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Como Pochettino reinventou a seleção dos Estados Unidos na Copa do Mundo

Federação americana quer renovar com o treinador

PorThiago BragaSão Paulo (SP)
27/06/2026 07:40
Jogadores dos Estados Unidos comemoram vitória contra Austrália e consequente classificação antecipada
Jogadores dos Estados Unidos comemoram vitória contra Austrália e classificação antecipada (Foto: Emilee Chinn / Getty Images via AFP)

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Em 1994, os Estados Unidos surpreenderam e avançaram de fase na Copa do Mundo, eliminando na fase de grupos a então favorita Colômbia, e só parou nas oitavas de final, eliminado pelo Brasil. Agora, em 2026, novamente em casa, a equipe americana sonha em ir mais longe. E a chegada de Mauricio Pochettino ao comando do time explica a ousadia em pensar em ir além das oitavas e quartas, chegando quem sabe a uma final inédita, em Nova York, dia 19 de julho.

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Desde setembro de 2024, quando assumiu a equipe, Pochettino tenta convencer jogadores, dirigentes e torcedores de que a maior mudança necessária nunca esteve desenhada em um quadro tático. Ela precisava acontecer na cabeça de quem veste a camisa da seleção.

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Hoje, às vésperas do duelo contra a Bósnia pela fase de mata-mata, essa transformação ajuda a explicar por que os Estados Unidos deixaram de ser apenas um anfitrião simpático da Copa para se tornar uma das seleções mais interessantes do torneio.

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O desempenho na primeira fase chamou atenção. A vitória por 4 a 1 sobre o Paraguai apresentou um time intenso desde os primeiros minutos. Dias depois, o 2 a 0 sobre a Austrália confirmou a classificação antecipada. O último compromisso, diante da Turquia, serviu para preservar titulares e ampliar o rodízio do elenco. A derrota por 3 a 2 pouco alterou o cenário construído nas duas rodadas anteriores.

Essa campanha representa o ponto mais alto de um processo que, internamente, começou de maneira muito menos promissora.

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Pochettino mudou a mentalidade

Quando aceitou o convite da federação americana, em agosto de 2024, Pochettino acreditava que encontraria uma seleção pronta para dar o salto definitivo. A geração parecia reunir ingredientes raros na história do país. Christian Pulisic brilhava na Europa. Weston McKennie acumulava experiência em grandes competições. Outros atletas chegavam de ligas importantes do continente europeu.

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A lógica sugeria que bastaria organizar o conjunto. O próprio treinador admite hoje que essa leitura foi simplista.

— Sendo honesto, talvez não tenhamos percebido o quão difícil seria o processo. Fomos muito ingênuos — disse Pochettino em recente entrevista.

Filho dos agricultores Hector e Amalia, nascido na pequena Murphy, interior da Argentina, Pochettino construiu sua carreira dentro de ambientes onde o fracasso tem consequências imediatas. Como jogador passou pelo Newell's Old Boys, Espanyol e Paris Saint-Germain. Como treinador, dirigiu Espanyol, Southampton, Tottenham, PSG e Chelsea. Em Londres levou o Tottenham à final da Liga dos Campeões em 2019, transformando um elenco sem grandes investimentos em candidato aos principais títulos da Europa.

Ao desembarcar nos Estados Unidos, imaginava encontrar atletas movidos pela perspectiva de disputar uma Copa do Mundo em casa.

Encontrou outra realidade. O choque não tinha relação com qualidade técnica. Na avaliação da comissão técnica, o problema estava na cultura construída ao redor da seleção.

Durante anos, o debate sobre o futebol americano girou em torno do talento. A pergunta era quase sempre a mesma: aquela era ou não a geração mais talentosa da história do país?

O treinador enxergava atletas capazes de atuar em alto nível, algo comprovado semanalmente pelos clubes europeus em que jogavam. O que faltava era urgência competitiva. Faltava o desconforto que caracteriza equipes acostumadas a disputar títulos.

Estados Unidos vence o Paraguai por 4 a 1 na primeira rodada da Copa do Mundo
Estados Unidos vence o Paraguai por 4 a 1 na primeira rodada da Copa do Mundo (Foto: Patrick T. Fallon / AFP)

Todo mundo é igual

Essa percepção alterou praticamente todas as decisões tomadas nos meses seguintes.
Um dos episódios mais emblemáticos envolveu justamente o principal jogador americano. Christian Pulisic consultou o treinador sobre a possibilidade de participar apenas dos amistosos preparatórios contra Turquia e Suíça, ficando fora da Gold Cup. Pochettino recusou.

O treinador entendia que construir uma seleção exigia atravessar o torneio inteiro com o mesmo grupo. Do primeiro treino ao último jogo. A convivência fazia parte do projeto tanto quanto as sessões de treinamento.

O recado alcançou todo o elenco. Ninguém teria privilégios. A ideia parecia simples. Na prática, representava uma ruptura importante dentro de um ambiente acostumado a funcionar de maneira diferente. Os meses seguintes trouxeram turbulências.

Vieram derrotas na Liga das Nações da Concacaf. Surgiram questionamentos sobre métodos, escolhas e insistência em um modelo físico exigente.

Pochettino não recuou. Durante uma reunião realizada em novembro de 2025, o treinador apresentou exemplos que pouco tinham a ver com os Estados Unidos. Lembrou da Coreia do Sul semifinalista da Copa de 2002. Falou sobre o Marrocos que alcançou as semifinais em 2022. Por que não os Estados Unidos?

Era necessário assumir a ambição de disputar as fases decisivas da Copa do Mundo. Essa mudança de discurso também apareceu dentro de campo. O treinador manteve seu sistema, refinou movimentos ofensivos durante semanas consecutivas de treinamento — algo impossível nas curtas datas Fifa — e conseguiu construir uma equipe mais coordenada na pressão, mais agressiva sem a bola e mais confiante quando precisava controlar partidas.

A Copa ofereceu exatamente o cenário que ele desejava desde o primeiro dia. Pela primeira vez, trabalhou durante mais de um mês seguido com praticamente o mesmo elenco.

Novo ciclo à vista?

É justamente essa transformação que levou a federação americana a abrir conversas para renovar o contrato do treinador, mesmo antes do encerramento da campanha na Copa.

Dirigentes entendem que Pochettino conseguiu criar uma identidade reconhecível para uma seleção que, durante anos, alternou boas atuações e decepções sem consolidar uma personalidade própria.

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Na próxima quarta-feira, diante da Bósnia, essa ideia será colocada novamente à prova. Independentemente do resultado, uma mudança já parece consolidada. A pergunta agora é outra: até onde essa nova mentalidade será capaz de levá-la.

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