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Lúcio de Castro: a Fifa e os gramados sintéticos

A questão do gramado sintético não é de hoje... Joseph Blatter que o diga

Grama Sintética da Arena MRV (Foto: Pedro Souza / Atlético) MRV (
imagem cameraGrama Sintética da Arena MRV (Foto: Pedro Souza / Atlético)
Autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, esse texto não reflete necessariamente a opinião do Lance!
Dia 09/01/2026
07:03

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Outubro nos trópicos.

Tinha um sol para cada um em Piura, norte do Peru.

O país era o cenário do Mundial Sub-17 naquele 2005.

O reportariado gringo não parava de se espantar com a exuberância do lugarejo.

De uma paisagem que mistura os primeiros anúncios da Cordilheira dos Andes com o litoral e o deserto que explica o estarrecimento.

Mas nada era mais exótico ali do que o gramado sintético do Estádio Miguel Grau.

Sobrava sol suficiente para florescer uma Amazônia em grama.

Mas Joseph Blatter quis que do heroico solo inca brotasse plástico.

E assim foi.

Cobriu de plástico não somente o campo de Piura como também os demais da competição.

Nada era mais exótico do que um mundial jogado no Peru em pleno outubro com piso artificial.
Mas assim foi.

➡️ Lúcio de Castro: leia todas as colunas no Lance!

Daqueles dias, entre tantas boas lembranças, guardo uma senha que me permite achar ingênuo e quase tolo quando escuto o argumento de "autorizado pela Fifa" ser o golpe final do debate sobre o uso do gramado de plástico.

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O argumento definitivo, a chave que legitima todo e qualquer utilização.

Chegarei a ela. Antes, se me permitem a breve digressão, relato em poucas linhas o que fazia ali naquela competição.

Em uma série de reportagens para o Esporte Espetacular (TV Globo) e que depois virou série no Sportv, passei algum tempo em busca dos caçadores de ouro.

Foi ao ar com o nome de "Os Mercadores de Talento".

Acompanhei uma competição sul-americana sub-15 no Rio Grande do Sul, além desse Mundial no Peru e outros tantos jogos e clubes de formação de base.

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Não só de futebol

Passei um mês no México acompanhando um Mundial Sub-17 de beisebol. Sim, no nosso jornalismo cada vez mais sucateado e de clique, é impensável pensar hoje em tantas viagens para uma reportagem.

Era impressionante a cena dos agentes da Major League Baseball (MLB), a Grande Liga.

Com suas pistolas que medem a velocidade do arremesso, escaneavam meninos de 15 anos como quem fareja diamante.

Testemunhei e reportei o assédio e cobiça.

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Vi in loco o menino cubano Dayan Viciedo ter que andar com seguranças para tirar da mira dos empresários. Diziam que era a maior promessa surgida na modalidade nos últimos anos.

Fui a Nova Jersey, centro da base do New York Yankees, acompanhar a peneira de meninos de terceiro mundo tentando o bilhete da sorte. O drama das centenas de não.

Fui até o Rio Bravo que separa Estados Unidos e México e divide o mundo em dois para mostrar também como era o sonho americano de quem não entrava pelo esporte.

No Peru, entre estádios, campana em hall de hotéis e bastidores, vi cenas que ainda não esqueci.

Europeus, brancos de meia idade cercando o menino Momodou Ceesay, de Gâmbia e prometendo ouro no fim do arco-íris.

Com 17 anos, 1,96m, fez três gols contra o Brasil na estreia e gerou a ensandecida corrida. Era o Brasil que revelou Marcelo para o mundo. E onde brilhava Anderson, herói da Batalha dos Aflitos anos depois. E da CBF com muito mais sorte para ver brotar talentos do que competência. Um dia conto mais.

De um agente entre os tantos que farejavam ouro ali, ouvi sem qualquer disfarce: "um belo animal". Tá gravado, foi ao ar. O horror em tão poucas palavras.

Dali pulou pro Chelsea, mas não é difícil entender porque nunca desabrochou o imenso potencial e seguiu carreira errática.

Essa volta toda pelos bastidores do "jogo bonito", o jogo que descarta 999 "animais" para lucrar com um apenas que vai virar jogador e pagar todo o negócio, é para contar a outra parte desse jogo.

