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Gringos BR: Erick Pulgar, o 'pitbull' que conquistou o Flamengo

Recentemente, chileno teve o contrato renovado até o fim de 2029

PorPedro Werneck•Rio de Janeiro (RJ)
06/10/2026 08:00
•Atualizado há 0 minutos
Erick Pulgar em ação pelo Flamengo
Erick Pulgar vive grande fase com a camisa do Flamengo desde o ano passado (Foto: Thiago Ribeiro / AGIF / Folhapress)

Em seu quinto ano com a camisa do Flamengo, Erick Pulgar vive uma relação de amor com a torcida rubro-negra. Após temporadas de altos e baixos, o chileno atingiu o seu ápice de 2025 para cá e, recentemente, foi premiado com a renovação contratual até o fim de 2029. Aos 32 anos, o volante acumula o repertório de uma carreira marcada por desafios, superações e transformações.

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O menino que sonhava em voar

Erick Pulgar nasceu em Antofagasta, cidade portuária no norte do Chile. O pai biológico não foi presente na infância, razão pela qual o atleta passou a estampar apenas "Erick" na camisa. Por outro lado, o jogador foi criado com afeto pela mãe, Karina, e pelo padrasto, Pablo Araya, a quem se refere como seu verdadeiro pai.

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Pablo foi além da figura paterna e tornou-se o primeiro treinador do garoto. Aos 6 anos, Pulgar deu seus primeiros chutes pelo Miramar Suldeste, clube do bairro humilde onde cresceu. Atuando como camisa 8, venceu cinco edições consecutivas do campeonato amador local e passou a atrair convites de equipes profissionais. Por apego ao time da infância, porém, só aceitou dar o passo seguinte aos 15 anos.

Antes mesmo de estrear profissionalmente, aos 13 anos, ele fez a primeira de suas muitas tatuagens: duas asas nas costas, simbolizando o desejo de "voar pelo mundo".

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Quem o convenceu a migrar para o futebol de base foi o Deportes Antofagasta, onde acabou deslocado para a zaga. A mudança de posição foi motivada pela estatura — hoje, o chileno mede 1,88 m —, e não por limitação técnica. Pelo contrário: ex-companheiros relatam que o jovem defensor tinha o hábito de aplicar chapéus nos atacantes adversários.

Na equipe da cidade natal, conquistou o título da segunda divisão chilena como destaque — a primeira taça profissional de sua trajetória e única por clubes até chegar ao Flamengo. Contudo, foi também em Antofagasta que o atleta viveu um dos capítulos mais delicados da vida pessoal.

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Em 2013, aos 18 anos, Pulgar atropelou Daniel Ampuero Carvajal, de 65 anos, sem prestar socorro. A vítima faleceu no hospital uma hora depois. O jogador foi julgado e condenado por homicídio culposo em razão de conduta negligente. Como o pedestre atravessou a via em local inadequado, a pena foi abrandada e cumprida em liberdade, com suspensão da carteira de habilitação por dois anos e obrigação de frequentar um centro de reabilitação social. Em 2019, a família da vítima moveu uma ação cível contra o atleta.

Um ano após o episódio, Erick trocou o Deportes Antofagasta pela tradicional Universidad Católica. Maior revelação esportiva do município, saiu como ídolo e, posteriormente, ganhou um mural em sua homenagem no bairro natal, retratado beijando a taça da Copa América de 2016 com a frase: "Pode sonhá-lo, pode realizá-lo". O jogador mantém o hábito de visitar as origens nas férias e conserva amizades da juventude. Além disso, continua recebendo ligações com conselhos táticos do padrasto.

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Novos clubes, novas versões

Na Universidad Católica, Pulgar retornou ao meio-campo. Deixou a zaga para atuar como um volante completo, capaz de aliar poder de marcação, passe qualificado e imposição no jogo aéreo. Apesar da pouca idade, não sentiu o peso de assumir a titularidade do gigante chileno.

