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Entenda o xadrez político que ameaça a presidência de Infantino na Fifa

Movimento de oposição quer retirar atual mandatário do poder

PorThiago BragaSão Paulo (SP)
14/08/2026 07:00
Gianni Infantino, presidente da FIFA durante a Copa do Mundo
Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante a Copa do Mundo (Foto: CARL DE SOUZA / AFP)

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Durante quase uma década, Gianni Infantino construiu na Fifa uma posição que parecia difícil de ameaçar. A ampliação da Copa do Mundo, o aumento das receitas, a aproximação com diferentes regiões do futebol e uma rede de alianças que atravessava continentes deram ao suíço um ambiente confortável para buscar um novo mandato. Até poucas semanas atrás, a eleição de março de 2027, em Rabat, no Marrocos, era tratada como um processo praticamente definido.

O cenário mudou rapidamente. O projeto de vender parte dos direitos comerciais da Fifa a investidores privados provocou uma reação que ultrapassou a discussão financeira e atingiu diretamente o modelo de poder construído por Infantino. Uefa, AFC (Confederação Asiática de Futebol) e Concacaf (Confederação das Associações de Futebol da América do Norte, Central e Caribe) passaram a atuar de maneira coordenada, cobrando explicações, defendendo uma revisão independente da governança e, segundo informações de bastidores, discutindo até mesmo uma moção de desconfiança caso o presidente não deixe o cargo nos próximos meses.

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A proposta de investimento, que envolvia cifras na casa dos US$ 20 bilhões e a possibilidade de venda de participações em direitos da Copa do Mundo e outras competições, acabou abandonada diante da reação internacional. O recuo, porém, não encerrou a crise. Para os opositores, o episódio expôs uma questão maior: qual deve ser o papel da Fifa, como seus diferentes braços devem funcionar e quem deve exercer influência sobre as decisões que movimentam o futebol mundial.

Infantino enfrenta bloco de oposição

O movimento de oposição ganhou corpo nas últimas semanas e tem Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, como uma de suas principais figuras. A confederação europeia passou a atuar ao lado da AFC e da Concacaf, enquanto a CAF e a Conmebol seguem em posições diferentes.

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Aleksander Ceferin reeleito na Uefa
Aleksander Ceferin é o principal opositor de Infantino (Foto: PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP)

A articulação não se limita à tentativa de pressionar Infantino. As três confederações trabalham na elaboração de um documento de diretrizes para discutir uma nova estrutura para a entidade máxima do futebol. Entre os temas estão a função institucional da Fifa, a divisão entre suas áreas esportiva, comercial e de organização de eventos, a distribuição dos recursos entre as associações filiadas e o papel dos clubes na tomada de decisões.

Uma das ideias debatidas é justamente separar os três grandes braços da entidade: a estrutura responsável pela regulamentação do futebol mundial, o setor comercial e a operação das competições. Os clubes, atualmente vistos como participantes com influência limitada dentro da estrutura política da Fifa, também poderiam ganhar maior espaço.

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A oposição ainda considera utilizar o documento como plataforma para uma eventual candidatura à presidência. Em um cenário extremo, o projeto poderia até servir de base para a criação de uma organização dissidente, caso não exista espaço para uma reforma interna.

O problema para os opositores é transformar a insatisfação em votos. As 211 associações filiadas à Fifa participam da eleição presidencial, cada uma com direito a um voto. A Europa possui 55 votos, a África 54, a Ásia 46, a Concacaf 35, a Oceania 11 e a América do Sul 10.

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Com dois candidatos, são necessários 106 votos para vencer. Se houver três ou mais postulantes, o vencedor precisa alcançar dois terços, ou 140 votos, no primeiro turno. Caso ninguém chegue a esse número, a disputa vai para uma nova rodada, decidida por maioria simples.

África e mundo árabe são peças centrais no tabuleiro

O apoio de Patrice Motsepe, presidente da CAF, tornou-se uma das principais peças da estratégia de Infantino. A presença do dirigente africano em Salzburgo para a Supercopa da Europa entre Paris Saint-Germain e Aston Villa foi interpretada nos bastidores da Uefa como um gesto significativo.