Feita a digressão, voltemos ao sintético e a Fifa.

Das tribunas, Joseph Blatter, que depois estaria envolto até a alma em escândalos de corrupção, certamente não tinha tempo para ver o que acontecia nos subterrâneos do mundial.

Presidente da FIFA, Sepp Blatter participa de coletiva de imprensa em Zurique após sua reeleição (Foto: Fabrice Coffrini/AFP)
Blatter, ex-presidente da Fifa, em coletiva de imprensa em Zurique (Foto: Fabrice Coffrini/AFP)

Estava preocupado com a grama.

A grama de plástico.

Aquele Mundial Sub-17 de 2005 é chave para entender esse jogo que tanto barulho faz no Brasil de 2026.

O gramado sintético era uma causa pessoal de Blatter. Muito mais do que isso. Uma batalha.

Que se dane o ser humano

Dois anos antes, num mesmo Mundial Sub-17, só que na Finlândia, lançou o cavalo de Troia.

Com o ótimo pretexto do frio polar da terra onde até Papai Noel tenta se refugiar entrando por chaminés, fez o test drive em dois estádios. O argumento pelo sintético parecia bom.

O Brasil escapou e só precisou jogar no plástico na final.

Já dois anos depois, o argumento para ter o sintético era justamente o contrário: calor ensandecido.

Entre a justificativa do frio extremo para o teste de 2003 e o purgatório solar de 2005, o mesmo sintético.

E o mesmo Blatter.

Nos bastidores daquela cobertura Blatter também era o protagonista da resenha.

Em off, dirigentes de várias delegações e até membros da FIFA davam o mesmo tom: o sintético em pleno trópico era o jabuti de Blatter.

Subiu naquela árvore porque os interesses eram imensos.

Nos mais variados depoimentos e resenhas, dizia-se que Blatter tinha interesses grandes em que o sintético virasse regra. Traduza- se "interesses grandes" pelo óbvio: grana pesada. Por fora, claro. Coisa que o tempo mostrou, especialidade da casa.

O que não tinha off era o empenho de Blatter.

Sob o argumento de unificar o padrão dos campos do mundo, queria espalhar por aí.

E falava abertamente na Copa de 2010 na África coberta de plástico.

O fracasso retumbante e a unanimidade das queixas naquele Mundial quebraram o plano.

Durante o torneio foram distribuídos pela entidade formulários para os atletas de todas as delegações com destino final ao Comitê Técnico da FIFA. Era para opinarem sobre o gramado artificial.

A rejeição unânime vazou

Não deu para sustentar que uma Copa viesse a ser no sintético como queria o então todo-poderoso. Queria muito.

Como todo repórter, naturalmente quis muito fazer essa reportagem.

Tentei incansavelmente torná-la realidade, passar do campo do "tô sabendo de uma grande história" para o papel.

Mas reportagens são assim.

Não basta saber. Confirmar 500 vezes. E ter alguma prova.

Como aquele juiz, eu tinha toda convicção na matéria. No caso, até mais do que ele.

Era muita gente que sabia das coisas falando dos interesses de Blatter. A prova nunca veio, ninguém nunca falou em on, não consegui estabelecer materialmente as conexões entre Blatter e os donos do negócio da grama sintética.

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Então morri com a história. Virou, como tantas, história de botequim, da boa resenha. Como tantas. Mas morri com a frustração de não virar matéria. É do jogo. Desse fascinante jogo do nosso ofício.

Blatter teve um fim pior. Envolto até a alma no Fifagate, saiu corrido e com o rabo entre as pernas. Fora ele sair, não mudou muita coisa na Fifa.

Mas sigo sem poder fazer essa reportagem até hoje. Blatter passou.

O gramado tá aí

Sem qualquer pudor, CEOs e cartolas dizem que está aí porque as arenas precisam ganhar dinheiro com shows. Nunca foi pelo futebol. E completam: "A Fifa autoriza".

Como o diabo só é o diabo porque é velho e não porque é sábio, venho de longe e vi isso.

E é por isso que dou uma risada discreta quando hoje vejo alguém evocando que o gramado de plástico é legítimo porque "a Fifa autorizou".

Deus perdoa os inocentes.

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