Clubes tentam tirar poderes de investidor da FFU, e já miram o Cade
Reunião aprova encaminhamento de proposta de alteração de convenção, que deve seguir também para tribunal administrativo

Clubes da liga Futebol Forte União (FFU) novamente se reuniram na manhã desta quarta-feira (19) sem os investidores — como aconteceu no início de julho, na sede da Federação Paulista de Futebol (FPF). Desta vez, a reunião foi virtual. Foi aprovado em ata o encaminhamento ao investidor Sports Media Entertainment (SME) de uma proposta de mudanças da convenção do Condomínio Forte União (CFU) — estrutura criada para gerir o contrato comercial do bloco —, que inclui redução de poderes para o investidor, bem como mudanças nas cláusulas de extinção, passando a prever o fim do condomínio se for criada uma liga unificada sob chancela da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a possibilidade de recompra dos ativos já negociados.
O Lance! ouviu participantes da reunião e obteve os documentos que entraram na pauta. A leitura é de que os clubes estão cientes de que as mudanças propostas para o estatuto não vão agradar ao investidor, e há uma expectativa, senão uma certeza, de que não haverá aprovação do outro lado.
Portanto, a estratégia é encaminhar a proposta também ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para provocar o órgão a deliberar sobre o tema. Uma ação no Cade impetrada pelo CSA já deu motivo a uma sentença obrigando a SME a não criar obstáculos para a saída de membros. O clube alega cláusulas abusivas de fidelização e o processo está em andamento. Consultada, a SME emitiu nota informando que se dispõe a negociar "desde que sejam preservados os direitos econômicos e societários estabelecidos nos acordos e a integridade do modelo construído conjuntamente" (leia a íntegra da nota no fim do texto).
A reunião desta quarta-feira é mais um capítulo da disputa política que envolve clubes da FFU, insatisfeitos com cláusulas do contrato, a SME, investidora, e a CBF, interessada em criar uma liga única.

A proposta de mudanças no estatuto inclui também a transferência para os clubes do poder de indicar a administradora do condomínio. Recentemente, três clubes (Atlético-GO, Cuiabá e Operário) enviaram notificações extrajudiciais ao CFU indicando abertura de procedimento de troca da administradora por favorecimento ao investidor. O Cuiabá, em sua notificação, afirma que o atual administrador, Gabriel Lima, foi indicado pela SME, que em nota afirmou que responderia nas instâncias competentes. Além da troca de competência para mudança de administradora, a proposta para o estatuto também transfere para os clubes o monitoramento das atividades da empresa escolhida.
A alteração na cláusula 6.1, que versa sobre a questão, a deixaria desta forma: "6.1. Administradora. O Condomínio será administrado por empresa especializada, que será indicada pelos Clubes e contratada pelo Condomínio, assegurada ao Investidor manifestação prévia, de caráter não vinculante, sobre a indicação (a "Administradora"). A equipe da Administradora responsável perante o Condomínio pelos atos de gestão na forma desta Convenção é referida neste instrumento como a "Administração."

