Lúcio de Castro: os segredos de Textor e a era da estupidez
Botafogo, comprado pelo empresário, está sob transferban

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Até a edição desta coluna, o Botafogo está em "transferban".
A ressalva temporal do "até a presente edição" é necessária porque transferbans se resolvem.
Vende um aqui, outro ali e a roda volta a girar.
O estrago maior é na credibilidade.
O buraco é muito mais embaixo.
Porque a notícia do último dia de 2025 pegou de surpresa quem quis.
O ingênuo, o torcedor de cartola ou aquele tipo de influencer que prolifera nos dias de hoje. O que bate o tambor da mentira e do sensacionalismo porque sabe que o mundo tá cheio de trouxa e assim monetiza com eles.
O mais impressionante nessa história é mesmo entender esse mundo em que alguns líderes arrebanham fanáticos em torno dele incondicionalmente. Mesmo que suas histórias de vida gritem o contrário.
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O papel da imprensa no 'caso Textor'
Em agosto de 2024, publiquei no site do ICL uma série de quatro reportagens com o título de "O Segredo de Textor".
Feitas a partir de uma obrigação do ofício de repórter, provavelmente a maior razão de ser desta profissão: estar vigilante a qualquer tipo de poder ou poderosos.
Em palestras por aqui ou mundo afora, costumo resumir o que penso sobre a profissão em poucas palavras: "jornalismo é dar com o pé na porta onde alguém esconde algo atrás". E pronto.
Giannina Segnini, camisa 10 e capitã em qualquer time de jornalismo que eu escale, mestra, costuma dizer que "o jornalismo que praticamos deve ser um jornalismo incômodo".
Tudo isso é exatamente o contrário do que o jornalismo tem feito desde a chegada das SAFs no Brasil. E, em particular, da entrada em cena de John Textor.
Vergonha talvez seja pouco para definir o que aconteceu na imprensa daqui desde que o americano comprou o Botafogo.
Uma sucessão inacreditável de manchetes laudatórias, confetes e um dos piores pecados: acreditar e reproduzir tudo sem qualquer questionamento. Tanto a cobertura sobre as SAFs como sobre Textor ainda serão um "case" nas faculdades de jornalismo em breve futuro. Pelo escândalo. Pelo vexame.
Em choque como tudo isso acontecia, ali por meados de 2024 resolvi entender melhor o personagem. Nada, rigorosamente nada nesse sentido tinha sido feito por aqui em nossos folhetins.
Um sujeito chega aqui, compra um dos mais importantes e históricos times de futebol do mundo, fala que tudo aqui é manipulado, e ninguém tem a curiosidade de saber melhor quem é. Tragicamente, parece que nem o próprio clube fez o dever de casa ao ser vendido.

Nem mesmo quando Textor contou uma história torta em pleno Congresso, desmoralizando e humilhando deputados com algo que não procedia, ninguém na nossa imprensa procurou saber se o que falava era verdade. E ele disse isso:
"Muitas pessoas não sabem o que produziu a riqueza para que eu pudesse comprar a empresa e estar aqui hoje. É que eu fui o fundador de uma empresa de Inteligência Artificial e, com esse dinheiro, pude comprar um time".
Na lata dos deputados, depois de um juramento de falar a verdade.
Hoje sabemos que não é assim, que não foi com esse dinheiro que comprou um time. O Botafogo. E outros pelo mundo.
Checar isso requer algum tempo e trabalho, não é da noite para o dia. Ainda que algum completo descerebrado acredite que uma série assim se faz da noite de um domingo para a manhã de segunda em função do resultado de um jogo.
Um mergulho em documentos públicos sobre produzidos em mais de duas décadas. Em tribunais americanos, nos processos da Comissão de Valores Mobiliários, no histórico de falências, em instituições da burocracia da Flórida, nas denúncias por ser o mentor de pirâmides financeiras. E conversando com muita gente que passou pela vida dele.
O resultado depois de alguns meses era assustador.
Não irei detalhar novamente, está tudo lá. O mais incrível: não há nada que esteja acontecendo agora que não tenha um caso rigorosamente similar no histórico do empresário. Quem quiser, se não leu, saberá achar.
