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Presidente de Comitê de Integridade da FPF vê 'momento de atenção redobrada' após MP

Em entrevista ao Lance!, Paulo Schmitt analisa: 'Ambiente de risco muda e pode exigir mais inteligência'

PorVicente Seda•Rio de Janeiro (RJ)
02/10/2026 06:00

A MP que proibiu a operação das casas de apostas o Brasil, divulgada na semana passada, trouxe impactos não somente financeiros para clubes e entidades que possuem contratos vigentes com esse mercado, mas também questões sobre a segurança das competições. Para esclarecer esse cenário, o Lance! conversou com Paulo Schmitt, presidente do Comitê de Integridade da Federação Paulista de Futebol (FPF).

A entidade foi primeira no Brasil a contratar monitorar jogos, antes mesmo da liberação das bets em 2018, e muito antes de qualquer regulamentação estabelecendo regras para esse mercado. Para Schmitt, o cenário agora requer "atenção redobrada", uma vez que haverá novos desafios operacionais.

No entanto, ele reforça que "a integridade não depende das bets, mas a forma de monitorar determinados riscos pode mudar quando o mercado muda. Em uma frase: a integridade não nasceu com as bets e não pode morrer com elas".

— A manipulação de competições existia antes da regulamentação das bets e continuará sendo um risco independentemente do modelo jurídico das apostas. O ponto de atenção agora é outro. O ambiente de risco muda e pode exigir mais inteligência, mais cooperação e mais capacidade investigativa.

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Paulo Schmitt, presidente do Comitê de Integridade da FPF (Foto: Divulgação/FPF)
Paulo Schmitt, presidente do Comitê de Integridade da FPF (Foto: Divulgação/FPF)

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O presidente do comitê mostrou um levantamento da FPF dizendo que os 18 casos que geraram alerta em São Paulo neste ano se concentraram no primeiro trimestre. São "casos suspeitos, não condenações ou manipulações comprovadas". De abril para cá, nenhum caso relevante foi registrado. E somente dois deles, ocorridos em janeiro, estão nos níveis mais altos de gravidade.

— É um dado positivo, mas que precisa ser lido corretamente: ausência de caso relevante registrado não significa ausência absoluta de risco. A função de um programa de integridade é manter vigilância mesmo quando os alertas diminuem.

Gráfico utiizado em apresentação institucional da FPF mostra série histórica de casos suspeitos de manipulação (Reprodução)
Gráfico utiizado em apresentação institucional da FPF mostra série histórica de casos suspeitos de manipulação (Reprodução)

Confira a íntegra da entrevista do presidente do Comitê de Integridade da FPF, Paulo Schmitt:

Lance! — A FPF foi a primeira entidade no Brasil a contratar monitoramento para os seus jogos, há mais de 10 anos, antes mesmo da liberação das bets. Como ocorria o monitoramento naquela época e o que mudou de lá para cá?

Paulo Schmitt: A FPF começou a estruturar esse trabalho em 2015, muito antes da atual expansão e regulamentação do mercado de apostas no Brasil. Isso é importante porque demonstra que a preocupação com a integridade das competições nunca nasceu das bets. Naquela época, o monitoramento já buscava identificar padrões anormais de apostas, variações incomuns e outros sinais que pudessem justificar uma análise mais aprofundada. Com o passar dos anos, houve uma evolução muito grande da tecnologia, da quantidade de dados disponíveis e da própria capacidade analítica das empresas especializadas. Hoje existem ferramentas mais sofisticadas de monitoramento em tempo real, análise de mercado, cruzamento com informações esportivas, inteligência e suporte a investigações.

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Mas talvez a principal evolução tenha sido conceitual. Na FPF, integridade nunca ficou limitada ao monitoramento de apostas. Há um programa educacional amplo. Além disso, mantemos relação de cooperação com autoridades policiais e judiciárias, com a Justiça Desportiva, com representantes dos atletas e outros atores do sistema esportivo. Portanto, o que mudou de lá para cá não foi apenas a tecnologia. Mudou a maturidade do próprio programa.

Lance!: Como presidente do Comitê de Integridade da FPF, qual a maior dificuldade que encontra hoje em relação à vigilância dos campeonatos?

— Eu responderia essa pergunta em duas dimensões: como presidente do Comitê de Integridade da FPF e também como especialista que trabalha há muitos anos com integridade esportiva em diferentes modalidades. O maior desafio é transformar informação em capacidade efetiva de resposta. Um alerta de monitoramento é importante, mas não resolve sozinho. É preciso interpretar esse alerta, cruzar dados, preservar informações, analisar o contexto, eventualmente ouvir pessoas, encaminhar corretamente o caso e garantir independência e método durante todo o processo. Outro desafio é a escala. O esporte tem muitas competições, muitas categorias, diferentes níveis de profissionalização e estruturas econômicas muito distintas. Isso exige combinar tecnologia, educação, inteligência e cooperação institucional.

