Risco de lesões gera temor e é dilema para atletas em ano de Copa do Mundo
Repetindo edições anteriores, torneio de 2026 terá baixas de peso como Rodrygo

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O futebol de clubes não para em ano de Copa do Mundo. Ao longo de toda a temporada, então, atletas precisam lidar com o temor de uma lesão que os afaste da competição mais almejada. Uma contusão pode acabar com um sonho de infância pelo qual passou os quatro anos anteriores (e a vida) batalhando, oportunidade que nem sempre aparece novamente.
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Este cenário delicado faz parte de todas as edições do Mundial. Neste ano, o brasileiro Rodrygo já é ausência de peso confirmada. Outros destaques como Mikel Merino (Espanha), Minamino (Japão), Jack Grealish (Inglaterra) e Gvardiol (Croácia) também não devem retornar a tempo. O lateral-direito inglês Reece James, que perdeu o torneio de 2022 por lesão, se machucou de novo e tenta se recuperar antes do início do evento. No Catar, também foram desfalques craques como Sadio Mané (Senegal), Paul Pogba (França), N'Golo Kanté (França) e Giovanni Lo Celso (Argentina).
Só resta jogar sem medo
Por mais que o sonho da Copa do Mundo seja prioridade para a maioria dos jogadores, são os clubes que pagam os seus salários e com quem têm contrato firmado. Além disso, os campeonatos são disputados da mesma forma e com o mesmo peso para os torcedores antes do Mundial. Assim, os atletas não podem fugir de treinar e atuar com a intensidade usual.
Campeões mundiais com o Brasil em 2002, Juninho Paulista e Roque Júnior conviveram com esse desafio ao longo de suas carreiras, assunto que abordaram em entrevista ao Lance!. Mesmo após perder a edição de 1998 por lesão, o ídolo vascaíno não deixou ser dominado por temor no ciclo seguinte.
— Aconteceu comigo na véspera da Copa de 98 (lesão), mas eu, particularmente, nunca pensei nisso. A partir do momento que você entra em campo, tem que focar naquele jogo. Isso é muito particular, claro. Mesmo depois da minha lesão, que me deixou fora da Copa de 98, em 2002 joguei até às vésperas da convocação e não tive esse receio — contou Juninho.
No caso de Roque Júnior, a lesão veio em 2006, quatro anos depois de se consagrar campeão mundial. A partir da notícia, porém, deu tudo de si na recuperação e conseguiu retornar às melhores condições antes da Copa do Mundo. Ainda assim, não foi convocado por Carlos Alberto Parreira.
— Você não fica pensando, pelo menos falando por mim, se iria se machucar nos jogos, faz parte do jogo. Essa preocupação não me faria bem. Eu entrava e jogava como sempre, lutando sempre por mais uma convocação, pela presença na Copa do Mundo. Depois que você tem uma lesão, aí sim precisa ter mais cuidado, entender o melhor planejamento para o retorno — disse.
Juninho Paulista também teve a experiência de coordenador da Seleção Brasileira entre 2019 e 2022. Na função, precisava se preocupar com os atletas e fazer o possível para auxiliar os clubes no melhor preparo e recuperação dos selecionáveis.
— Esse diálogo entre departamentos médicos de clube e seleção, quando eu estava lá de coordenador, você sempre acompanha, mas é um acompanhamento natural, médico, físico, de fisiologia, as duas partes sempre conversando. E tem alguns clubes que aceitam melhor do que outros — relatou.

