Lúcio de Castro: Super Bowl, 'nem o americano gosta disso'
O Super Bowl é muito mais do que um evento esportivo para os americanos

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"Nem o americano gosta disso".
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Deu tempo só de enviar a matéria, ligar para o Brasil e escutar: "P…quer me f..o jornal gasta uma grana, te manda pra aí e você manda um negócio acabando com o evento"?
Aconteceu em 2001. Foca ainda no ofício. No ano anterior, tinha feito minha primeira cobertura internacional, logo as Olimpíadas de Sidnei.
Um ano depois, os editores me chamaram e falaram que iriam me mandar para Tampa, Flórida (EUA). Para cobrir o Super Bowl. A propaganda repetida do jogo desse domingo me trouxe as reminiscências.
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Certamente esperavam um pulo de alegria como resposta. Posso me recordar da cara de espanto deles com a resposta. "Melhor mandar outro. Não tenho a menor ideia do que é esse esporte e não tenho a menor vontade de aprender". Falei obviamente agradecendo muito a lembrança porque afinal educação é princípio básico.
Era um janeiro clássico daqueles no Rio de Janeiro. Ipanema era só felicidade, praia antes de ir para a redação, a boa resenha, samba depois do trabalho…O que que eu ia fazer naquele negócio que não tinha o menor apelo para mim?
Argumentei com serenidade: eu mal sabia o que era o tal do touchdown.
A réplica dos editores, que a bem da verdade nem precisariam de argumento e sim apenas dar uma ordem, era melhor. Não queriam cobertura do jogo, detalhes táticos e afins. Queriam exatamente um olhar diferente, muito mais do entorno do grande evento, dos costumes do público naqueles dias, da economia, da cultura, do que do jogo. A matéria da partida seria feita por aqui. Eu só precisava mandar essa crônica.
Lá fui eu. Foi assim que ouvi pela primeira vez falar em Baltimore Ravens. Em minha defesa, já tinha escutado falar em New York Giants, o adversário.
Se você chegou até aqui, nobilíssimo amante do Super Bowl, não precisa ter raiva do autor. É só uma crônica, é só gosto, é só democracia. Você pode ficar com o seu Super Bowl que eu terei o máximo respeito. Minha opinião não desconsidera seu gosto, é tão somente o meu gosto. Me deixa com meu futebol e você fica com seu futebol americano. E seremos todos felizes. Adelante.
O evento realmente tinha e tem proporções gigantescas. Algumas lendas, é verdade, como a frequentemente repetida de que as cidades sede tem ganhos financeiros estratosféricos. Não se sustenta. Isso está em trabalhos acadêmicos robustos e rigorosos, como "Padding Requiered: Assessing the Economic Impact of the Super Bowl" e ainda "Mega-Events: the Effect of world's Sporting Events on local, regional and national economies", ambos de Victor Matheson e Robert Baade, que demonstram que os supostos ganhos econômicos de megaeventos são limitados e o impacto real é na verdade quase nulo.