Integridade não funciona apenas por software ou regulamento. Os dados internos mais recentes disponíveis, atualizados até setembro de 2026, reforçam a necessidade de leitura técnica e cautelosa. Entre janeiro e março foram classificados 18 casos: 8 de Nível 1, 8 de Nível 2, 1 de Nível 3 e 1 de Nível 4. De abril a setembro, não há registro de casos relevantes adicionais no material atualizado. É um dado positivo, mas que não autoriza relaxamento: ausência de caso relevante registrado não significa risco zero nem inexistência absoluta de alertas. O sistema precisa permanecer ativo justamente para perceber mudanças de padrão e responder quando necessário.

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Gráfico da FPF mostra classificação de casos suspeitos  em São Paulo neste ano (Reprodução)
Gráfico da FPF mostra classificação de casos suspeitos em São Paulo neste ano (Reprodução)

Lance!: A proibição imediata das bets a partir de uma Medida Provisória traz algum risco extra para a integridade dos campeonatos?

— Pode trazer novos desafios operacionais, principalmente durante a transição. A manipulação de competições existia antes da regulamentação das bets e continuará sendo um risco independentemente do modelo jurídico das apostas. A FPF é um exemplo concreto disso: o trabalho estruturado de integridade e monitoramento começou em 2015, antes do atual mercado regulado. O ponto de atenção agora é outro. Em um mercado regulado existem operadores identificados, registros de apostas, dados, fluxos financeiros e interlocutores formalmente sujeitos a obrigações.

Essas informações podem ajudar a detectar anomalias e apoiar investigações. Se parte da atividade migrar para operadores clandestinos, ambientes offshore ou estruturas menos transparentes, a visibilidade sobre determinados movimentos pode diminuir. Isso não significa afirmar que a proibição necessariamente aumentará a manipulação. Significa que o ambiente de risco muda e pode exigir mais inteligência, mais cooperação e mais capacidade investigativa. Por isso, este é um momento de atenção redobrada. O mercado pode mudar.

Lance!: O Ministério da Justiça e da Segurança Pública afirmou que a integridade dos campeonatos não depende do mercado de apostas e que a proibição não afeta a vigilância em relação a crimes, incluindo a manipulação. O senhor concorda?

— Concordo com a premissa central. A integridade dos campeonatos não pode depender da existência de um mercado de apostas. Toda a minha experiência nesse campo aponta nessa direção. Na FPF, o programa de integridade foi estruturado antes do atual mercado regulado de bets. No Comitê Olímpico do Brasil, onde atuei na área de integridade e prevenção à manipulação, também participei da construção de políticas, códigos e ações educativas voltadas às mais diferentes modalidades esportivas. Fui o ponto focal de contato do COI no Brasil nessa área por aproximadamente três anos e participei da formulação da política e do código original de prevenção e combate à manipulação de competições do COB.

Portanto, a obrigação de proteger a competição existe independentemente da existência de bets. Minha ressalva é técnica: uma coisa é a obrigação de vigiar; outra é a disponibilidade de informação para essa vigilância. Mercados regulados produzem registros, dados e interlocutores formais. Em ambientes ilegais, essas informações podem ser mais difíceis de obter. Então eu diria que a integridade não depende das bets, mas a forma de monitorar determinados riscos pode mudar quando o mercado muda. Em uma frase: a integridade não nasceu com as bets e não pode morrer com elas.

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Lance! : Foi notado nos dias seguintes à divulgação da MP um crescimento de sites ilegais. O MJSP afirmou que o dado já era esperado e que derrubou milhares deles. Se os operadores não forem presos, novos sites podem ser abertos em seguida. Qual a sua leitura sobre esse cenário?

— Eu evitaria caracterizar esse trabalho como 'enxugar gelo', porque o bloqueio de sites é necessário e faz parte da resposta estatal. Mas ele não pode ser o único instrumento. O combate a operações ilegais na internet é naturalmente dinâmico. Um domínio pode ser bloqueado e outro pode surgir. Por isso, o enfrentamento precisa ir além da interface visível. É necessário atingir fluxos financeiros, meios de pagamento, responsáveis pelas operações, estruturas empresariais, redes de publicidade e eventuais conexões internacionais.

No campo da integridade esportiva, isso aumenta a importância de inteligência, compartilhamento de informações e cooperação internacional. Quanto mais fragmentado e clandestino for o mercado, mais importante se torna combinar monitoramento, inteligência financeira, fontes abertas, denúncias e atuação coordenada com autoridades.

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Reunião do Comitê de Integridade da FPF (Foto: Divulgação/FPF)
Reunião do Comitê de Integridade da FPF (Foto: Divulgação/FPF)

Lance!: No momento da liberação das bets, não houve restrição ou regulamentação adequada por vários anos. Também há relatos sobre tentativas de infiltração de organizações criminosas no ecossistema das apostas. Como essas questões deveriam ter sido conduzidas para que não chegássemos ao cenário atual?

