Exclusivo! Muricy já fala sobre o Barça: 'Vamos para cima deles!'

Após a conquista do Santos na Copa Santander Libertadores sobre o Peñarol, no Pacaembu, muita festa e comemoração, estendidas pela madrugada de ontem com a chegada do time à Vila Belmiro. Festa, porém, somente para os jogadores. O técnico Muricy Ramalho, tratou de se recolher em Ibiúna, no interior de São Paulo, para curtir os momentos iniciais de sua primeira conquista da América.

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O tão cobiçado título serviu para apagar as cinco eliminações na Libertadores que havia sofrido. Mas, segundo o comandante, que jamais o incomodaram.

Em seu refúgio campestre, ainda cansado em virtude das poucas horas de sono, Muricy atendeu ao LANCENET! para essa entrevista exclusiva. O treinador falou sobre o título continental, as dificuldades, os "diferenciados" Neymar e Ganso e projetou um duelo contra o supertime do Barcelona no Mundial de Clubes, em dezembro, prometendo enfrentá-lo em igualdade, sem retranca.

LANCENET: Como você se sente algumas horas depois de conquistar sua primeira Libertadores?
Muricy Ramalho: Como sempre, procuro ficar em um lugar tranquilo. Não fui para Santos, acho que isso é para os jogadores. Vim para o lugar que eu gosto, que é Ibiúna. Não dormi nada. Estou feliz, mas controlado no que diz respeito à emoção.

L!: E como foi ser reverenciado por Pelé após a conquista do título?
M.R.: Tenho um apartamento no Guarujá e temos amigo em comum, o Hugo. Tive a oportunidade de conhecer o Pelé em sua intimidade. Ele tem uma coisa de rei, você sente isso, é impressionante. Ele esteve no Santos, foi abraçar os jogadores, dar força. Cada vez que você vê ele você sente algo estranho, coisa que sente quando vê um rei mesmo. Quando me abraçou senti essa energia, de estar abraçando um rei do futebol. Foi excepcional!

L!: Pelo São Paulo, certa vez você disse que não havia conquistado a Libertadores por falta de sorte. Agora, no Santos, em que momento você teve sorte?
M.R.: Eu acho que contra o América, no México (empate em 0 a 0, no dia 3 de maio). A gente sabia que ia sofrer muito, e nos portamos muito bem para conseguirmos a classificação. Naquele jogo, começamos a sonhar com o título.

L!: Quando você chegou, o Santos corria até riscos de não classificar na Libertadores. Mesmo assim, acreditava no título?
M.R.: Você tem de ter convicção do que está fazendo. Quando assumi teríamos um jogo complicado, contra o Cerro Porteño, fora de casa, e a gente não poderia nem empatar. E ainda estávamos desfalcados. Poderia não ter assumido e deixado para vir no Brasileiro. Mas tenho confiança no meu trabalho, mostrei força para os jogadores, organizei o time, pus na cabeça deles que tinham de jogar e não brigar. Claro que teria o lado individual de alguns, mas mostrei a eles que todos tinham de participar. Eles compraram a ideia e o time mudou muito, dentro e fora de campo.

L!:Esse grupo do Santos é o melhor com o qual você já trabalhou nesses anos de carreira?
M.R.: Eu trabalhei com grandes grupos, mas esse tem dois jogadores diferenciados, que são o Neymar e Ganso. O São Paulo também tinha o melhor goleiro do mundo (Rogério Ceni). Com certeza o Santos é um dos melhores times pelo lado individual desses dois craques. O São Paulo e esse Santos são os melhores que eu já trabalhei.

L!: O Neymar, por ter 19 anos, parecia estar realizando sonho nessa final. Você acha que por esse jeito ele não tinha noção da dimensão de uma Libertadores e, por isso, não sentiu a pressão?
M.R.: O Neymar foi o jogador com o qual eu mais conversei. Disse que ele não devia mudar a característica dele, não importa se é Libertadores ou não. Tinha que se divertir, ir para cima. Só pedi para tomar cuidado com arbitragem, que já estava o marcando, e com o adversário, que ia bater muito. Mas não queria que perdesse o que tem de melhor, que é jogar futebol, gostar de jogar.

L!: Acredita que, com esse título, vai acabar o seu rótulo de ser um "técnico de pontos corridos"?
M.R.: Isso não era uma verdade. A maioria dos meus títulos é no mata-mata. O que não tinha ganhado era a Libertadores, mas tem muito técnico bom que não ganhou a Libertadores. Não sou treinador de mata-mata ou de pontos corridos. Sou treinador de futebol. Acho que são rótulos que as pessoas dão. Quem é o fera do mata-mata? Por que esse fera não repete isso na Libertadores? Eu sou fera em pontos corridos! Já ganhei quatro vezes. Mas nunca tirei proveito disso.

