Raña: 'Impossível acabar com a corrupção'

Dirigente mais longevo à frente de duas entidades esportivas, o mexicano Mario Vázquez Raña há 35 anos ocupa a presidência da Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa) e há 31 anos está no comando da Associação dos Comitês Olímpicos Nacionais (Acno). Em uma tentativa de demonstrar desapego ao poder, frisou, ao ser indagado sobre o porquê de não sair: "Se aparecer alguém capaz, saio sem problemas."
Reeleito na semana passada, durante a Assembleia da Acno, em Acapulco, Raña reconhece a necessidade de alternância de poder mas não a qualquer preço. E destacou que aproximar os governos dos países de seus respectivos comitês olímpicos é a sua próxima missão.
Empresário de sucesso do setor de comunicação, Raña concilia a vida profissional com a esportiva: "Hoje em dia o meu hobby é o trabalho e o meu trabalho é o esporte."
LANCENET!: Na Acno, 31 anos, e na Odepa, 35, não é muito tempo?
Creio que não devia estar tanto tempo. É uma verdade. Deveria vir alguém atrás que empurrasse mas não há, não existe.
LNET!: Essa argumentação justifica a permanência indefinida no comando de ambas as instituições?
Concordo que uma pessoa não seja eterna em sua posição, mas não tive oposição em todos esses anos. E isso me enche de satisfação, porque eles acreditam no trabalho que estou desenvolvendo e fico feliz.
LNET!: Mas o senhor, alguma vez, já pensou em sair da presidência da Acno ou da Odepa?
Fui reeleito por mais quatro anos para a presidência da Acno, daqui a dois anos, ao completar 80 anos, sairei do COI. Por isso acredito que, em 2014, também deixarei a Acno.
LNET!: E da Odepa?
Tinha toda a segurança de que, terminado os Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, também terminaria meu ciclo na Odepa. Pensei dessa maneira, porque acreditava que os Jogos de Guadalajara fossem ser melhores do que os Jogos Olímpicos, mas não vão ser. Serão bons Jogos, Jogos aceitáveis, mas não os que desejava terminar a minha administração.
LNET!: Então...
Então, vou seguir até os Jogos de Toronto, em 2015. Os canadenses estão se preparando para realizarem Jogos em nível olímpico.
LNET!: O senhor diz não ter oposição tanto na Acno quanto na Odepa. A que fator credita essa tranquilidade para administrar?
Ao assumir a Odepa em 1975, ela devia dinheiro. Hoje é o organismo continental mais rico dentre todos. Para ter uma ideia, no ano passado, havíamos mandado US$ 75 mil (R$ 127,5 mil) e, ao fim, destinei mais US$ 100 mil (R$ 170 mil) para cada um dos comitês olímpicos.
Na Acno, há 20 anos, armamos o programa TOP de patrocínio. Temos 136 países considerados pobres e 69 países considerados ricos. No início, dávamos US$ 20 mil (R$ 34 mil) a esses países pobres, a cada quatro anos. Hoje, subimos para US$ 72 mil (R$ 122,4 mil). Agora, nos países em que a comercialização é maior, esse valor pode chegar a até US$ 4 milhões (R$ 6,8 milhões).
LNET!: Mas essa postura pode ser entendida, de certa forma, como uma compra de apoio?
Não. E até por isso, durante a assembleia da ACNO, comuniquei que não mandarei mais dinheiro, sem que saiba em que o comitê irá investir. Senão, eles vão se acostumar mal. Os comitês terão de ver no que gastar, porque se tens dinheiro e não sabe como gastá-lo, com certeza, gastará mais e da pior maneira.
LNET!: Já que falamos em compra de apoios, corrupção, a Fifa acabou de punir dois dirigentes por suspeita de venda de votos para a eleição das sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022. Tanto o Comitê Olímpico Internacional (COI) quanto a Odepa já enfrentaram esse tipo de problema...
À frente dos órgãos que presido sou muito transparente e exijo que todos sejam. Enfrentamos esse problema recentemente, na eleição de Toronto, quando as ilhas (países do Caribe) tentaram se unir. Se desse certo, Toronto não teria tido êxito.
LNET!: Em Mérida (no México), na Assembleia da Odepa, ocorrida em maio, o senhor propôs uma mudança na eleição da sede do Pan-Americano. E foi por causa desse problema da corrupção.
Sim. Cada um dos 42 comitês olímpicos tinham direito a um voto. E essa igualdade acabava por beneficiar cidades sem condições de realizar os Jogos em detrimento de outras mais capacitadas. Então, agora, existem os 42 votos normais, mas cada país ganhou o direito de ter mais um voto, por cada edição dos Jogos realizadas. Com isso, o México, ao fim de Guadalajara terá um total de quatro votos. Já o Brasil, após 2007, totalizou três.
LNET!: Por tudo o que disse, me leva a concluir que o fim da corrupção no esporte é impossível?
A corrupção em todos os meios é difícil de acabar, mas freá-la, sim. É possível. Acabar, acabar, acabar...é muito difícil. Por isso, mudei o sistema de votação. E na distribuição do dinheiro da Odepa também fazemos auditoria. E ela é paga com o dinheiro do comitê olímpico investigado. Só se ele não tiver condições de arcar com a despesa é que a Odepa paga pelo serviço.
LNET!: Aproximar os comitês olímpicos nacionais de seus respectivos governos é a sua próxima meta. Na Assembleia da Acno, realizada semana passada, houve o primeiro passo nesta direção, com um encontro entre todos envolvidos. Vai dar certo?
A reunião foi um sucesso e espero que se realize a cada dois anos. Sabemos que há muitos obstáculos a serem superados e, por isso, serei sempre um moderador respeitoso para equilibrar bem as situações. De um lado, há o poder do movimento olímpico e, do outro, o poder dos governos. Um precisa do outro e ambos terão de saber dialogar.
LNET!: Só que aliar esporte à política pode torná-lo ainda mais vulnerável à corrupção. Como fazer para protegê-lo?
Fizemos essa primeira convenção com os governos e isso não é um trabalho de um dia para o outro. É algo para se fazer continente por continente, país por país. Em alguns casos, o entendimento é muito difícil, mas os comitês nacionais têm tempo. Vamos tentar dois, quatro, seis, quantos anos forem necessários. Não é um tema fácil. Mas a autonomia dos Comitês Nacionais deverá sempre ser preservada.
LNET!: Três países do continente americano se preparam para realizar importantes disputas. Já falamos sobre os Pan-Americanos de Guadalajara e Toronto, mas não dissemos nada sobre os Jogos Olímpicos e Paraolimpicos Rio 2016...
O Rio está bem. Fez excelentes Jogos Pan-Americanos em 2007, de nível olímpico e, agora, se prepara para realizar as Olimpíadas. Pelo o que sei, até o momento, tudo transcorre dentro do previsto e serão grandes Jogos.
LNET!: Suas reuniões de trabalho são sempre abertas à imprensa, seja na Odepa, seja na Acno. Por que adota essa conduta?
Primeiro, porque sou transparente. Segundo, porque sou do ramo da comunicação. A crítica boa e até a ruim são necessárias.

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