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Barcelona e River Plate misturam história e modernidade ao apostar em estádios gigantes

Camp Nou e Monumental de Núñez receberão mais de 100 mil torcedores após reforma

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Pedro Werneck
Rio de Janeiro (RJ)
Dia 02/06/2026
07:00
Projeção do River Plate para o novo Monumental de Núnez, em Buenos Aires
imagem cameraProjeção do River Plate para o novo Monumental de Núñez, em Buenos Aires (Foto: Divulgação / River Plate)

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Barcelona e River Plate são protagonistas de um novo movimento no futebol: ambos ampliarão as suas casas para mais de 100 mil espectadores. Impulsionados por programas de sócios-torcedores muito bem-sucedidos, os dois clubes terão estádios gigantes, indo na contramão das arenas de capacidade reduzida que tomaram o esporte nos últimos anos.

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As duas expansões revisitam uma tendência antiga, mas também são processos de modernização, que almejam explorar ainda mais os respectivos potenciais lucrativos de Camp Nou e Monumental de Núñez. A proibição de que torcedores ficassem em pé e a expansão da área do gramado fizeram muitos clubes abrirem mão de públicos massivos em seus estádios. Agora, porém, respeitando os padrões da Fifa, a dupla quer voltar a tornar rotina públicos de mais de 100 mil pessoas.

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River Plate: sucesso possibilita segunda expansão

O Estádio Mâs Monumental, popularmente conhecido como Monumental de Núñez, já passou por uma grande expansão recente: entre 2020 e 2023, o River Plate investiu US$ 45 milhões (R$ 261 milhões) para aumentar a capacidade máxima de 72.054 para 85.018 pessoas. Agora, US$ 200 milhões (R$ 1 bilhão) serão direcionados para a modernização que possibilitará que a arena receba 101 mil torcedores. As obras recém-iniciadas terão duração de três anos e contam com financiamento expressivo. Além da ampliação da arquibancada, serão construídas 50 colunas de sustentação para o novo teto. No entanto, a ideia é que o River Plate continue atuando em sua casa ao longo deste tempo.

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Confira no vídeo abaixo a projeção do novo Monumental de Núñez:

O sucesso da primeira ampliação do clube argentino se reflete em números, que justificam a nova reforma. O total de sócios-torcedores dos "Millonarios" aumenta a cada ano: já são 350 mil assinantes, marca que só fica atrás de Real Madrid e Benfica. Com isso, lota o seu estádio há mais de 100 jogos consecutivos e teve a melhor média de público global em 2025. A expectativa é manter a escrita, agora com mais de 100 mil torcedores em todas as partidas.

Maiores médias de público do mundo em 2025, segundo o Transfermarkt:

  • River Plate: 85.018 torcedores
  • Borussia Dortmund: 81.241 torcedores
  • Bayern de Munique: 75.000 torcedores
  • Real Madrid: 74.307 torcedores
  • Manchester United: 73.987 torcedores

Cerca de 45 mil sócios-torcedores do River Plate assinam o benefício "Tu Lugar en el Monumental", que garante ingressos para todos os jogos da temporada. O programa exige pelo menos 80% de presença, mas o fã assíduo recebe uma taxa caso não usufrua do seu assento e o revenda em alguma partida. Assim, mais da metade da capacidade atual do Monumental de Núñez é quase garantidamente preenchida. Os demais sócios têm prioridade na compra dos bilhetes restantes.

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Cerca de 68% da receita operacional do clube provém dos Match Days (em português, "Dias de jogos"), parcela contemplada por venda de ingressos e experiências, mas também pelo comércio no interior do estádio antes, durante e após as partidas. Enquanto clubes brasileiros conseguem maior faturamento com direitos de transmissão e transferências de jogadores, o gigante argentino explora melhor a presença massiva na sua casa.

Estádio Mâs Monumental lotado em jogo do River Plate
Estádio Mâs Monumental lotado em jogo do River Plate (Foto: Divulgação / River Plate)

Mas o River Plate ainda almeja continuar elevando este tipo de receita, como reforçou em entrevista ao Lance! o vice-presidente do clube responsável pela área de desenvolvimento de negócios, Ignacio Villarroel.