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Motsepe, porém, afirmou que o futuro de Infantino deve ser decidido pelas 211 associações filiadas à Fifa. A CAF já havia manifestado apoio institucional ao presidente, embora a história das eleições da entidade mostre que as federações africanas nem sempre seguem a orientação política de sua confederação. Esse detalhe explica por que a África é tão importante para os dois lados.

O continente reúne 54 votos e historicamente representa um eleitorado decisivo. Infantino ampliou os repasses financeiros da Fifa às associações africanas durante sua década no comando da entidade, o que ajudou a consolidar sua popularidade na região. Ainda assim, apoios institucionais não significam necessariamente votos garantidos.

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A história oferece exemplos disso. Em 1998, a CAF apoiou Lennart Johansson, então presidente da Uefa, mas as federações africanas votaram majoritariamente em Sepp Blatter. Em 2002, quando o próprio presidente da CAF, Issa Hayatou, desafiou Blatter, o suíço voltou a vencer com forte apoio africano. Em 2016, a confederação africana apoiou Sheikh Salman Bin Ibrahim Al Khalifa, mas várias associações do continente ajudaram Infantino a chegar à presidência. Agora, o mesmo dilema reaparece.

Infantino também recebeu manifestações públicas de apoio de República Democrática do Congo, Egito, Mauritânia, Marrocos, Níger, Catar, Líbano e Sudão.

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Quatro desses dirigentes — os representantes de Catar, Egito, Marrocos e Mauritânia — integram o Conselho da Fifa.

O apoio árabe ganhou ainda mais peso porque o futebol da região ampliou sua presença política e econômica durante a gestão de Infantino. O presidente da Fifa também conta com o respaldo público da Conmebol, cuja relação com a atual administração foi fortalecida pela ampliação da Copa do Mundo e pela definição de partidas do Mundial de 2030 em Uruguai, Paraguai e Argentina.

Infantino resiste e prepara a disputa de 2027

Enquanto os adversários discutem uma nova arquitetura para a Fifa, Infantino não sinalizou intenção de renunciar. Ao contrário, retomou sua agenda pública depois de um período de silêncio durante o auge da crise e mantém a intenção de disputar um novo mandato.

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O presidente também recebeu um aliado de peso fora do futebol institucional: Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos saiu publicamente em defesa de Infantino e afirmou que a Fifa cometeria um "erro terrível" se cogitasse substituí-lo.

Trump associou o trabalho de Infantino ao sucesso comercial da Copa do Mundo de 2026 e classificou o dirigente como "formidável". A manifestação acrescentou uma dimensão geopolítica à disputa.

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A oposição, por sua vez, tenta transformar a crise em uma eleição sobre governança. O argumento é que o episódio envolvendo investidores privados revelou a concentração de poder na estrutura da Fifa e a necessidade de estabelecer limites mais claros para decisões comerciais e institucionais.

Existe ainda um caminho mais radical para retirar Infantino antes da eleição. Uma reunião extraordinária do Conselho da Fifa pode ser convocada caso 19 dos 37 integrantes apoiem o pedido. Depois da convocação, a reunião precisa ocorrer em até 15 dias.

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A composição, porém, torna essa alternativa difícil neste momento. O Conselho possui nove integrantes da Uefa, sete da AFC, seis da CAF, cinco da Concacaf, cinco da Conmebol e três da Oceania, além do próprio Infantino e do secretário-geral da Fifa, Mattias Grafstrom, conforme a estrutura apresentada nas informações. Por isso, o cenário mais provável segue sendo a eleição de março de 2027.

O prazo para apresentação das candidaturas termina em 18 de novembro. Até lá, a oposição precisa encontrar um nome capaz de reunir os votos de diferentes confederações, enquanto Infantino tentará reconstruir a maioria que parecia praticamente assegurada antes da crise.

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Há, portanto, dois relógios funcionando ao mesmo tempo. Um mede a sobrevivência política de Infantino até o Congresso no Marrocos. O outro conta os meses que a oposição tem para transformar indignação em candidatura, candidatura em coalizão e coalizão em votos.

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A disputa pelo comando da Fifa entrou numa fase em que nenhuma declaração vale tanto quanto a próxima aliança. Até novembro, novos apoios podem mudar de lado. Até março, novas candidaturas podem aparecer. E, no centro de tudo, está uma pergunta que vai muito além do nome de Gianni Infantino: quem terá o direito de decidir os rumos políticos e comerciais do futebol mundial na próxima década?

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