Último dia: Pet faz planos e relembra detalhes da carreira

Vai ficar um gostinho de quero mais para a torcida do Flamengo e para Petkovic. Por ele, jogava até o fim do ano, mas as obras do Maracanã amenizam um pouco a dor da despedida. Se o estádio estivesse em condições, ele não pararia agora. Convicto de que cumpriu a sua missão como jogador profissional, Pet quer devolver ao futebol tudo que conquistou. E com a ambição que o fez deixar o Real Madrid, em 1997, e vir jogar no Brasil, dará um passo adiante na sua carreira.
Nesta entrevista exclusiva ao LANCENET!, Petkovic relembra momentos marcantes de sua vitoriosa carreira, frustrações e objetivos para o futuro. O primeiro deles, é a vitória sobre o Corinthians neste domingo, se possível com um gol de falta.
Confira detalhes da chegada de Pet a Fla
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Saiba como foi o último treino de Pet
Depois, vai se dedicar até o fim do ano como embaixador do Flamengo, cargo oferecido pelos dirigentes rubro-negros. Assim que terminar 2011, vai passar a experiência adquirida para os mais jovens. E, com o título de sócio proprietário nas mãos, espera, um dia, chegar à presidência do Flamengo.
- Tenho de esperar três anos para me candidatar. Esperava que fossem me dar (o título de sócio proprietário), mas acabei comprando. Eu não quero ser presidente do Flamengo... (neste momento Petkovic abre um sorriso misterioso). Os planejamentos são muitos, mas não posso queimar etapas. Possibilidade e potencial eu tenho, mas tenho que trabalhar ainda bastante. Tenho de devolver ao futebol aquilo que ele me deu. Vou tentar fazer isso como treinador ou dirigente - explicou Petkovic, emendando:
- Se o Maracanã estivesse aberto, eu não iria parar de jogar agora. Nada é igual a jogar no Maracanã. É muito diferente jogar em outros estádios. Só quem sentiu isso sabe explicar. Eu sou um cara sortudo, tenho dois maracanãs - disse Pet, referindo-se ao estádio na Sérvia homônimo ao do Brasil.
CONFIRA OS PRINCIPAIS TRECHOS DA ENTREVISTA
É a hora de parar?
Eu poderia jogar um pouco mais. Meu planejamento era parar no fim do ano, mas aconteceu seis meses antes. É uma pena não ter o Maracanã cheio, seria mais bonito. Mas vamos fazer a despedida no Engenhão, a homenagem será só depois do jogo. Como o jogo é à vera, temos que demonstrar neste 90 minutos o que sempre demonstramos no Flamengo. Dar o suor, mostrando raça e vontade.
E se a torcida pedir para você ficar?
Eu estou no Flamengo. Vou ficar até o fim do ano, depois nós vamos ver como vai ser a vida. Vamos ver com o clube, com a presidência. A prioridade é do Flamengo. Depois disso vou seguir meu rumo profissional.
Siginificado do Flamengo
Quase metade da minha carreira foi no Brasil, mas nunca sonhei que viria jogar aqui. Quando criança eu via o Brasil melhor do mundo. Um dos meus ídolos junto com Platini era o Zico. De repente eu cresci, virei profissional, cumpri meu sonho de jogar pelo meu clube, o Estrela Vermelha . E o destino me levou à terra do futebol. Tive a ousadia de dizer que iria lá e e mostrar o meu talento. Isso não significou prepotência, faz parte um pouco da mentalidade sérvia: de superar as barreiras, acreditar e ter autoconfiança. Eu soube aproveitar isso e aprender com o futebol daqui. Depois me encontrei com a situação de ir para o clube mais querido, sem conhecer a História do Flamengo. Cheguei aqui e coloquei a camisa 10 de Zico. Só que eu não imaginava o que o Zico representava para o Flamengo. Só o conhecia pela Seleção. Depois que eu vi o que era o Zico no Flamengo, quando vi a tamanha responsabilidade, aí caiu a ficha e eu falei: "Ih, meu Deus, agora já era". Aí entrou a preocupação.
Início no Flamengo
Lógico que tive altos e baixos. Em 2000, eu tinha falado para o ex-presidente Edmundo Santos Silva que todo mundo erra. Que ele podia ter errado em me trazer. Mas não me colocar na vitrine era estupidez porque desvalorizava a mercadoria. Se tira da vitrine, não mostra o produto, você não vai saber se é bom ou não. Ele me deu razão.
Chegada do Zagallo
Zagallo chegou e me ajudou muito, me deu abertura e disse que eu iria jogar. O Flamengo tinha no banco Alex Denílson, jogávamos juntos ou eles ficavam no banco e eu era o primeiro jogador do Flamengo, que deslanchou. Ele deu maior importância de que eu iria vingar, explorou meu potencial. Zagallo foi mais do que um pai. Em 2001 cometi um ato de indisciplina, porque estava brigando com o clube (Petkovic quase não disputou a final contra o Vasco na qual fez o histórico gol de falta). Ele conversou comigo antes do jogo e pediu para esquecer o problema.
Volta ao Flamengo
Fui muito iluminado. Deus olhou para mim e falou: "Poxa, esse cara teve conduta e comportamento, fez as coisas e merece uma chance para aproveitar". Conseguir por competência e ajuda dos amigos. Eu tinha certeza de que jogaria bem. Abri mão de muitas coisas, em toda aquela negociação me perguntaram: "Você está pronto para o pior?" Não jogar não é pior, estou preparado para isso. O pior é jogar mal, passar vexame. Isso era a pior coisa que poderia acontecer. Eu sabia que iria jogar muito e ajudar o Flamengo a chegar à Libertadores. Mas não me incomodo de as pessoas não terem acreditado em mim.
Importância da torcida
Sem torcida o jogador não faz nada. É aquele termômetro que te desperta no jogo quando você está sonolento. Quando você está abatido e pensa que não vai dar mais ou está no final de suas condiões físicas. Aí você escuta um grito deles e acorda. Nós desconhecemos os nossos limites. Sempre pudemos superar e isso foi demonstrado ao longo da minha carreira.
Maior frustração
Não jogar na seleção sérvia me deixou frustrado. Acho que eu merecia, mas eles não me chamaram, fazer o quê?
Futebol na vida de Pet
Eu devo tudo ao futebol, me ensinou tudo. A educação vem de nossa escola, de nossa família, o tempo que tive no futebol me fez um homem: me ensinou ética, moral, dedicação, quero devolver isso ao futebol.