— O objetivo da nova ampliação é continuar expandindo a capacidade de geração de receita, diversificar as unidades de negócios, aprimorar a organização de eventos internacionais e consolidar o Monumental como um ativo operacional durante todo o ano. Em última análise, a primeira expansão solidificou a força financeira e operacional do River Plate. Esta nova fase visa posicionar definitivamente o clube e o estádio entre os principais players globais na indústria do esporte e entretenimento — afirmou.

Como sinalizado pelo dirigente, o entretenimento também é parte importante do faturamento do estádio, que já recebeu shows de artistas como AC/DC e Taylor Swift. A ampliação torna o Mâs Monumental ainda mais atrativo para eventos desse porte.

Portanto, o River Plate procura formas de tornar o estádio gigante gerador de receita também em dias sem jogos. Paralelamente, busca lucrar ainda mais com as partidas, com experiências que ajudem a vender cada compromisso esportivo como um espetáculo. É o que explica Mariano Taratuty, outro vice-presidente do clube, encarregado da área de obras e infraestrutura:

— O futebol mundial passa por uma fase em que a experiência integral do espetáculo se torna cada vez mais importante. Hoje, os maiores clubes do mundo competem não apenas em campo, mas também em termos de infraestrutura, hospitalidade, serviços, entretenimento e criação de experiências para suas comunidades. Nesse contexto, a modernização dos estádios responde a uma necessidade específica: oferecer conforto, segurança, conectividade e novas propostas de valor para o público.

Projeção do River Plate para dia de jogo no novo Monumental de Núnez
Projeção do River Plate para dia de jogo no novo Monumental de Núñez (Foto: Divulgação / River Plate)

Outros times seguirão o exemplo?

A expansão do Monumental de Núñez alimentou a rivalidade entre torcedores de Boca Juniors e River Plate, que discutem quem tem a maior torcida do futebol argentino. A histórica La Bombonera, casa do gigante azul e dourado, tem 57 mil lugares disponíveis atualmente. Em breve, o estádio do seu rival terá quase o dobro. Por isso, o Boca também tem projeto ainda embrionário de ampliação da sua casa.

Para o jornalista argentino Walter Vargas, que trabalhou durante 25 anos no "Olé" e atualmente é comentarista na "Cadena Sports", dificilmente outros clubes hermanos terão estádios para mais de 100 mil pessoas em um futuro próximo.

— Não há muitos clubes em condições de promover o retorno dos estádios gigantes. O Boca está prometendo isso há muito tempo, mas ainda é um projeto de um projeto… Outro pode ser o Racing. O Independiente eu já vejo mais longe, porque a remodelação do estádio aumentou a capacidade há quase uma década. E o quinto grande tradicional, o San Lorenzo, tem problemas econômicos, financeiros e estruturais. O Gimnasia y Esgrima La Plata vai ampliar seu estádio, mas será em termos mais modestos. E o Estudiantes de La Plata está finalizando as arquibancadas do seu estádio, mas também não estaremos falando de um estádio gigante — explicou ao Lance!.

Maiores estádios da primeira divisão da Argentina:

  • Monumental (River Plate): 85.018 lugares
  • La Bombonera (Boca Juniors): 57.200 lugares
  • Mario Alberto Kempes (Talleres): 57.000 lugares
  • El Cilindro (Racing): 55.000 lugares
  • Ciudad de La Plata (Estudiantes e Gimnasia): 53.000 lugares

Os dirigentes do River Plate vão além: não veem cenário provável para nenhum outro clube da América do Sul replicar a expansão grandiosa do Monumental. Assim, os estádios para públicos superiores a 100 mil pessoas não seriam uma tendência global, mas privilégio de pouquíssimos clubes.

