Lúcio de Castro: a Copa do Mundo do Dirceu Borboleta
Momento político dos Estados Unidos pode influenciar nas próximas competições esportivas

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A última fronteira foi cruzada.
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Na quarta-feira, o FBI promoveu uma busca e apreensão na casa da repórter Hannah Natanson, do Washington Post.
Motivo: investigações sobre o governo Trump.
Por aqui temos falado de tudo o que diz respeito ao futebol. Ou seja: tudo.
Política, autoritarismo, educação, gramados de plástico, SAF, jornalismo sempre, Brasil sempre, América Latina, poderes e poderosos, ídolos, heróis, vilões, bandidos, (mocinhos ainda não por total ausência no cenário), cultura. Ou seja: futebol.
Trump tem sido tema recorrente nessa jornada e nesse bate-papo com o leitor que começou há pouco.
O maior protagonista desse espaço que insiste em contrariar o mandamento da modernidade ao impor textos curtos nos dias atuais.
O protagonismo não é para menos, para quem não entendeu: o mundo do esporte passa por ele nos próximos três anos como o maior personagem.
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Anfitrião da próxima Copa do Mundo e das Olimpíadas. Alguma dúvida?
Não bastasse tudo isso, sequestrou a FIFA, com Gianni Infantino fazendo o movimento de genuflexão a Trump mais impactante que se tem notícia na história contemporânea.
Ao se transformar em uma espécie de Dirceu Borboleta, provavelmente o bajulador mais famoso da história da dramaturgia brasileira por viver de agrados e constrangimentos para Odorico Paraguaçu em "O Bem Amado", Infantino perdeu a autoridade moral para a tarefa de liderar o futebol mundial. Os mais novos obviamente não conhecem, mas vale o YouTube para conhecer esse bajulador contumaz.

Os americanos contam com a espetacular expressão "bow and scrap", ou seja, "curvar-se e rastejar" para definir o que tem sido a relação entre o presidente da FIFA e Trump. Por aqui fomos melhores ainda, com o mais do que consagrado "puxa-saco". E no popular, já esbarrando na grosseria com os dois pés, "baba-ovo".
Como tratamos em outras colunas, é nesse cenário que vai chegar a Copa do Mundo. Os estafermos do ICE cometendo toda sorte de abusos pelas ruas, como será isso durante o mundial? Respeitarão turistas, imprensa?
Um debate que já deveria estar posto por aqui com muito mais intensidade.
Em boa parte do mundo, está. A coisa mais impactante que vi nos últimos congressos de jornalismo internacionais em que estive foi a mudança total de foco. Reuniões monotemáticas: só se falava, profeticamente, da ameaça do mundo sob Trump e dos grandes eventos sob o comando dele. Tragicamente, aqui não é a pauta maior do esporte.
A invasão a casa de uma jornalista que investiga o presidente, funcionária de um jornal imenso, muda todo o patamar e impõe nova urgência sobre tudo isso.
Governos americanos têm sido barbaramente ofensivos com a liberdade de expressão ao longo dos anos com quem o fustiga.
Nixon tentou impedir na marra a publicação dos "Papeis do Pentágono" pelo New York Times. Sem sucesso, botou o FBI para invadir a casa da fonte. Um aviso aterrorizante como recado para quem quisesse vazar documentos. Para mostrar que democratas e republicanos acossam adversários e pretendem deixar a informação sob controle, Obama perseguiu Julian Assange
implacavelmente. E agora Trump ultrapassa todos os limites e invade a casa de uma jornalista com seus gendarmes levando computadores e escritos.
No Brasil, o assédio judicial é a maior fonte de pressão sobre jornalistas. Em geral, o poder econômico busca oprimir quem se dedica à tarefa básica do ofício: fiscalizar poderes e poderosos.
Mas existe uma outra forma, silenciosa e por isso mais brutal: o conflito permanente entre detentores dos direitos de transmissão dos meios de comunicação e o jornalismo. É isso o que explica a vergonhosa atuação da nossa imprensa, salvo exceções, nas apurações sobre o esporte e sua cartolagem. A omissão permanente do jornalismo que não se mobilizou sequer na década de grandes eventos e seus escândalos. Voltaremos a isso.
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É assustador imaginar que em poucos meses, milhares de jornalistas estarão sob o teto desse contexto. Mais assustador é imaginar que o maior evento esportivo do mundo será comandado e com as grandes decisões sendo tomadas por Dirceu Borboleta. E ao seu lado, na tribuna, estará seu senhorio, o Odorico Paraguaçu laranja.
Tributação do Associativo
A coluna estava parida quando chegou a notícia do veto do presidente Lula aos pontos da reforma tributária que, como consequência, farão clubes associativos pagarem tributos de cerca de 11% de suas receitas brutas, enquanto uma SAF fica com módicos 6%.
Já tratamos aqui sobre como a Lei das SAFs foi permissiva e possibilitou que aventureiros se joguem aqui comprando pedaços de nossa história em forma de clube. Falamos amplamente sobre a possibilidade de lavagem de dinheiro, do crime organizado e afins meterem-se com gosto no futebol, com o presente que Paulo Guedes deu a eles em forma de frouxidão da lei. É nesse contexto que os associativos serão taxados mais do que SAFs. Há algo mais grave na resolução: a história do futebol brasileiro é a história da
formação dos clubes associativos. A resolução pune nossa história e escancara as portas para os aventureiros.
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