Treino de bicicleta
O motorista do Flamengo chegou atrasado. Eu iria chegar atrasado, mas eu morava perto do Fla-Barra. Na época, eu peguei a bicicleta do caseiro e fui para o treino. Todo mundo deu risada por eu ter ido de bicicleta. Eu falei que era profissional, estava me atrasando e então fui de bicicleta.
Diferença cultural
No primeiro jogo contra o União São João, no aquecimento antes do jogo, os repórteres estavam entrevistando os jogadores e eu perguntei por quê. Eu falei: "A mim não, preciso aquecer". Quando cheguei ao Flamengo, o repórter entrou no campo para tirar foto e isso me incomodou. O repórter falou que estava trabalhando e eu respondi que eu não iria bater bola no escritório dele.
Opção pelo futebol brasileiro
O Teo Fonseca, vice presidente do Vitória, é o principal responsável, porque chegou lá e conseguiu me enganar (no bom sentido) para eu vir. Falou que teria de vir à noite mesmo para o Brasil, senão não conseguiria o registro na CBF. Que o papa estava vindo e daria problema. Me enganou bem e eu fui.
Amor ao Brasil
É contagioso. Tem que sentir, não dá para explicar. É igual aquela frase: Brasil se sente, não se explica. Eu falo com os meus amigos, vocês têm que vir aqui e sentir. Explicar é difícil. No filme eu estou tentando explicar isso um pouco. Uma parte mistura bastante essa energia que acontece no Brasil.
Como está sendo estes últimos dias. Está dando para dormir?
Não, até o momento não, mas na concentração é sempre diferente. Sou uma pessoa que quer sempre cumprir as metas. Sou muito ambicioso e não paro um minuto. Na nossa profissão nós dependemos de si e de muitas outras coisas, conjunto, do momento, de oportunidade. Eu acho que foi uma carreira boa. Antes de começar, nós estabelecemos um objetivo. Depois outro. Eu sempre quero conquistar mais.
Se alguém falasse há 20 anos que faria sucesso no Brasil iria acreditar?
Não iria acreditar. Nunca imaginaria que meu destino iria me levar para o Brasil. Estava viajando com as seleções de base, juvenil e juniores da Iuguslávia...
O que marcou mais: 2001 ou 2009?
O que marcou foi o gol (de falta de 2001) porque foi na metade da carreira, foi um trampolim para mim. Passei a ser tratado como ídolo, craque. E depois consegui provar isso e dar mais alegrias às outras tocidas. Em 2009 foi maravilhoso pelo título.
Pés na Calçada da Fama
Aquele dia de deixar os pés no Maracanã foi muito importante. Foi o título dos títulos da minha carreira. Mas disse naquela ocasião que só faltava o Brasileiro.
O que não vai sentir falta
De concentração. Eu amo jogar futebol, eu gosto. A única coisa que incomoda é a concentração.
Quando chegou ao Vitória, disse que se escondia na sombra pelo forte calor
Vim do frio, e o calor aqui era muito grande. Em determinado jogos, abafa bastante. Meu pai me dizia que eu estava bem, mas não estava correndo como antes. Eu falei que era impossível porque era muito quente. E os brasileiros correm desde que nasceram neste clima. Coloquei uma cadeira para ele (pai) na sombra para acompanhar o treino. Depois do treino, ele me disse que cansou na sombra sentado. É muito complicado jogar com 30ºC, 40ºC.
Ídolo no Fluminense, Vasco e Flamengo
Não é fácil jogar e ser admirado, mas isso foi comprovado agora, quando foi a pré-estreia do Gringo (filme que conta sua carreira), com a convivência dos líderes das torcidas nas mesmas sala assistindo. Isso para mim foi um carimbo de que eu consegui ser respeitado, mas consegui mais coisas marcantes pelo Flamengo: Campeonato Brasileiro. Consegui fazer a torcida lembrar Zico. Muitos dizem que depois dele sou eu. Isso é motivo de orgulho. Claro que pode ser um exagero, mas essa geração lembra do Zico e do Petkovic. Veja a placa: "Não vi Zico, mas vi o Pet."
Veja como foi o último treino de Petkovic:

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