— Acreditamos que esse modelo se restrinja a instituições muito específicas em todo o mundo, apoiadas por uma base de sócios massiva e demanda sustentada ao longo do tempo. No caso do River Plate, o crescimento constante de sócios e a alta ocupação do estádio justificam uma expansão dessa magnitude. Portanto, em vez de uma tendência generalizada, entendemos que esse tipo de projeto estará associado a clubes com grande capacidade de atrair torcedores, identidade global e uma comunidade ativa capaz de sustentar esses níveis de escala e operação a longo prazo. Na América do Sul, o River Plate ocupa atualmente essa posição isoladamente — afirmou Taratuty.

Justamente por isso, o estádio contribui para a expansão da marca global do River Plate. Vídeos do Mâs Monumental lotado viralizam com frequência, e a tendência é que isso aconteça ainda mais após a nova ampliação. O objetivo do clube é preservar a identidade cultural e paixão argentina, mas também ser visto como símbolo de modernidade.

— O River Plate almeja projetar a imagem de uma instituição moderna e sólida, preparada para competir no mais alto nível internacional, sem perder a identidade que historicamente o distingue. O Estádio Monumental é hoje a expressão mais visível dessa visão institucional: um estádio de classe mundial, porém profundamente conectado à cultura, à paixão e ao senso de pertencimento de seus sócios e torcedores. Acreditamos que também é possível, na Argentina, desenvolver infraestrutura de alto nível com padrões internacionais de conforto, segurança e serviços, mantendo a essência e a tradição de um clube com enorme apoio popular — afirmou Villarroel.

Ao se colocar no topo dos maiores públicos mundiais e arriscar expansão tão ousada, o clube argentino quer mostrar que não deve nada aos gigantes do resto do planeta.

— Mais do que um fim em si mesmo, entendemos o Estádio Monumental como uma ferramenta estratégica para continuar fortalecendo o crescimento esportivo, social e econômico do clube e para posicionar ainda mais o River Plate entre as instituições mais importantes do futebol mundial — concluiu o vice-presidente.

Confira abaixo vídeo viral da torcida do River Plate:

Mesmo gigante, sem espaço para visitantes

As imagens do Monumental de Núñez sempre pulsante encantam. E a totalidade dos 85 mil presentes em cada jogo, ou muito perto disso, apoia o clube da casa. Provavelmente, assim também serão os 100 mil daqui a três anos. Isso porque, desde 2013, a Argentina proíbe a entrada de torcedores visitantes em qualquer estádio por motivos de segurança. Apenas torcedores de clubes estrangeiros em competições internacionais, como a Libertadores e a Sul-Americana, são permitidos. A beleza das arenas lotadas contrasta com a impossibilidade de convívio entre rivais no país.

Para Walter Vargas, a expansão promovida pelo River Plate não deve alterar este cenário. Mesmo com mais de 100 mil lugares, o clube continuará reservando quase todos os ingressos para os seus sócios-torcedores.

— É uma batalha que já estava perdida, mas que o River, de alguma forma, terminou de consolidar, aumentando a capacidade apenas para seus seguidores. O lado obscuro do futebol argentino é o fechamento de portas aos visitantes, uma derrota dura para o que ele representa. Já estamos resignados, os torcedores também. E essas remodelações vão nesse sentido. Nem o River Plate, como instituição, nem os sócios se preocupam com os visitantes — opinou.

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Barcelona: preservação do gigantismo

O Barcelona iniciou as obras do Spotify Camp Nou em maio de 2023. Inicialmente, adotou como lar temporário o Estádio Olímpico Lluís Companys. No entanto, voltou a atuar em sua casa no último dia 23 de novembro, com capacidade provisória de 60 mil lugares. Até 2027, a ampliação garantirá pelo menos 105 mil assentos, superando os 99 mil disponíveis antes do início da reforma.

Diferentemente do Monumental de Núñez, o Camp Nou já é historicamente um estádio gigante. Inicialmente construído para 93 mil espectadores, passou a alocar 120 mil pessoas na Copa do Mundo de 1982. A capacidade foi reduzida para se adequar às novas regras da Fifa ao longo dos anos 1990. Agora, voltará a ultrapassar a marca centenária.

