinação de organização e qualidade técnica que marcou sua conquista mundial em 2011. A França, por sua vez, chega entre as principais forças europeias.

O Brasil tem uma relação diferente com esse grupo. A seleção carrega uma tradição enorme e uma produção contínua de talentos, além de nomes que se tornaram referências internacionais, como Marta, Sissi e Cristiane. O país também possui uma base extensa de jogadoras, embora muitas das principais atletas brasileiras sigam buscando no exterior melhores oportunidades profissionais.

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Esse movimento ajuda a explicar uma das contradições do futebol feminino brasileiro. O país tem talento suficiente para produzir uma seleção competitiva e uma quantidade expressiva de jogadoras de alto nível, mas ainda convive com uma estrutura doméstica que está atrás das principais ligas europeias e norte-americanas em investimento e profissionalização.

A Copa de 2027 poderá funcionar como uma vitrine para essa transformação. O próprio tamanho do evento será uma novidade. Em 2023, na Austrália e na Nova Zelândia, a expansão para 32 seleções levou a competição a um novo patamar de público, alcance e receita. Foram 1.978.274 torcedores nos estádios, o maior público total da história do torneio, em 64 partidas. A média ficou em aproximadamente 30,9 mil pessoas por jogo.

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Calendário de jogos da Copa do Mundo Feminina e sorteio da repescagem
Divulgação do calendário de jogos da Copa do Mundo Feminina e sorteio da repescagem será em Zurique (Divulgação/Fifa)

Na França, em 2019, o Mundial reuniu 1,2 milhão de torcedores franceses e estrangeiros e teve uma contribuição de € 284 milhões para o Produto Interno Bruto francês, considerando os impactos diretos e indiretos. O torneio também registrou uma audiência televisiva global superior a um bilhão de pessoas.

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Os números ajudam a dimensionar o que está em jogo no Brasil. O país não receberá simplesmente uma sequência de partidas de futebol feminino. Terá durante um mês uma circulação internacional de atletas, torcedores, profissionais de imprensa, dirigentes, patrocinadores e visitantes em oito mercados diferentes.

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Público, ingressos e o dinheiro que pode circular pelo país

A experiência recente mostra que o público deixou de ser uma incógnita para a Copa do Mundo Feminina. Em 2023, a média superior a 30 mil espectadores por partida mostrou que o torneio consegue ocupar estádios em escala comparável a grandes competições internacionais. O primeiro dia daquela edição levou mais de 115 mil pessoas aos dois estádios que receberam partidas.

A edição australiana e neozelandesa também registrou 777 mil visitantes nas Fan Fest da Fifa, um dado que ajuda a perceber como o impacto de um Mundial não fica limitado aos ingressos vendidos para os jogos. Há uma economia paralela formada por alimentação, hospedagem, transporte, turismo, entretenimento e comércio local.

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No Brasil, essa dimensão pode ser particularmente relevante. O país possui uma infraestrutura turística consolidada em algumas das cidades escolhidas e uma experiência acumulada na organização de grandes eventos esportivos. O Rio de Janeiro, por exemplo, recebe todos os anos milhões de visitantes durante o Carnaval e tem no Maracanã um dos estádios mais conhecidos do futebol mundial.

O que os Mundiais anteriores permitem fazer é estabelecer uma referência. A Copa de 2019 gerou € 284 milhões de contribuição ao PIB francês e recebeu 1,2 milhão de torcedores franceses e estrangeiros. Quatro anos depois, a edição de 2023 chegou a quase dois milhões de espectadores nos estádios e alcançou US$ 570 milhões em receita, valor suficiente para atingir o equilíbrio financeiro.

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O Brasil parte, portanto, de um cenário mais favorável em termos de mercado e tradição futebolística. Isso não significa que o resultado econômico será automaticamente igual ou superior ao das últimas edições. O número de turistas, a ocupação dos hotéis, o comportamento dos torcedores, os preços dos ingressos, a distribuição das partidas e a capacidade de transformar o torneio em um evento turístico nacional serão determinantes.

Os ingressos também entram nessa equação. A Fifa já considera a venda de entradas como uma das peças centrais da operação do torneio, mas os dados apresentados ainda não permitem estabelecer preços definitivos nem calcular a receita potencial da bilheteria brasileira. O que está claro é que a abertura no Maracanã, com o Brasil em campo, será o principal teste inicial para a capacidade do Mundial de mobilizar o público local.

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A escolha tem um peso que vai além da lotação do estádio. Uma partida de abertura com a seleção brasileira diante de dezenas de milhares de torcedores pode funcionar como um cartão de visitas para o restante do torneio. Se a atmosfera se espalhar pelas oito cidades-sede, o Mundial terá uma dimensão popular que vai além dos números de televisão.

Copa será medida pelo legado

A Copa de 2027 chega ao Brasil depois de uma sequência de recordes. A edição de 2023 foi a primeira com 32 seleções, teve o maior público total da história do torneio e passou de 160 gols. O crescimento comercial também foi expressivo: o número de parceiros da competição mais que dobrou em relação a 2019, passando de 12 para 30.

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Esses dados ajudam a explicar por que a Copa brasileira é tratada como uma oportunidade de expansão da modalidade. O futebol feminino já construiu um público internacional, já movimenta cifras relevantes e já ocupa espaço crescente no planejamento de patrocinadores. O Brasil entra nessa história com uma vantagem particular: o futebol faz parte da cultura nacional de uma maneira que poucos outros países conseguem reproduzir.

O Mundial de 2027 pode transformar essa história em uma nova etapa. Estádios cheios serão parte do espetáculo, assim como a audiência, o dinheiro movimentado e a presença de turistas. O resultado mais duradouro, entretanto, estará em saber se meninas que assistirem aos jogos no Maracanã, em São Paulo, Salvador, Recife ou qualquer outra cidade-sede encontrarão depois da Copa mais campos, mais clubes, mais competições, mais oportunidades e um ambiente seguro para continuar jogando.

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— Espero que depois da Copa seja mais comum a Seleção Feminina atuar no Maracanã, que é nosso estádio mais emblemático e conhecido mundialmente. Disputar o primeiro jogo ali é uma vantagem, porque, como o objetivo é chegar na final, quanto mais jogamos no estádio, mais testamos o gramado e a torcida — completou Arthur Elias.

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É nesse ponto que a comparação com os Mundiais anteriores ganha outro sentido. A França mostrou o impacto econômico de uma grande competição. Austrália e Nova Zelândia elevaram o padrão de público e ampliaram a dimensão comercial do torneio. O Brasil terá a possibilidade de juntar essas duas experiências a uma característica que lhe é própria: uma população que já entende o futebol como parte da vida cotidiana.

O desafio será fazer com que essa paixão não termine quando a final acabar.

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