Muito além do gramado: os desafios invisíveis da integridade nos eSports
A indústria de eSports já alcançou uma dimensão que não permite mais tratar a integridade dessas competições como um assunto secundário

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Quando falamos em integridade esportiva, o futebol ainda ocupa naturalmente o centro da discussão. É nele que estão as maiores competições, os maiores mercados de apostas e uma parte significativa dos casos de manipulação de resultados que chegam ao conhecimento do público. Só que o esporte vem mudando rapidamente, e a indústria de eSports já alcançou uma dimensão que não permite mais tratar a integridade dessas competições como um assunto secundário.
Counter-Strike, League of Legends, Valorant e outros títulos deixaram há muito tempo de ser apenas jogos. Existe hoje uma indústria profissional ao redor dessas modalidades, com organizações, atletas, treinadores, patrocinadores, transmissões e grandes audiências. O mercado de apostas acompanhou esse crescimento e passou a ter uma presença relevante nesse ecossistema, criando também oportunidades para quem tenta explorar financeiramente a competição.
É nesse ponto que começam alguns dos desafios mais interessantes para quem trabalha com integridade. A manipulação de resultados nos eSports não é necessariamente muito diferente, em sua essência, daquela que encontramos em outras modalidades. Alguém identifica uma oportunidade, tenta se aproximar de um participante e procura influenciar determinado evento da competição em benefício próprio. O que muda é o ambiente em que essa abordagem acontece e, consequentemente, a forma como ela pode ser realizada.
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No futebol, durante muito tempo, o contato entre o manipulador e o atleta dependia deuma aproximação presencial ou de canais relativamente tradicionais. Nos eSports, o potencial manipulador pode estar inserido nos mesmos ambientes digitais frequentados diariamente pelos jogadores. Discord, redes sociais, comunidades e diferentes plataformas de comunicação fazem parte da rotina desses atletas e podem ser utilizados para uma tentativa de aliciamento.
Existe ainda uma particularidade importante: não é necessário manipular o resultado de uma partida para gerar lucro com uma aposta. Dependendo do jogo e dos mercados disponíveis, um jogador pode ser abordado para influenciar um mapa específico, uma rodada ou até mesmo um evento pontual dentro da partida. Para quem não conhece a dinâmica dos eSports, pode parecer algo pequeno. Para o mercado de apostas, entretanto, aquele evento pode ter um valor significativo.
Essa característica também aumenta a importância da educação dos atletas. Muitos profissionais começam suas carreiras muito jovens e passam rapidamente de uma rotina de competição amadora para um ambiente profissional, com contratos, salários, exposição e pressão por resultados. Nem sempre existe, no mesmo ritmo, uma estrutura de educação sobre integridade que acompanhe essa profissionalização.
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Tive a oportunidade de observar isso de perto em uma iniciativa de integridade voltada aos eSports no Brasil, realizada com a Vivo Keyd Stars em parceria com a EstrelaBet. Uma das coisas mais importantes nessas conversas é justamente explicar aos atletas que uma tentativa de manipulação nem sempre vai aparecer de forma evidente. Muitas vezes, a primeira abordagem pode parecer apenas uma conversa, uma proposta ou até mesmo uma brincadeira dentro de uma comunidade.
Por isso, não basta dizer ao atleta que ele não pode manipular uma partida. Ele precisa saber reconhecer uma situação de risco, entender por que determinada abordagem é inadequada e, principalmente, ter confiança para reportá-la.
A tecnologia tem um papel importante nesse processo, especialmente nos eSports. A quantidade de dados produzidos durante uma competição é enorme e permite acompanhar, praticamente em tempo real, tanto o comportamento da partida quanto o comportamento dos mercados de apostas. Movimentos anormais nas odds podem ser comparados com o que está acontecendo dentro do jogo e, a partir daí, gerar sinais que merecem uma análise mais aprofundada.
É importante, porém, não transformar essa discussão em uma promessa de que a tecnologia, sozinha, consegue identificar uma manipulação. Um movimento de odds, por mais incomum que seja, não significa necessariamente que houve fraude. Da mesma forma, um comportamento estatisticamente diferente do esperado pode ter diversas explicações. O valor está justamente em combinar dados, conhecimento da modalidade, informações do mercado e investigação para entender o que realmente aconteceu.
Essa é uma área em que os eSports também podem contribuir para o esporte tradicional. A velocidade com que os dados são gerados e a possibilidade de cruzar diferentes fontes de informação em tempo real criam possibilidades para o monitoramento de competições. Algumas dessas metodologias já ultrapassaram o universo dos jogos eletrônicos e passaram a ser utilizadas de forma mais ampla na análise de integridade esportiva.
Ao mesmo tempo, os eSports ainda têm espaço para desenvolver estruturas institucionais mais maduras de proteção das competições. O esporte tradicional levou décadas para construir códigos de conduta, canais de denúncia, mecanismos disciplinares, programas educacionais e modelos de cooperação entre diferentes organizações. Não é necessário repetir todo esse caminho para criar uma estrutura sólida nos eSports, mas é importante aproveitar o conhecimento que já existe.
O ponto central, na minha visão, é que integridade precisa acompanhar a profissionalização da modalidade. Quanto maior o número de atletas, competições, patrocinadores, espectadores e dinheiro envolvido, maior também é a necessidade de criar mecanismos capazes de proteger a competição.
Isso significa investir em educação desde o início da carreira dos jogadores, estabelecer canais claros de reporte, criar protocolos para lidar com suspeitas e aproximar organizações, operadores, empresas de tecnologia e entidades esportivas. Nenhum desses elementos funciona isoladamente. A proteção de uma competição depende justamente da capacidade de diferentes partes do ecossistema compartilharem informações e atuarem de forma coordenada.
Os eSports ainda são uma indústria relativamente jovem quando comparados ao futebol e a outras modalidades tradicionais. Isso representa um desafio, mas também uma oportunidade. É possível construir estruturas de integridade desde cedo, antes que determinados problemas se tornem parte da cultura da modalidade.
No fim, a discussão sobre integridade nos eSports não é tão diferente daquela que fazemos no futebol. O ambiente é outro, a tecnologia é diferente e as formas de manipulação podem assumir novas características, mas a lógica permanece: quando existe dinheiro envolvido em uma competição, haverá pessoas tentando encontrar maneiras de explorar suas vulnerabilidades.
A responsabilidade de quem trabalha com integridade é justamente identificar essas vulnerabilidades antes que elas comprometam a credibilidade do esporte. Nos eSports, esse trabalho ainda está em uma fase de construção. E talvez seja justamente por isso que exista uma oportunidade tão grande de fazer diferente.
Felippe Marchetti é doutor em integridade e medidas anticorrupção no esporte. Atua como Diretor de Integridade da Sportradar na América Latina.
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