O estádio catalão já era o maior da Europa. Segundo o jornalista catalão German Bona, do "Sport", o objetivo do Barça vai muito além de meramente aumentar o número de lugares. A expansão almeja renovar e modernizar uma arena construída em 1957, que apresentava problemas estruturais. A outra motivação é a construção de um anel inteiro de assentos VIP, com alto potencial lucrativo.

Confira abaixo vídeo de celebração do Barcelona pelo retorno ao Camp Nou:

Sócios garantem Camp Nou lotado

Assim como o River Plate, o Barcelona é sucesso de público muito graças ao programa de sócios-torcedores. Por mais que tenha menos inscritos que o clube argentino, 150 mil, mais da metade deles (83.500) têm direito a cadeira fixa no Camp Nou. Dessa forma, o gigante espanhol teve a melhor média de público do mundo antes da reforma atual do estádio, em 2023.

Maiores médias de público do mundo em 2022/23, segundo o Transfermarkt:

  • Barcelona: 81.890 torcedores
  • Borussia Dortmund: 78.766 torcedores
  • Bayern de Munique: 75.004 torcedores
  • Manchester United: 74.583 torcedores
  • Milan: 70.003 torcedores

O cartão padrão dos sócios custa atualmente 225 euros por ano (cerca de R$ 1.320). Para obter a assinatura que garante lugar marcado no Camp Nou, é necessário o pagamento de uma taxa extra que varia de acordo com a localização no estádio: de 300 euros (R$ 1.760 a arquibancada do gol) a 700 euros (R$ 4.105 a arquibancada principal) por temporada. Outra mudança promovida pelo Barça é a reinstauração da iniciativa Seient Lliure, muito similar ao que o River Plate faz com "Tu Lugar en el Monumental". Os detentores de assentos que não puderem comparecer a um jogo disponibilizam o ingresso para venda em troca de uma porcentagem.

Diante da capacidade máxima futura do estádio, ainda restarão 20 mil assentos, número que contempla também o espaço da torcida visitante. Mas a mina de ouro do Barcelona são os cerca de 9 mil lugares VIP a serem comercializados, cujos preços variam de 5.500 a 9.000 euros por temporada, embora alguns camarotes exclusivos possam chegar a custar 22.000 euros. A expectativa do clube é faturar 350 milhões de euros (R$ 2 bilhões) anualmente apenas com venda de ingressos.

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Imagem do projeto do novo Camp Nou: estádio terá 105 mil lugares (Foto: Divulgação / Barcelona)

Projeto integrado Espai Barça

Outra vez de forma similar ao River Plate, o Barcelona sente a necessidade de tornar o Camp Nou mais lucrativo também nos dias sem jogos. Para isso, investirá nos arredores do estádio. A reforma integra um projeto mais geral chamado Espai Barça, que revitalizará o bairro central de Les Corts e prevê a construção do novo Palau Blaugrana, uma arena para prática de diversas outras modalidades.

A ideia do plano nasceu em 2007, durante o mandato do presidente Joan Laporta. Após vencer as eleições em 2021, o dirigente retomou o projeto, encomendado à construtora turca Limak. A estimativa inicial de custo de 960 milhões de euros (R$ 5,6 bilhões) deve ser superada em 200 a 300 milhões. Para executá-lo, o Barça contraiu um empréstimo do banco Goldman Sachs.

Dono de um estádio gigante desde a sua fundação, o Barcelona não deve influenciar um movimento global de expansões com a nova reforma. Por outro lado, pode ser exemplo de aproveitamento do potencial lucrativo e turístico de uma arena de futebol.

— O Camp Nou já era um estádio gigantesco e ditou uma tendência no seu momento — assim como o Maracanã, é claro! Acho que a tendência que ele tenta estabelecer agora é a de um estádio aberto, muito mediterrâneo, com uma área em balanço (onde os torcedores irão mesmo quando não houver jogos) para comer, realizar diversas atividades e desfrutar das vistas privilegiadas da cidade. E também a tendência de integrar o estádio com seus arredores, com um retorno maior para a cidade e, especialmente, para o bairro de Les Corts — afirmou German Bona.

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