Lúcio de Castro: o transfer ban do sonho americano
A relação entre a fábrica de sonhos de Hollywood e John Textor

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"Como costuma ser o caso em Hollywood, a verdade nunca deve atrapalhar uma grande história"
Uma breve frase. Poucas palavras.
E a mais perfeita tradução de Hollywood. A síntese acabada do lugar que o batido mas cirúrgico chavão chamou de "fábrica de sonhos".
O autor da frase genial tem lugar de fala. História em Hollywood. Deixemos mais para frente o devido crédito.
O Circo Máximo romano revivido no coração da América porque, afinal, "Panem et circenses", nem só de pão vive o homem.
Nada foi mais circo do que a Hollywood da crise de 1929 e da Grande Depressão. Talvez nem mesmo o Coliseu.
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Era o cinema desempenhando protagonismo para enfrentar a revolta e as panelas vazias, contendo a turbulência política. A ideologia do sonho americano dando esperança para uma nação despedaçada na tela grande.
A placa de Hollywood gritando no topo da colina da cidade dos anjos como miragem e hipnose.

Sob mão de ferro, um código censurava os excessos e disciplinava as críticas eventuais. Na preservação da ilusão e das instituições fundamentais do sistema.
Noam Chomsky foi didático ao explicar como Hollywood ajudou a fabricar o consenso e legitimar as políticas domésticas e externas da "América".
A aposta dobraria na Segunda Guerra, com Roosevelt criando o Office of War Information (OWI). Uma linha direta com Hollywood para glorificar o esforço de guerra americano. E acima de tudo para desumanizar os inimigos.
A Guerra Fria chegaria com o auge do uso do cinema como poderosa ferramenta ideológica. Mais do que nunca, o já citado sonho americano glorificado como modo de vida superior.
Truman e Eisenhower entenderam como poucos que no escurinho do cinema também se derrotava o gigante soviético.
Mais agências de controle criadas para enquadrar o cinema. O macartismo cuidava das vozes dissidentes. A perseguição implacável que nos faz lembrar Carlitos. Atacado diariamente na grande imprensa, sempre amiga em qualquer tempo e lugar dos poderosos, como "companheiro de viagem dos soviéticos".
J. Edgar Hoover, o tristemente famoso diretor do FBI, acumulava páginas e páginas de um dossiê sem fim desse Charles Chaplin. Por muito tempo, considerado uma das maiores ameaças à segurança nacional. O exílio como única saída.
Era também o tempo das diligências. Faroestes e filmes de guerra para deixar claro o poder militar e a bravura indômita do americano. A ficção científica para lembrar que comunista comia criancinha. E comédias e dramas de mocinhas e galãs para vender a vida harmoniosa do lado de cá da cortina de ferro. E para mastigar o american way of life de forma doce. E assim jorraram milhões.
"Avant la lettre" do tarifaço trumpista, espremia-se o mundo contra a parede para que os mercados globais se escancarassem para as fitas de Hollywood. Não se constrói uma hegemonia da noite para o dia. Nem somente com bombas. É preciso mostrar seu modo de vida superior para conquista corações e mentes mundo afora. E fazer sonhar.
Pulando um pouco no tempo, chega-se ao Vietnã.
Muda-se o patamar
Para contrapor a imagem dos caixões de jovens desembarcando, das palavras letais de Ali, de Woodstock, da contracultura que queria fazer amor e não guerra, a volta com mil Rambos produzidos em diferentes tramas. Todas com o fio em comum da nobre missão que vai derrubar a barbárie vietcong, as cruéis criaturas. Era Hollywood no centro da guerra. Depois, a sala escura como divã para superar traumas.
Rocky Balboa para derrubar o muro e nocautear Ivan Drago. Tem muito mais.
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Corta para a cena inicial de "Pretty Woman". Julia Roberts como a materialização em carne e osso do sonho americano.
O cartaz anuncia "A História de Cinderela". Abre para Hollywood Boulevard e o mercador de ilusões anuncia:
"Bem-vindos a Hollywood! Qual é o seu sonho? Todo mundo que vem para Hollywood tem um sonho. Qual é o seu sonho?…". O final feliz de Richard Gere ao lado de uma linda mulher.
