Zé Roberto desabafa sobre vices e faz alerta à base do vôlei
Em entrevista exclusiva ao Lance!, treinador analisa lesões no ciclo da Seleção, cobra ouro em grandes torneios e critica crise na educação física escolar
José Roberto Guimarães resumiu o sentimento de perder uma final com a seguinte frase: "O brasileiro não gosta de ser segundo. Ninguém gosta. Nós também não." O último vice da Seleção Brasileira feminina de vôlei foi na Liga das Nações (VNL) de 2026, quando a equipe chegou à decisão, mas perdeu para a Turquia. Antes disso, essa mesma geração de atletas já havia acumulado outras medalhas de prata e, mesmo recém-campeã do Sul-Americano, ainda busca o ouro em uma grande competição.
De acordo com o treinador, o clima do time após a derrota contra as turcas foi de muita tristeza. Mas não apenas pelo resultado em si, e sim principalmente pela quantidade de lesões que fez o grupo ter um ano atípico. "Eu senti muito não termos conseguido jogar com o time completo", acrescentou.
Zé Roberto explica que isso não significa que o Brasil completo venceria automaticamente o jogo. Contudo, a experiência de disputar as partidas sem desfalques significaria "sentir em que patamar do mundo a gente está em relação às melhores equipes", que brigam no ranking mundial pelas primeiras colocações.
— Eu queria muito ter sentido o nosso time com a Gabi; com a Júlia Kudiess jogando até o final, que estava muito bem; com a Nyeme jogando toda a temporada. E a gente não conseguiu isso, tivemos que ir trocando e mudando — afirmou.
Apesar da lamentação, Guimarães ficou contente que, mesmo com tantas mudanças inesperadas, a Seleção conseguiu chegar a mais uma final. Contra uma Turquia praticamente completa – "só não teve a Karakurt", como afirma o técnico –, o principal revés foi justamente não ter o time completo: "Ganhar ou perder, tudo podia acontecer. Mas, para ver o patamar, seria importante."

Mesmo com a justificativa, o comandante não exime a equipe da obrigação de vencer. O sentimento de acumular várias medalhas de prata é de que o Brasil "precisa ganhar uma grande competição", sendo este o grande desafio do grupo. Mesmo com o segundo lugar no ranking mundial, Zé Roberto entende que o time "precisa estar muito mais forte" no restante do ciclo olímpico, e afirma ter "muito otimismo" para isso.
De acordo com o tricampeão olímpico, a Seleção está próxima de alcançar esse objetivo: "Temos feito bons campeonatos e incomodado as melhores equipes do mundo. Precisamos continuar e torcer para ninguém se machucar". Ficar sem novas lesões, no entanto, é fundamental para o treinador conseguir avaliar o que a equipe precisa fazer para evoluir e melhorar até os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028, sem ficar com "falsas impressões".
Com a classificação olímpica garantida, Guimarães explica que, apesar de menos peso para o restante do ciclo, o trabalho precisa manter o mesmo foco na evolução que anteriormente. "Passa muito rápido. Se somar o tempo todo de trabalho, são quatro meses do ano que vem e três meses e meio para a Olimpíada. Vão dar sete meses e meio, e não dois anos. A classificação nos dá o alento, mas não nos tira a responsabilidade do significado dos campeonatos que a gente vai ter pela frente", complementa.
Problemas na base do vôlei e na educação física escolar
Na visão de Zé Roberto, porém, a busca pelo ouro também vai além da geração atual. Ela esbarra em um problema estrutural do esporte brasileiro: a formação de novas atletas. O treinador explica que, nos últimos anos, o país perdeu o elo fundamental da iniciação esportiva com o enfraquecimento dos campeonatos colegiais e o caráter facultativo da educação física nas escolas.
O ex-jogador, que teve essa base escolar, explica que a existência de mais times que praticam esse trabalho inicial e anterior ao profissional seria benéfica para o vôlei brasileiro. "Tudo depende da base, trabalho que deveria começar na escola. A educação física tornou-se muito supérflua, mas o esporte é uma ferramenta de inclusão social fundamental, e a gente não pode abrir mão", complementou.
Para o técnico, somente após a etapa inicial na escola, a atleta deveria migrar para um clube e iniciar o treinamento específico, que é quando surgirão as convocações. Zé Roberto defende que existe uma cronologia no desenvolvimento dos jogadores e que todo esse processo também converge para a formação pessoal, para além das quadras.
— Pode não virar uma grande atleta ou representar o Brasil na Seleção, mas com certeza tudo o que você passou no esporte vai te preparar para a vida profissional futura, seja no mundo corporativo ou no esporte — explicou o comandante.
O desafio em Barueri e o papel do investimento privado
É justamente para suprir essa lacuna na formação de atletas que Zé Roberto atua na linha de frente do projeto de Barueri, do qual é gestor ao lado de sua família. Cobrindo todas as categorias de base, a iniciativa foca no desenvolvimento esportivo integrado à vida acadêmica das jogadoras, garantindo que elas tenham oportunidade de estudar em boas universidades e se formar profissionalmente.
Mas, além da falta de uma base estruturada, outro problema está no caráter comercial do esporte. Mesmo com o projeto alcançando um impacto direto no voleibol nacional, o treinador revela que a manutenção da equipe exige sacrifícios financeiros pessoais pela falta de patrocínios.
— Nós não temos muitos recursos. Muitas vezes, eu tenho que botar dinheiro do bolso para pagar salários e manter o nosso clube vivo. Mas não importa, é uma maneira que eu encontrei de retribuir ao vôlei o que o vôlei me deu. Eu tive a sorte de ter muitas oportunidades, e tento fazer a mesma coisa agora para essas meninas que participam do projeto — desabafou Guimarães.
Dessa forma, o objetivo de manter o projeto vivo vai além do alto rendimento: trata-se de garantir que as atletas tenham estrutura acadêmica e acompanhamento multidisciplinar, com médicos, fisioterapeutas e psicólogos, para que possam ingressar em boas universidades e seguir novas carreiras. "O Brasil poderia ser muito melhor do que é, não só por resultados de medalhas, mas por educação e valores que pautam nossa vida. O que a gente quer é que elas sejam cidadãs do bem, tenham escolhas e oportunidades", afirmou.
Diante do cenário desafiador para captar recursos, Zé Roberto reforça que o apoio da iniciativa privada é indispensável para a sustentabilidade do esporte nacional. O técnico destaca e agradece a parceria de anos com a Melitta, marca de cafés que patrocina projetos na modalidade.
— A gente precisa da ajuda de empresas que colaboram com o esporte e saibam a importância que é a participação. Não é só o fato da medalha ou troféu em si, mas investir em pessoas, no crescimento e desenvolvimento de oportunidades. Sempre que uma empresa vem ajudar o vôlei, eu levanto a mão para o céu e agradeço — ressaltou.
Para o comandante, o investimento no desenvolvimento humano, afinal, é o que sustenta a engrenagem do esporte brasileiro desde as primeiras aulas de educação física. Mais do que garantir medalhas no topo, a estrutura de base e a formação pessoal são o único caminho para transformar vidas por meio das quadras e, ainda, garantir a renovação da Seleção para continuar brigando no topo dos pódios.

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