L!: O que faltou para você ser campeão no São Paulo que, no Santos, você aprendeu e fez diferente para vencer a competição continental?
M.R.: Fiz no Santos o que fiz no São Paulo e faço sempre. Trabalho sério, duro. São coisas do futebol. No São Paulo, naquela final em 2006, aconteceram coisas que eu não tinha como resolver. Perdemos Josué expulso e Mineiro lesionado, duas feras do time. É difícil de explicar.

L!: Você sempre foi reconhecido por trabalhar muito com o esquema 3-5-2. No Santos, ganhou o Paulista e a Libertadores com o 4-4-2. É sua preferência agora?
M.R.: Não tenho esquema de preferência. Respeito as características do time. No São Paulo, tinha três zagueiros que eram os melhores do país e dava para ter liberdade de todo mundo atacar. Tem de ver se o time se organiza com ou sem a bola. No Brasil, três zagueiros significa time defensivo, três atacantes é time ofensivo. Mas não existe isso. A parte tática no Brasil a gente é muito ruim para analisar. Por isso, faço o que eu acho e sempre dá certo.

L!: Havia a expectativa se o Ganso seria ou não escalado e você o colocou como titular. Como trabalhou para essa última partida?
M.R.: Se eu tenho tantos bons jogadores, tenho de achar um jeito de colocar ele para jogar. Quem ganha jogo são os jogadores, então você tem de escalar os melhores. Se eu perguntei para o preparador físico, para o fisiologista, e eles disseram que o Ganso podia jogar, por que colocaria no segundo tempo e não no primeiro? Estava sem ritmo? E vai ganhar ritmo quando? Como vou olhar para o banco e ver o Ganso do meu lado? Isso não existe. Ele tem de estar em campo sempre, mesmo cansado. Entrou em campo e deu espetáculo, deu de calcanhar...

L!: A partir de agora, como planeja o Santos no Brasileirão?
M.R.: Já faz um mês que converso com a diretoria sobre isso. Não sabemos quantos jogadores vamos perder (para a Seleção Brasileira e Sub-20 são sete atletas). Vamos procurar jogadores, e os que eu quero têm de ser diferenciados. Vamos sofrer na retomada do Brasileiro. Vamos esperar que cheguem jogadores.

L!: Além de Zé Eduardo (Genoa) e Maikon Leite (Palmeiras), acha que vai perder mais atletas?
M.R.: Não tenha dúvidas. É muita gente em cima dos nossos jogadores. É coisa de time que é campeão, não tem como fugir. Temos de pensar na reposição desses jogadores.

L!: Você ouviria conselhos do José Mourinho (técnico do Real Madri) para saber como superar o Barcelona no Mundial?
M.R.: Não, iam dizer que sou retranqueiro... (risos) Ele só ganhou do Barcelona na retranca (Copa do Rei). Mas ele é o Mourinho, não é? Se eu fizesse o que ele fez, iam dizer que eu sou louco.

L!: Você acha que os técnicos no Brasil são menos reconhecidos então?
M.R.: No Brasil, temos uma dificuldade maior em reconhecer o treinador. Queria ver o Mourinho aqui, ser campeão aqui. Queria ver o treinador do Chelsea, ou aquele cara que está há 40 anos no time de vermelho, aqui no Brasil... Aí eu daria 10 pra eles, mas, enquanto não vierem, eu dou 7 (risos).
Nota da redação: O "cara no time de  vermelho" é  Sir Alex Ferguson, técnico do Manchester United (ING) desde 1986, 12 vezes campeão da Inglaterra e bi da Liga dos Campeões da Europa, entre outros.

L!: Em um eventual jogo contra o Barcelona, então, o Santos não vai entrar na retranca?
M.R.: Não tem como, nosso time não tem essas características. Tem de respeitar o que temos, vamos partir para cima. O que eu tenho de fazer? Ter um sistema que libere os que não ficam atrás, mas que tenha jogadores que sustentem atrás quando os outros saiam. Mas, antes, temos de passar pela eliminatória, se não ficamos que nem o Internacional, contra o Mazembe, em 2010. Se chegar à final, não tem como mudar. O Santos é ofensivo, agressivo, vamos para cima deles... Mas hoje é mais organizado, sofre menos.

L!: Conta com Neymar e Ganso no Mundial?
M.R.: Todo mundo quer contar com eles, mas não sou dono do Santos nem deles. Tem de ver o que é melhor, às vezes é o sonho dos caras. Para mim, tinham de ficar, porque iam se valorizar mais.

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