Poucas vezes os bastidores da tal fábrica de sonhos foram apresentados em tantos detalhes como no livro "Upstart: the digital film revolution managing the unmanageable" (editora Native Book Publishing), de Scott Ross, lançado no ano passado nos Estados Unidos e ainda sem versão em português.
O autor é uma lenda de Hollywood. O currículo explica a classificação como figura lendária do cinema.
Foi executivo da Industrial Light and Magic (ILM), vencedora em seu tempo de várias estatuetas do Oscar em diferentes categorias. Por filmes como "Uma cilada para Roger Rabbit", "O Exterminador do Futuro 2 - O julgamento final", "O Segredo do Abismo" e "A morte lhe cai bem". Depois da ILM, assumiu a vice-presidência da LucasFilm, de George Lucas. Apenas.
Não parou por aí. Em 1993, fundou a Digital Domain. Junto com o não menos lendário James Cameron e com Stan Winston. Para mais 3 estatuetas do Oscar: "Titanic", "Amor além da vida" e "O curioso caso de Benjamin Button".
Vivência no coração da máquina não faltou para que pudesse contar em 336 páginas os bastidores da indústria cinematográfica e de uma Hollywood muito além dos holofotes e luzes. Das grandes negociações, dos pequenos casos, dos conflitos entre grandes estúdios, dos sucessos que arrombaram bilheterias e dos fracassos.
Encontro entre os personagens
É nessa Digital Domain que Scott Ross cruza seus caminhos com o autor da frase que abre esse texto.
Em ritmo de trailer, Ross conta que o primeiro contato entre ele e o tal personagem já foi um calote. É o autor que relata no livro o que aconteceu ao fazer uma pesquisa de antecedentes após o primeiro encontro: "foi o responsável pelo único recebível inadimplente que a Digital Doman já teve! Nunca nos pagou".
Assim mesmo, a relação seguiu. O tal personagem acabou comprando a Digital Domain.
O processo de compra está relatado no livro. Na descrição, nosso personagem fez apresentações e discursos "didaticamente arrebatadores" para convencer a todos de sua capacidade de compra. Convenceu a todos que podia comprar valendo-se somente de sua alegada fortuna.
A capacidade de discursos convincentes sem igual, arrebatador e o poder de convencer de que possui uma fortuna garantidora de sua capacidade de compra podem dar pistas para saber quem é o autor da frase.
Melhor evitar o spoiler. É impactante ler a sequência de trechos de autoria de Scott Ross relatando falências, calotes e um discurso sedutor como um canto de sereia. Para no fim sempre se sair bem, enquanto deixa terra arrasada. Está no livro.
Um único trecho mais:
"O que inicialmente parecia uma aquisição razoavelmente direta se transformou em loucura. Foi mentira após mentira, após mentira, após mentira…" .
Anos depois, esse personagem desembarcou por aqui.
A vida glamourosa levou-o ao congresso nacional em 22 de abril de 2024, onde, hipnotizados e sem contestação, centenas de parlamentares aplaudiam sua fala de 12 minutos. Na qual discorreu sobre a riqueza que permitiu a compra de um time.
"Muitas pessoas não sabem o que produziu a riqueza para que eu pudesse comprar a empresa e estar aqui hoje. É que eu fui o fundador de uma empresa de Inteligência Artificial e, com esse dinheiro, pude comprar um time". Como antes, não foi contestado. Mesmo tendo falado sobre juramento de falar a verdade sob o risco de prisão, saiu de lá andando e tietado.
O tom arrebatador seguiu sendo o de toda trajetória de vida. Arregimentando uma legião de fiéis quase cegos. Tratado como "papai', faixa em estádio e um exército para defender suas histórias.
Os anos em Hollywood parecem ter forjado indelevelmente seus passos e sua forma de agir e seduzir. Um modus operandi.
Foi desse jeito que seguiu contando sua história e seguido por milhares dispostos a acreditar e defender.
Não importam os fatos e o prontuário. Afinal, para nosso personagem, aquele que talvez melhor tenha sintetizado a alma dessa Hollywood que tentamos resumir aqui em sua construção como fábrica de sonhos através dos tempos, "a verdade nunca deve atrapalhar uma grande história".
O autor da frase?
John Charles Textor.

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