Análise tática do Guffo: por que Zubeldía foi demitido do Fluminense
Técnico perdeu peças que davam fluidez ao sistema, mas não conseguiu reinventar o time

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A demissão de Luis Zubeldía do Fluminense era uma questão de tempo, e o tempo chegou rápido. Os números são cruéis: 41% de aproveitamento nos últimos 24 jogos, uma vitória nos últimos dez, sete partidas pós-Copa do Mundo com seis empates e uma derrota para o Vasco no clássico que selou a eliminação. Mas os números só contam metade da história. A outra metade está no olhar fundo do treinador na coletiva, na prancheta virada para jogadores que olhavam para o lado, numa escalação inédita e desesperada num jogo de mata-mata da Libertadores que não surtiu choque nenhum. Quando o técnico precisa gritar "mira cá" para chamar atenção de atletas desligados, a relação está rompida.
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O mecanismo do fracasso tem raiz tática clara. O Fluminense de Zubeldía no primeiro semestre foi, em determinado momento, o futebol mais bonito do Brasil. Troca de posições, laterais vindo para dentro, volantes pisando na área, posse com objetivo. Funcionava. A queda começou com a lesão de Martinelli, acelerou com a perda de Acosta e se aprofundou com a lesão de Kennedy. O time perdeu as peças que davam fluidez ao sistema e, em vez de se reinventar, desandou. O futebol coletivo virou sombra de si mesmo.
Hulk virou um problema
A chegada do Hulk agravou o problema em vez de resolvê-lo. O centroavante foi escalado como parede estática, sem mobilidade, e o time ficou ainda mais previsível. Quando Hulk jogou aberto na ponta, o time perdeu referência. Quando virou 9 no intervalo, jogou de costas para o gol sem o encaixe tático que Zubeldía não conseguiu ajeitar. O Fluminense virou um time dependente de brilho individual dos pontas e de chutes de média distância. Sem centroavante efetivo e sem construção coletiva, o modelo perdeu identidade.

E aqui está o ponto que me parece mais grave: o trabalho do Zubeldía chegou em um certo ponto e depois começou a involuir. Existe uma diferença entre atingir o limite e regredir. O Fluminense estava regredindo a cada jogo. A escalação contra o Independiente Rivadavia foi o sintoma definitivo. Deixar Acosta e Canobbio no banco num jogo decisivo de Libertadores, montar uma equipe inédita no mata-mata, é o tipo de decisão que um técnico toma quando já perdeu a confiança no próprio modelo e tenta um choque de realidade que não vem. Os jogadores entraram sem energia, o time não desempenhou, e Zubeldía teve que voltar atrás durante a partida.
Os bastidores confirmam o que os olhos viam em campo. Zubeldía chegou ao fim abatido, farol baixo, olheira marcada, voz baixa. Na coletiva, disse que "a última decisão é do jogador dentro de campo" e que "temos bons jogadores". Esse tipo de frase, vinda de um treinador, é um recado direto ao elenco. É o técnico que para de proteger os atletas na frente da imprensa. Quando isso acontece, o vestiário entende o recado e a relação se estremece de vez. A dedicação defensiva, a fome de recomposição, a aplicação na ideia de jogo, tudo cai junto com a confiança.
Erro de timing da direção tricolor
A diretoria tricolor cometeu um erro de timing. Se ia demitir, deveria ter feito na pausa da Copa do Mundo. Deu uma chance ao argentino, o que em princípio é respeitável, mas a chance resultou em sete jogos de mediocridade, eliminação para o rival no clássico e um 0 a 0 em casa contra o Independiente Rivadavia que agora obriga o time a decidir classificação na Argentina sob comando interino. A manutenção do trabalho só faz sentido quando o trabalho se mantém. Quando ele involui, segurar é arriscar a temporada inteira.
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O Fluminense agora precisa de um técnico que recupere identidade, reencaixe o Hulk num sistema que faça sentido e devolva aos jogadores a vontade de defender. O risco de seguir sem rumo é perder a vaga na Libertadores 2027 e ver o elenco se desmontar. A expectativa é que a diretoria acerte na escolha, porque o tempo de reconstrução é curto e o mata-mata sul-americano não perdoa time sem alma. Zubeldía demostrou que era um bom treinador, mas o futebol não premia o que você foi. Premia o que você é. E o Fluminense de Zubeldía, não era mais.

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