O desempenho despertou o interesse da Europa e, em 2015, o italiano Bologna desembolsou € 2,3 milhões de euros por sua transferência (cerca de R$ 8,5 milhões na cotação da época). A adaptação ao "calcio", porém, começou de forma dolorosa. Com saudades de casa, o jovem chegou a cogitar o abandono da carreira e fez uma tatuagem de uma figura macabra na perna, que simbolizava o período sombrio.

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— Não me importava se o contrato seria encerrado. Se ficaria sem jogar cinco anos. Queria voltar para o Chile, cheguei a comprar passagem. Disse a um amigo, Luís, que não aguentava mais. No dia seguinte, chego ao hotel e lá estão minha mãe e Luís, com um dos meus agentes. Falaram que eu tinha que continuar. Que eu não estava sozinho. Eles salvaram minha carreira — revelou ao jornal "O Globo".

A volta por cima veio a partir da segunda temporada, quando virou pilar do Bologna. Em 2019, transferiu-se por € 12,3 milhões (R$ 51,5 milhões à época) para a Fiorentina, clube contra o qual havia marcado um gol olímpico no ano anterior.

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Na "Viola", a adaptação foi imediata. Na temporada de estreia, anotou sete gols e distribuiu oito assistências em 41 jogos — além de receber dez cartões amarelos, característica marcante que a torcida rubro-negra conheceria mais tarde.

Na Itália, o atleta passou por outra "metamorfose": converteu-se em um especialista em bolas paradas. Em Florença e Bolonha, assumiu cobranças de faltas, escanteios e pênaltis, recebendo o apelido de "El Frío" pela frieza na marca da cal.

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Após perder espaço em sua terceira temporada na Fiorentina e passar por um empréstimo discreto ao Galatasaray, da Turquia, o volante entrou no radar do Flamengo, que aproveitou o momento de baixa para contratá-lo em 2022 por € 2,8 milhões (R$ 15 milhões).

Números de Pulgar antes do Flamengo:

  1. Antofagasta: 11 jogos, 2 gols, 1 assistência e 4 cartões amarelos
  2. Universidad Católica: 37 jogos, 7 gols, 3 assistências e 11 cartões amarelos
  3. Bologna: 106 jogos, 10 gols, 3 assistências, 23 cartões amarelos e 3 cartões vermelhos
  4. Fiorentina: 82 jogos, 8 gols, 12 assistências e 22 cartões amarelos
  5. Galatasaray: 11 jogos e 2 cartões amarelos
Erick Pulgar em ação pela Fiorentina
Erick Pulgar em ação em seu 50º jogo como titular pela Fiorentina (Foto: Divulgação / Fiorentina)

De questionado a pilar do Flamengo

A chegada de Pulgar à Gávea foi recebida com forte rejeição por parte dos rubro-negros, que promoveram campanha contrária nas redes sociais devido aos episódios extracampo. Além do atropelamento no início da carreira, veio à tona uma denúncia ocorrida um mês antes da sua contratação: uma mulher de 24 anos alegou ter sido vítima de estupro coletivo na casa do jogador, no Chile, após uma festa. À época, o atleta foi incluído no processo como testemunha, não figurando entre os acusados. No início de 2023, o Ministério Público chileno determinou o arquivamento provisório da investigação por falta de novas evidências.

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Esportivamente, o primeiro semestre do chileno com a camisa do Flamengo foi de pouco protagonismo, mas celebrado com a sonhada conquista da Libertadores. Sob o comando de Dorival Júnior, participou do "time B" no Brasileirão e não saiu do banco na decisão da competição continental. No começo do ano seguinte, após a polêmica troca no comando por Vitor Pereira, Pulgar cometeu uma falha em um dos gols sofridos na eliminação do Mundial de Clubes para o Al-Hilal. Ali ficou claro que teria um longo caminho a percorrer para conquistar a idolatria rubro-negra.