Os Estados Unidos inteiros estavam na Flórida, como estarão em Santa Clara, Califórnia. Até esse azar eu dei, Santa Clara parece tão mais simpática do que Tampa. Calma, sem polêmicas. De novo, é só gosto.
As recepções para jornalistas credenciados eram nababescas. Mesas quilométricas com cascatas de camarão, lagosta. Os dias que antecederam o evento eram agitados.
Até que chega o domingo do jogo. O caminho para o estádio já era um tanto diferente. Famílias acampadas com seus trailers no entorno e churrasqueiras, com aqueles churrascos meio muquiranas de americano, uns bifes de hamburguer no lugar das nossas picanhas… Uma televisão ali junto do fogo e som alto (sim, tinha isso também).
Perguntei se todos entrariam e me disseram que não. Nenhum entraria. Viajavam para aquilo mesmo, ficar ali no entorno acampados era estar no evento já. Foi o que me disseram e nas perguntas que fiz a alguns. Adelante.
Dentro do estádio, não era muito diferente. O juiz apita (quer dizer, não lembro se começa com um apito do juiz…) e boa parte segue nos bares dos corredores do estádio, bebendo, comendo hamburguer e…vendo pela televisão. De novo perguntei se era assim mesmo. De novo me disseram que sim, era assim mesmo. Adelante.
Confesso que aquilo me impressionou profundamente. Obviamente que não eram todos. Nem a maioria. Mas quantidade de pessoas que permanecem horas no bar durante o jogo era impressionante demais.
Volto para a arquibancada. Eram horas de partida. Eu sem entender nada. Mas afinal, era só para fazer o entorno mesmo, economia, cultura, etc. Dei tanto azar que logo no meu ano o show do intervalo foi N Sync. Para me matar de raiva, no ano seguinte foi U2. Não dei muita sorte mesmo com Super Bowl…Adelante.
Ir a um jogo sem entender nada da modalidade em questão para "fazer o entorno" acabou virando quase uma especialidade da casa ao longo dos anos na carreira. O que, confesso, muito me orgulhava. O chamado "outro olhar" que os editores gostavam de pedir. Foi assim tantas vezes que talvez tenha sido um dos repórteres brasileiros a ter participado mais da cobertura de beisebol. Acho que umas três finais olímpicas, umas três finais panamericanas. Em algumas, eram Estados Unidos x Cuba na cancha, e eu ia para contar o clima de guerra fria. E sim, que bom tinha esse tipo de reportagem. Me sinto até um pouco dinossauro mesmo porque parece que essas pautas sumiram um pouco na era dos cliques, na pobreza dos flashs de 30 segundos das mais variadas formas. Mas isso é outro papo. Ah, teve também um Mundial de Beisebol sub-17 inteiro no México que cobri sem saber o que era um "hitter".
Umas três horas de jogo depois, sabendo que ainda tinha mais pela frente, volto para os bares para seguir minha reportagem de 'entorno". As mesmas pessoas e mais outras estavam por ali ainda. Andaram para o jogo.
Vamos resumir e voltar ao início dessa história. Acaba o jogo. Vestiários, entrevistas e vou para o centro de imprensa mandar matéria. Mando. E voltamos a frase que abre esse texto.
"Nem o americano gosta disso". E contava a história dos tantos comedores de hamburguer que vi ignorando o jogo ao longo daquelas horas intermináveis para esse reportero.
A resposta do editor você já leu também. O fato é que a matéria como eu mandei nunca saiu. Talvez tenha sido justo. Mas sigo convicto e com algum orgulho sobre a veracidade da apuração. Assim como sigo convicto e com algum orgulho de ter mantido alguns dos mesmos arroubos daqueles passos iniciais.
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Mais orgulho ainda tive ao entrevistar Eduardo Galeano pouco tempo depois, em 2003, para O Globo. Revirando a coleção digital do matutino da Irineu Marinho, revejo o que o escriba maior achava do futebol americano. Estava lá:
"Como dizem os mexicanos, não tem jeito. Os americanos chamam de futebol um enfrentamento militar que se disputa com as mãos. Do outro futebol, que se joga com os pés e não exige violência, dizem que é o esporte do futuro, e sempre será. Me dá pena por eles. Eles é que perdem".
Bem acompanhado na trincheira, resta lembrar que um outro jogo estará sendo jogado em Santa Clara nesse domingo.
Em meio a escalada da barbárie do ICE de Trump e o assassinato de imigrantes e americanos, estará no palco do intervalo Bad Bunny e suas combativa na defesa dos seus. Com a força do discurso no palco do Grammy: "ICE: pare de matar". Green Day completa a cena e vai falar também. Trump não vai mais. Não se sabe se por medo das vaias ou das verdades que serão ditas no intervalo.
Gostaria de ver isso ao vivo. Mas só desse entorno.

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