Futebol inglês troca jogadores por disputa bilionária entre investidores

Parte do investimento na Premier League mira a aquisição de participações em clubes

PorTiago Teixeira MendesRio de Janeiro (RJ)
29/07/2026 12:42

Supervisionado porNathalia Gomes,
Elenco do Liverpool em foto oficial (Foto: Paul ELLIS / AFP)
Elenco do Liverpool em foto oficial (Foto: Paul ELLIS / AFP)

A disputa bilionária no futebol inglês mudou de foco. Se durante décadas os maiores investimentos estavam concentrados na contratação de jogadores, agora parte do capital mira a aquisição de participações em clubes. As negociações envolvendo Liverpool, Manchester United e Leicester City refletem essa transformação e acompanham a valorização financeira da Premier League, impulsionada pelo crescimento das receitas comerciais, dos direitos de transmissão e da expansão internacional da competição.

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O cenário é sustentado pelos números da "Deloitte Football Money League 2026". Seis clubes da Premier League figuram entre os dez maiores faturamentos do futebol mundial na temporada 2024/25. O Liverpool lidera entre os ingleses, com 836,1 milhões de euros em receitas, seguido por Manchester City (829,3 milhões de euros), Arsenal (821,7 milhões de euros), Manchester United (793,1 milhões de euros), Tottenham (672,6 milhões de euros) e Chelsea (584,1 milhões de euros). Na edição baseada na temporada 2010/11, apenas quatro equipes inglesas apareciam entre as dez maiores receitas do futebol mundial.

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– O futebol inglês vive uma nova fase de valorização. Se antes a principal disputa bilionária era pela contratação de jogadores, hoje os clubes passaram a ser vistos como ativos estratégicos por investidores do mundo inteiro. A força comercial da Premier League, aliada à capacidade de geração de receita e ao alcance global das marcas, faz com que participações em equipes tradicionais sejam encaradas como investimentos de longo prazo, com potencial de retorno dentro e fora das quatro linhas. Esse movimento reforça que o futebol deixou de ser apenas um produto esportivo para se consolidar como um dos mercados mais atrativos do entretenimento global – afirma Fábio Wolff, sócio-diretor da "Wolff Sports".

O crescimento também aparece quando o ranking é analisado de forma agregada. Os 20 clubes com maior faturamento do futebol mundial somaram 12,4 bilhões de euros em receitas na temporada 2024/25, ultrapassando pela primeira vez a marca de 12 bilhões de euros e registrando o maior resultado da série histórica da Deloitte.

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Em relação à última década, a receita média dos dez primeiros colocados cresceu 60%, enquanto os clubes entre a 11ª e a 20ª posição registraram avanço médio de 84%.

A evolução do mercado inglês em números

Indicador2010/112024/25–2026

Clubes ingleses entre os 10 maiores faturamentos (Deloitte)

4

6

Receita do Liverpool

203,3 milhões de euros

836,1 milhões de euros

Operação envolvendo o Liverpool

Compra pela FSG por aproximadamente 300 milhões de libras

Negociação avalia o clube entre 6 bilhões e 7 bilhões de dólares

Receita da Premier League

6,8 bilhões de libras (2024/25)

Direitos domésticos de transmissão

6,7 bilhões de libras (ciclo 2025–2029)

Receitas em expansão fortalecem valor dos clubes

A valorização dos clubes acompanha a expansão financeira da própria Premier League. Segundo o "Annual Review of Football Finance", da Deloitte, a liga inglesa movimentou 6,8 bilhões de libras em receitas na temporada 2024/25, mantendo-se como a competição de maior faturamento do futebol mundial.

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Paralelamente, o novo ciclo doméstico de direitos de transmissão, válido entre 2025 e 2029, foi negociado por 6,7 bilhões de libras, reforçando a capacidade da liga de ampliar receitas recorrentes.

Mais do que crescer, essas receitas passaram a ter uma composição diferente. Entre os 20 clubes com maior faturamento do mundo, 5,3 bilhões de euros vieram das receitas comerciais, 4,7 bilhões de euros dos direitos de transmissão e 2,4 bilhões de euros das receitas de "matchday".

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O predomínio da receita comercial demonstra que os principais clubes ampliaram sua capacidade de monetização para além do desempenho esportivo, tornando seus ativos mais atrativos para investidores.