Desde o início, porém, a adaptação ao Brasil foi mais fácil do que à Itália. Erick relata que foi melhor recebido no país, apesar da cobrança rigorosa da torcida, e contou com a proximidade da família logo nos primeiros meses. Hoje, o meio-campista vive em uma casa na Barra da Tijuca acompanhado da mãe, Karina, do caçula de seus cinco irmãos e de outros parentes.

A virada de chave ocorreu com a chegada de Jorge Sampaoli, em abril de 2023. Embora o técnico argentino o conhecesse da seleção chilena, Pulgar não começou entre os titulares e precisou conquistar a vaga nos treinos.

— Cheguei e não joguei muito, mas meus treinamentos eram de alto nível. Não há nada mais importante para mim que treinar bem, ainda sem jogar. Minha forma de treinar convenceu o Sampaoli. Eu não estava em seus planos. Lembro-me de um jogo contra o Racing, pela Libertadores. Eu tinha treinado de zagueiro. Ele chega no dia do jogo e diz: "Como está para jogar hoje?" E eu lhe digo: "Tudo bem. De zagueiro?" E ele me diz: "Não, no meio". E depois chegamos à reunião, e eu estava de titular do meio-campo. Ele te exige o 100%. E se você o vê nos jogos, ele não parece tão louco como nos treinamentos. Então, para mim, ajudou muito — contou o atleta ao "O Globo".

A partir daquele momento, o chileno firmou-se na equipe titular com Sampaoli e, posteriormente, com Tite. Mas faltavam títulos com o seu carimbo, e a consolidação definitiva veio sob o comando de Filipe Luís, seu ex-companheiro. No fim de 2024, conquistou a Copa do Brasil e, na temporada de 2025, foi peça central nos títulos da Libertadores e do Campeonato Brasileiro.

O treinador rubro-negro nunca escondeu a admiração pelo seu cão de guarda no meio-campo, rasgando elogios públicos ao atleta em diversas oportunidades.

— Se Erick Pulgar fosse brasileiro, estaria na Seleção Brasileira. E seria titular. É um grande jogador. É o que penso. Não existem muitos como Pulgar no mundo hoje, se tentar encontrar. É um jogador muito importante — afirmou Filipe Luís uma vez.

— Vocês viram o que o Erick jogou? Acho que nada me deixa mais orgulhoso do que ver meus volantes jogando nesse nível. (...) Repito: o Erick, para mim, é um jogador que perfeitamente estaria jogando no Barcelona, perfeitamente — exaltou o treinador em outra oportunidade.

De 2025 para cá, Pulgar encontrou sua versão mais completa e dominante na carreira, explorando com maestria suas valências defensivas e ofensivas — com exceção das bolas paradas que o notabilizaram na Itália. No Flamengo, o chileno raramente assume faltas e escanteios, e jamais foi o batedor de pênaltis.

Apesar da refinada qualidade técnica, o atributo de Erick que mais arrebata a torcida é a raça. O volante, que entra firme em cada dividida, ganhou o apelido de "Pitbull" e a música embalada pelas arquibancadas de que "Pulgar é mal". Curiosamente, a despeito do estilo agressivo, o camisa 5 acumula somente duas expulsões em sua trajetória na Gávea.

Essa identificação visceral com a torcida foi eternizada na pele: após as grandes conquistas com o Manto Sagrado em 2025, o jogador tatuou os troféus levantados no ano e a imagem marcante dos torcedores sobre o ônibus da equipe no "AeroFla". Os símbolos rubro-negros agora dividem espaço com os sonhos de infância, as lembranças dos momentos difíceis, as homenagens à família e a fé que estampam o corpo do chileno.

No início de 2026, o Flamengo surpreendeu ao trocar Filipe Luís por Leonardo Jardim. Lesionado em parte do período de transição, o chileno viu o jovem Evertton Araújo ganhar espaço. No retorno, porém, reassumiu a titularidade absoluta sem deixar margem para dúvidas. Com o treinador português — que já o definiu como um "atleta de inteligência bem acima da média" —, Pulgar mantém o prestígio e consolida a parceria com Jorginho no meio-campo.