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Cooperação entre clubes e seleções
Excetuando o período das Datas Fifa, as seleções precisam delegar os cuidados dos atletas majoritariamente aos clubes. Para José Luiz Runco, ex-chefe do departamento médico da Seleção Brasileira, com a qual esteve presente em quatro edições da Copa do Mundo (2002, 2006, 2010 e 2014), o relacionamento entre as duas partes precisa ser pautado em confiança e honestidade, além da boa vontade do atleta para defender ambos com a mesma vontade.
— Quando você tem decência nas suas atividades e respeito entre os departamentos de saúde do clube e da seleção, você nunca vai passar por cima. Você vai, como em qualquer situação médica, dividir opiniões, conversar com outros colegas, externar seu ponto de vista. Mas ninguém vai atropelar ninguém. Eu nunca tive problema com qualquer outra instituição, clube ou até mesmo atleta que pudesse estar mais voltado à sua seleção. Quando o atleta mostra o interesse e você constrói esse relacionamento, a coisa funciona bem. Eu penso que a honestidade e a seriedade evitam qualquer problema — opinou.
Assim como reforçado pelos depoimentos de Juninho Paulista e Roque Júnior, o médico não acredita que os atletas se dediquem menos aos clubes em anos de Copa do Mundo.
— Na minha opinião, o atleta não "tira o pé". Eu acho que ele pode jogar preocupado, mas tirar o pé seria uma atitude deselegante e falta de ética com o seu clube, que é quem paga as suas despesas o ano inteiro. Evidentemente, quando há bom relacionamento entre os departamentos de saúde, o atleta vai poder fazer as suas atividades normalmente no seu clube, exercer todas as suas funções, sabendo, claro, dos riscos que corre — disse.
Runco, no entanto, ressalta que, para aguentar o ritmo de uma temporada intensa finalizada com a disputa do Mundial, o atleta precisa ter ainda mais atenção com os cuidados essenciais.
— O atleta vai precisar minimizar algumas situações, se controlar mais numa atividade paralela que possa ter ou numa noite mais entusiasmada, tentar repousar mais, se alimentar melhor. Porque, na verdade, ele sabe que os combustíveis básicos, a alimentação e o repouso, farão ele desenvolver a sua performance para estar apto para clube e seleção — concluiu.

Copa do Mundo e o calendário de clubes
Na Europa...
- 16/05 a 24/05: desfecho das principais ligas europeias
- 20/05 a 30/05: finais das competições continentais
- 11/06 a 19/07: Copa do Mundo
- 12/08: início da temporada 2026-27
No Brasil...
- 26/05 a 28/05: desfecho da fase de grupos das competições continentais
- 31/05: última rodada do Brasileirão antes da parada
- 11/06 a 19/07: Copa do Mundo
- 22/07: retorno do Brasileirão
Na história: desabafos de quem perdeu um Mundial
David Beckham, Inglaterra (2010): "Eu vi o tendão saltar… a dor foi como se alguém tivesse me dado um chute por trás. Quando senti, eu soube na hora que meu sonho da Copa do Mundo tinha acabado ali."
Filipe Luís, Brasil (2010): "Na hora eu vi o osso fora e pensei: 'Acabou a Copa'. Foi o momento mais duro da minha vida profissional, ver o sonho escorrer pelas mãos num lance de jogo comum."
Falcão Garcia, Colômbia (2014): "Não vou esconder que minha tristeza é enorme, meu coração está despedaçado. Eu contava com uma esperança do tamanho de um grão de mostarda para chegar (à Copa) e ela se apagou."
Dimitri Payet, França (2018): "Eu estava plenamente consciente dos riscos que estava correndo e aceito totalmente as consequências (jogar no sacrifício pelo Olympique de Marseille). O clube está no meu coração e, se fosse preciso fazer de novo amanhã, eu faria sem hesitar."
Laurent Koscienly, França (2018): "A vitória da França me causou mais dano psicológico que minha lesão. Me senti muito feliz por eles, mas também com desgosto. Não pude me sentir campeão do mundo, como seriam 60 milhões de franceses. É uma sensação estranha. Durante a Copa, queria que a França se classificasse, mas ao mesmo tempo não queria."
Marco Reus, Alemanha (2022): "Infelizmente, um outro sonho meu foi destruído (também ficou fora em 2014) e vou ter que aceitar isso. É difícil colocar em palavras o que sinto agora."
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