Empréstimos de US$ 100 milhões em dinheiro público sem volta, falências, acusações de desvio de verba, pirâmides, fraudes. Tinha de tudo.
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'Os Segredos de Textor'
Ontem, primeiro dia do ano, o L'Équipe francês publicou reportagem de duas páginas mostrando como Textor maquiou os balanços financeiros de sua rede. Novamente, nenhuma novidade.
Além de tudo citado acima, a série "Os Segredos de Textor" mostra como o americano fazia com os balanços financeiros de suas empresas. Era simples: chamava um dublê de cantor e auditor, o Singer Lewak, e ele dava um jeito nos números. Até o dia em que deu ruim.
Poucas coisas são tão eficazes em uma investigação como a análise de padrão de comportamentos anteriores. Dos padrões de atuação e operacionais. O tal modus operandi. Cada ser humano é, em essência, o resumo deles ao longo de uma vida.
Conhecer o passado para entender o presente, diz a máxima da historiografia. E o futuro. Era tudo tão óbvio. Isso tudo já foi dito.
Textor já nem é o ponto de minha reflexão, apenas um ponto de partida. Para tentar entender como chegamos até aqui.
Uma penosa reflexão sobre tudo isso. Desde o macro: como se deu isso tudo no campo político que permitiu regras tão frouxas para as SAFs por aqui? Como pode ser o futebol brasileiro esse paraíso para tais tipos? Como chegamos e seguimos com o absoluto fracasso de uma imprensa nessa área incapaz de cumprir seu mínimo papel em tantas ocasiões em que deveria ser chamadas a mostrar para que existe.
Apesar de tudo isso, editorial recente de O Globo garantiu que "as SAFs proporcionaram gestões mais profissionais".
Até o micro. Que angústia constatar que as pessoas acreditam em tudo, em messias e profetas dos pés de barro. E que basta uma frase, uma nova promessa, 72 horas, e está tudo bem de novo.
Matt Slater, repórter da The Athletic, a revista de esportes do New York Times, resumiu assim em suas redes a notícia do transferban ao Botafogo: "Puxa! A FIFA impôs ao Botafogo de John Textor uma proibição de transferências de três janelas. Mas lembrem-se: a culpa será de outra pessoa".
O nível de precariedade mental é tão grande que alguns sequer alcançam separar o que um jornalista escreve em suas redes sociais, onde escreve com muito menos rigor, do que em seu material de trabalho e tem livre arbítrio. Assim como não separam o time que ele torce da história desse profissional no ofício, das reportagens que fez ou faz. Dos interesses que atingiu em suas reportagens, que tantas vezes se chocaram com suas paixões afetivas, seja do clube ou na política.
Haverá futuro?
Esse não é um papo sobre uma torcida, um time só e sim geral.
Com imenso respeito e boas resenhas, mas nunca me foi suficiente a história citada por tantos bons amigos botafoguenses que alegam a carência de títulos e tristezas acumuladas para explicar que um título como a Libertadores já compensaria tudo, e essa seria a causa para taparem o olho.
É a negação de uma história maior. De Garrincha, Nilton Santos e tantos outros. De uma camisa. Apropriada por esse que agora começam a entender melhor quem é. E por incrível que pareça, nem todos começam a entender.
Há algo pior: será que é difícil projetar o futuro diante de um tipo assim?
O que será em 5, 6 anos?
Tem aquele tipo limítrofe que acredita que cartolas, ainda mais esses compradores de SAF, se apaixonam por um clube.
Há ainda o tipo pitoresco que não consegue perceber que no fim, só um irá se dar bem. Que não será possível alcançá-lo no exílio dourado das Bahamas à beira da piscina. Seu time já revendido, passado como quem passa laranja na feira.
E há o que mais me incomoda. Esse papo não é sobre Flamengo, Botafogo, Vasco, Palmeiras... E por isso que tenho lido muito sobre, conversado, tentado entender: que tristeza nosso sentimento pelo objeto de paixão, o clube. Como lidamos com isso.
Em lugares como a Argentina, é inadmissível para a imensa maioria dos torcedores que algum sujeito surja do nada e se aproprie do que é desse torcedor, da história, dos mitos, lendas e cores. De sua paixão. E da camisa.
Tudo tão diferente. Mas esse é outro tema, sigamos em outro momento.
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