Já são 170 exibições com o Manto Sagrado. E muitos outras virão, já que a diretoria recentemente renovou o seu contrato até o fim de 2029.

— Estou muito feliz. Isso é o que eu e a minha família queríamos. O tempo que eu estive aqui, o tanto que eu trabalho e a perseverança que eu tenho me levaram a ser o jogador que eu sou hoje. E o mais importante é que o carinho da torcida é o maior prêmio que eu tenho — comemorou o camisa 5 após a extensão do vínculo.

Números de Pulgar pelo Flamengo:

  1. 170 jogos (141 titular)
  2. 6 gols
  3. 9 assistências
  4. 59 cartões amarelos
  5. 2 cartões vermelhos
  6. 90% de acerto no passe
  7. 65% de acerto no passe longo
  8. 1,5 desarmes por jogo
  9. 4,9 bolas recuperadas por jogo
  10. 45% de eficiência nos duelos
  11. 1,6 faltas por jogo
Pulgar celebra com os companheiros e a torcida os títulos conquistados pelo Flamengo em 2025
Pulgar celebra com os companheiros e a torcida os títulos conquistados pelo Flamengo em 2025 (Foto: Adriano Fontes / Flamengo)

Flamengo primeiro, Chile depois

Erick Pulgar não conseguiu repetir por La Roja as mesmas glórias alcançadas no Rio de Janeiro. Convocado por Jorge Sampaoli, o então jovem meio-campista estreou pela seleção chilena em 2015 e integrou o elenco bicampeão da Copa América em 2016, embora como opção no banco. O início de sua trajetória nacional coincidiu com o ápice da geração de ouro de Arturo Vidal e Alexis Sánchez.

O problema é que os protagonistas envelheceram e, quando o volante atingiu o seu auge, a seleção já não tinha a mesma qualidade. Como consequência, o país falhou em se classificar para as Copas do Mundo de 2018, 2022 e 2026.

Nas Eliminatórias para a Rússia, Pulgar teve participação tímida. No ciclo seguinte, viveu seu melhor momento internacional sob a batuta de Reinaldo Rueda, sendo titular absoluto no quarto lugar da Copa América de 2019. Contudo, o novo insucesso em buscar a vaga no Mundial falou mais alto.

Erick Pulgar marca Lionel Messi em jogo entre Chile e Argentina
Erick Pulgar marca Lionel Messi em jogo entre Chile e Argentina (Foto: Charlly Tribaleau / AFP)

A relação com a torcida local estremeceu de vez a partir de 2022. Às vésperas de fechar com o Rubro-Negro, o atleta pediu dispensa de uma convocação do técnico Eduardo Berizzo por motivos pessoais, mas acabou registrado em uma partida amadora com amigos. Perdoado meses depois, teve atuação apagada em amistoso contra Marrocos e virou alvo de duras críticas no Chile.

Entre 2023 e 2024, figurou na maioria dos jogos oficiais. Porém, com a seleção distante da zona de classificação nas Eliminatórias para a Copa, o jogador passou a recusar convocações para priorizar a rotina no Flamengo.

Mesmo após sucessivas negativas, o atual técnico do Chile, Nicolás Córdova, viajou ao Rio de Janeiro na tentativa de reconvencê-lo para o novo ciclo. A investida não surtiu efeito: Erick declinou do convite para a recente Data Fifa e completará dois anos sem vestir a camisa de seu país no fim deste mês.

Aos 32 anos, o volante afirma torcer para que o Chile retorne à Copa do Mundo, mas não sabe se chegaria a 2030 em condições físicas ideais. Caso não haja reviravolta, o meio-campista encerrará o ciclo internacional com 54 partidas, quatro gols e quatro assistências. A única nação defendida por Pulgar até 2029 será a rubro-negra — provando que os voos pelo mundo levaram o garoto de Antofagasta para o Rio de Janeiro e que suas asas, no fim das contas, eram de urubu.

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