– A corrida por participações societárias na Premier League sinaliza que o futebol superou o modelo tradicional de liga para se consolidar como uma plataforma global de entretenimento. Os grandes investidores não estão comprando apenas a tradição de campo, mas sim o poder de atração de público, a força da marca e a capacidade de gerar receitas comerciais e de mídia recordes, provando que a verdadeira valorização está na capacidade de transformar o esporte em um espetáculo de alcance internacional – declara Veridiano Pinheiro, diretor executivo da FutPro Expo.

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Composição das receitas dos 20 maiores clubes

Fonte: Deloitte Football Money League 2026.

Fonte de receitaValor

Receitas comerciais

5,3 bilhões de euros

Direitos de transmissão

4,7 bilhões de euros

Matchday

2,4 bilhões de euros

Liverpool simboliza nova fase de valorização

A trajetória do Liverpool ilustra essa transformação. Em outubro de 2010, a "Fenway Sports Group" (FSG) adquiriu o clube por aproximadamente 300 milhões de libras. Naquela temporada, os Reds registraram 203,3 milhões de euros em receitas.

Quinze anos depois, o faturamento alcançou 836,1 milhões de euros, enquanto a FSG negocia a venda de uma participação minoritária em uma operação que pode avaliar o clube entre 6 bilhões e 7 bilhões de dólares, mantendo o controle da instituição.

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– A Premier League oferece um ambiente altamente favorável aos investidores, especialmente por seus altos padrões de governança, tamanho, pujança, profissionalismo, padrões e regras. Ela é simplesmente o benchmark das ligas em todo o mundo. Com esse arcabouço, gera receitas crescentes e um produto consolidado internacionalmente. Nesse ambiente, é natural, portanto, o aumento do interesse na aquisição de clubes da liga – explica Moises Assayag, sócio-diretor da "Channel Associados" e especialista em finanças do futebol, com atuação nas áreas de reestruturação financeira e operacional.

O movimento não é isolado. Em 2023, o empresário britânico Jim Ratcliffe adquiriu cerca de 25% do Manchester United, enquanto a família Glazer permaneceu como controladora do clube. Já o Leicester City foi colocado oficialmente à venda pelos proprietários, que buscam um novo controlador.

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Joel e Avram Glazer, sócios do Manchester United
Joel e Avram Glazer, sócios do Manchester United (Foto: Paul Ellis /AFP)

Embora tenham objetivos distintos, as três operações evidenciam a diversificação dos modelos de investimento no futebol inglês.

– A nova corrida do futebol inglês deixa claro uma mudança de patamar. O grande capital migrou da compra de jogadores para a compra de participações nos clubes. Com a Premier League batendo recordes de receitas comerciais e atração de investidores globais, o atleta deixa de ser apenas a ponta final do investimento e passa a ser o ativo essencial que sustenta a valorização bilionária dessas instituições – analisa Claudio Fiorito, CEO da "P&P Sport Management", empresa que administra a carreira de mais de 150 jogadores ao redor do mundo, entre eles o zagueiro Vitor Reis, do Manchester City, e o centroavante belga Romelu Lukaku, do Napoli.

Investimentos se diversificam no futebol inglês

Essa mudança também reflete a maturidade financeira do mercado. Se, em 2010, a compra integral do Liverpool simbolizava o principal modelo de investimento, atualmente operações envolvendo participações minoritárias passaram a dividir espaço com aquisições de controle.

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A estratégia permite captar novos recursos, incorporar investidores e aumentar o valor dos ativos sem que os atuais proprietários precisem abrir mão da gestão dos clubes.

– O futebol inglês atingiu um estágio em que o principal ativo deixou de ser apenas o elenco, mas a própria estrutura do clube, fazendo com que o investidor tenha um olhar mais atento para receitas recorrentes, força global da marca, capacidade de expansão comercial e potencial de valorização do negócio. A Premier League, por meio de investimentos de longo prazo, conseguiu consolidar um modelo que oferece previsibilidade financeira e alcance internacional, fatores que despertam o interesse de fundos e grupos de investimento de diferentes setores – comenta Wagner Leitzke, Head de Desenvolvimento de Negócios da "End to End".

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Mais do que operações pontuais, os casos de Liverpool, Manchester United e Leicester City evidenciam uma mudança no perfil dos investimentos no futebol inglês. O crescimento das receitas comerciais, dos direitos de transmissão e das receitas de matchday ampliou a capacidade de geração de caixa dos clubes, tornando esses ativos mais atrativos para investidores de longo prazo.

Nesse contexto, a venda de participações minoritárias passa a coexistir com as tradicionais aquisições de controle, refletindo um mercado cada vez mais sofisticado e alinhado à valorização financeira dos principais clubes da Premier League.

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