— Eu não considero adequado reduzir um processo regulatório tão complexo a uma única causa ou a um único erro. Também prefiro não assumir como comprovadas premissas específicas sobre infiltração criminosa sem análise dos respectivos elementos e investigações. O aprendizado técnico que fica é mais importante. Mercados de alto risco exigem, desde o início, uma combinação de autorização rigorosa, identificação de controladores, prevenção à lavagem de dinheiro, proteção de públicos vulneráveis, regras de publicidade, mecanismos de autoexclusão, monitoramento e efetiva capacidade de fiscalização e sanção.

Regular não pode significar simplesmente permitir que um mercado funcione. Regular significa autorizar, fiscalizar, limitar, monitorar, proteger e sancionar. Também é essencial impedir que estruturas criminosas utilizem operadores, meios de pagamento ou plataformas como instrumento para lavagem, fraude ou outros ilícitos. Prefiro tratar isso como aprendizado institucional e regulatório, e não como uma disputa de atribuição de responsabilidades políticas.

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Lance!: Havia um ecossistema de troca de informações entre as operadoras legalizadas, autoridades e governo. O quanto a eliminação dessa comunicação atrapalha a vigilância em relação à manipulação de resultados?

— Pode representar uma perda relevante caso não existam mecanismos substitutivos. Quando existe um operador regulado, existe também um interlocutor formal, sujeito a obrigações legais e capaz de fornecer informações ou cooperar com autoridades. Isso pode ajudar na identificação de padrões suspeitos, movimentações atípicas e outros sinais de risco. Em um mercado clandestino, essa cooperação tende a ser mais difícil. Por isso, se esses canais de informação diminuírem, o sistema de integridade precisa compensar com outras ferramentas: monitoramento independente, inteligência esportiva, inteligência financeira, OSINT (plataforma que reúne ferramentas de inteligência de fontes abertas), canais de denúncia e cooperação internacional.

Esse é também um dos aprendizados que tive no COB. A proteção de diferentes modalidades nunca poderia depender de um único fornecedor ou de uma única fonte de informação. Era necessário trabalhar com educação, política institucional, canais de denúncia, cooperação com o COI, autoridades públicas e mecanismos de inteligência.

Lance!: Há muitas ameaças a campeonatos de base, no Brasil e no exterior. Como é a segurança dessas competições na FPF e no país?

— A base é uma das áreas em que educação e prevenção se tornam ainda mais importantes. Na FPF, falamos de integridade também nas categorias de base, inclusive em competições nas quais, em tese, não existe mercado relevante de apostas. E isso é proposital. A integridade não pode começar quando o atleta chega ao profissional ou quando surge um mercado de apostas sobre determinada competição. Ela precisa começar antes. Temos espaço para integridade nos Conselhos Técnicos, produzimos manuais e materiais educativos e trabalhamos com orientações dirigidas a atletas, dirigentes, treinadores e clubes. A mensagem é simples: não manipule, não aposte, não compartilhe informação sensível, não aceite abordagem suspeita e denuncie. Na base, também é importante envolver famílias e pessoas do entorno do atleta. A melhor prevenção começa antes que exista a oportunidade de manipular.

Lance!: E nos demais esportes? É possível dizer hoje que há um monitoramento adequado pelo menos para os esportes olímpicos?

— Não considero possível afirmar que exista uma cobertura adequada e uniforme para todas as modalidades. Esse é um dos maiores desafios da integridade esportiva. Algumas modalidades e grandes competições possuem estruturas mais sofisticadas de monitoramento, inteligência e cooperação internacional. Outras possuem orçamento muito menor. Eu vivi essa dificuldade diretamente no Comitê Olímpico do Brasil. Atuei por aproximadamente três anos como ponto focal do COI no Brasil na área de prevenção à manipulação, participei da estruturação da política e do Código de Prevenção e Combate à Manipulação de Competições do COB e trabalhei na tentativa de implementar ações em diferentes modalidades. Uma das maiores dificuldades sempre foi exatamente esta: implementar estruturas de integridade em muitas modalidades diferentes, com realidades econômicas muito distintas e pouco investimento disponível. Esse problema permanece atual. Integridade custa.

Mas, muitas vezes, a integridade disputa orçamento diretamente com aquilo que as entidades consideram sua atividade principal: treinamento, viagens, competições, atletas e organização esportiva. Esse é um modelo que precisa amadurecer. Tenho defendido que integridade deve ser tratada como infraestrutura permanente do esporte, com fontes específicas e sustentáveis de financiamento. Não é razoável aumentar continuamente as obrigações de integridade sem discutir as condições materiais para cumpri-las.

Talvez uma das próximas etapas do sistema esportivo brasileiro seja desenvolver estruturas compartilhadas de monitoramento, inteligência e investigação, apoiadas por entidades esportivas, poder público e outros atores institucionais. Porque a integridade não pode ser privilégio apenas das modalidades e competições que conseguem pagar por ela.

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