Outra alteração de grande impacto na proposta está na cláusula 16.1, que trata de causas para extinção do condomínio. Ela passa a prever a dissolução do bloco no caso da criação de uma liga única e a recompra dos direitos negociados. A proposta de nova redação da cláusula que seguirá para o investidor é esta:
"16.1. Causas de Extinção. O Condomínio se extinguirá nas seguintes hipóteses:
(i) por meio de deliberação tomada, por unanimidade, em Assembleia Geral;
(ii) no caso de consolidação da parte ideal do Investidor nos Clubes, mediante exercício da Opção de Compra;
(iii) no caso de resolução ou extinção do Contrato de Investimento e do Contrato Clubes União, conjuntamente, por qualquer motivo;
ou (iv) fim do prazo de vigência do Condomínio. ;
ou (v) formação efetiva de liga unificada de clubes do futebol brasileiro, por meio da LFU ou de outra forma, hipótese em que cessará a indivisão convencionada na Cláusula 2.4 e operar-se-á a divisão da coisa comum, na forma da Cláusula 16.2."
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Também estão na mesa mudanças como a diminuição do número de cadeiras do investidor no comitê condominial e quórum reduzido, que permite deliberação de matérias também sem a presença da Sports Media Entertainment (SME), que fez o principal aporte financeiro do acordo.
A síntese de proposta de alteração descrita no documento explica que a mudança "suprime a exigência de que a maioria de 5 dos 7 membros do Comitê Condominial, na recomendação prévia de penalidades ao Investidor, inclua o voto afirmativo de ao menos 1 membro por ele indicado. Mantém-se o quórum de 5 dos 7 membros para a recomendação e a maioria absoluta das partes ideais para a deliberação em Assembleia". Em outra alteração sobre quórum, está descrito que a proposta "reduz de 90% para 75% das partes ideais o quórum qualificado de aprovação das matérias".
Aporte para Série B em discussão na FFU
Outra questão em pauta ficou para debate posterior: um "memorando de entendimentos" sobre um aporte de R$ 45 milhões que a SME propõe fazer por conta de reclamações dos clubes da Série B em relação ao acerto de Náutico e São Bernardo em fevereiro deste ano com a Globo, por meio de intermediação da CBF, de R$ 15 milhões. Os membros da divisão na FFU apuraram que só receberiam R$ 12,5 milhões e pediram a cobertura do valor. Foi feito então um memorando para aporte de R$ 45 milhões a serem divididos pelos 18 membros que estão na Série B, o que dá o valor de R$ 2,5 milhões para cada.
Mas esse tema foi deixado para deliberação em nova reunião, possivelmente na próxima semana, e não foi aprovado de imediato. Isso porque há diversas contrapartidas. Para ceder o valor, a empresa pede a negociação conjunta de propriedades comerciais não previstas no contrato inicial, e que a questão deve ser conduzida pela estrutura do CFU. A discussão, no momento, é sobre quais propriedades serão cedidas para este fim.
A exploração dessas novas propriedades aconteceria somente por um período até que o montante total fosse recomposto sem juros. Até agora, sete de 12 parcelas foram pagas. Esse acordo para aporte extra também foi firmado em fevereiro, quando também foi aceita pelos clubes a negociação de uma maneira de o investidor reaver os valores.
Diz o memorando: "A Sports Media está disposta a oferecer, excepcionalmente com relação à temporada de 2026 da Série B, a verba adicional requerida pelos Clubes, sujeito aos Clubes concordarem com a negociação conjunta de certas propriedades comerciais relacionadas à sua participação na Série B, que não são objeto do CFU e que não são atualmente comercializadas ("Propriedades Adicionais Série B"), de forma a permitir que as receitas que eventualmente possam ser originadas exclusivamente com a negociação conjunta destas propriedades viabilizem a recuperação pela Sports Media, ao longo do tempo, da verba adicional por ela concedida".
As propriedades adicionais a serem incluídas neste acordo estão listadas em anexo do documento, e são as seguintes:
- Espaço para publicidade em uniforme de jogo (na parte superior das costas ou espaço frontal entre escudo do clube e fornecedor de material). Se já houver acordo com outras marcas, há opção de "outra combinação" não especificada.
- Publicidade em placas de LED nos jogos.
- 50 ingressos por partida da melhor categoria disponível para público geral.
- 10 ingressos por partida em camarote ou área VIP.
- Exposição em 30% do backdrop de entrevistas.
- Ao menos um post em redes sociais por rodada.
- 10 ações de experiência a serem definidas.
Até a publicação desta reportagem, a SME não respondeu sobre a discussão a respeito dos aportes extras e as contrapartidas em negociação com os clubes da Série B. O espaço permanece aberto para atualização.
Confira a íntegra da nota da empresa sobre a proposta de mudanças na convenção:
"A Sports Media Entertainment mantém plena disposição para dialogar com os clubes sobre os aperfeiçoamentos que considerem importantes para o funcionamento do condomínio. Trata-se de uma relação entre sócios, na qual ajustes, flexibilizações e novos entendimentos podem ser construídos sempre que contribuam para o fortalecimento da estrutura e preservem os compromissos assumidos por todas as partes.
A companhia avaliará de forma construtiva propostas que tragam maior equilíbrio à governança, eficiência ao funcionamento do condomínio e segurança para clubes e investidores. Há espaço para soluções negociadas, desde que sejam preservados os direitos econômicos e societários estabelecidos nos acordos e a integridade do modelo construído conjuntamente.
A Sports Media Entertainment acredita que o diálogo entre os sócios é o caminho adequado para acomodar interesses, aperfeiçoar a relação e assegurar a continuidade de uma parceria concebida para o desenvolvimento de longo prazo do futebol brasileiro".
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