Libertadores x Liga dos Campeões: Hora de mudar

Nas últimas duas edições, o LANCENET! expôs algumas das falhas da Libertadores, como a falta de transparência da Conmebol, organizadora da competição, que não divulga nem para os clubes o quanto ganha de patrocínio e direitos de televisão. Ou problemas de estrutura e organização, impedindo que os clubes lucrem mais com os jogos, como ocorre na Liga dos Campeões.
Para tentar resolver esses problemas, consultamos especialistas em marketing e jornalistas sul-americanos. O resultado você vê a seguir, na última parte do especial Libertadores x Liga dos Campeões.
Há várias ideias (leia mais abaixo), como a divulgação dos números financeiros da Libertadores pela Conmebol, a instituição de suspensão disciplinar por conta de amarelos, a punição aos torcedores brigões (e torcidas violentas) e a adequação do calendário sul-americano ao europeu para minimizar a perda de jogadores em momentos inadequados da temporada.
Além disso, a diminuição do número de concorrentes que jogam a Libertadores e a proposta para receber os clubes dos Estados Unidos no torneio também são discutidos.
Principais falhas da Libertadores
Transparência
Os clubes que disputam a Libertadores não têm ideia do quanto a Conmebol recebe de direitos de televisão e patrocínios. Falta à organização divulgar os números.
Estádios
Repleto de problemas, os estádios acabam minimizando o poder de compra dos próprios torcedores, que não consomem nada durante o jogo.
Disciplina
Na Libertadores, um cartão amarelo só dá punição monetária e não disciplinar. Isso incentiva os jogadores mais violentos e deixam os craques desprotegidos.
Continuidade
A presença do presidente Nicolas Leoz, há 26 anos no poder e com cargo vitalício, impede o aparecimento de novos políticos, com ideias diferentes e que possam revitalizar a Conmebol.
OPINIÕES - jornalistas sul-americanos e europeus
Patricio de la Barra, repórter da Rádio Cooperativa de Chile (CHI)
"A seleção dos competidores precisa ser mais rigorosa. Poderiam se classificar apenas o campeão e o vice de cada país, times que tenham mais torcida, o que elevaria o nível e a visibilidade. No Chile temos três grandes, La U, Católica e Colo Colo. Unión Española tem estrutura, mas a torcida é bem pequena. E várias vezes a gente vê estádios pequenos, estrutura precária, e isso acaba por tirar um pouco a credibilidade do
torneio.
A ideia é aumentar o nível. Não é massificar. E a Conmebol poderia buscar fórmulas para limitar ou proibir as ações das torcidas organizadas. A violência e o vandalismo não podem mais ser protagonistas da Libertadores. Sem eles, os clubes poderão levar mais torcedores e arrecadar mais"
Demián Meltzer, repórter do "Diário Olé" (ARG)
"Creio que a solução fundamental passa pela redução do número de clubes participantes. Poderia ser reduzido à metade como era no passado, classificando somente as duas melhores equipes de cada país. Assim o nível técnico aumentaria consideravelmente. Óbvio que isso vai totalmente contra a política da Conmebol de agradar as federações nacionais mais fracas. Os mexicanos devem jogar a Copa de sua Confederação. Afinal, não são os melhores clubes do Mexicano que disputam a Libertadores.
Por fim, acredito que o sorteio da Libertadores deveria ser dirigido ao modelo da Liga dos Campeões. Sem a possibilidade de clubes do mesmo país caírem na mesma chave na primeira fase"
Jorge Savia, repórter do jornal "El País" (URU)
"Há muito o que fazer. Melhorar a estrutura dos estádios, por exemplo, apesar de saber que isso não é não é fácil. Para isso, a maioria dos clubes sul-americanos precisará de ajuda financeira. Só que a Conmebol pode muito bem aumentar os prêmios que dá aos clubes. Temos de saber o quanto a organização ganha com a Libertadores. A transparência nos permitirá saber se os prêmios são justos ou se a Conmebol embolsa esse dinheiro todo.
A curto prazo o que pode se fazer para melhorar o nível técnico é começar a punir de forma decente o excesso de amarelos. Uma suspensão após um certo número de cartões é tão comum que muita gente não acredita que em um torneio importante como a Libertadores haja apenas multa."
Gabriel Cazenave, editor do jornal "ABC COLOR" (PAR)
"A principal mudança que pode ser feita para ajudar a Libertadores é a mudança do calendário. É bom seguir o modelo europeu, para evitarmos perdas de jogadores para o mercado europeu em momentos inoportunos. Mas o mais importante é a fixação de datas desde o começo da competição, definir um local da final como ocorre na Liga.
Sou muito fã da ideia de uma final em jogo único e em campo neutro. Não sabemos quando e onde será a final da Libertadores e já estamos quase nas quartas! Essa indefinição fere o produto que pretende se vender para outros mercados. A Libertadores tem potencial enorme. Se fosse mais organizada, tornaria-se um produto atraente para mercados da Ásia e da Europa"
Tim Vickery, especialista em futebol sul-americano para a BBC (ING)
"A questão da transparência é muito importante, até para que não exista nenhum tipo de escândalo e a Conmebol tenha total credibilidade. Mas a questão dos estádios também é alarmante. A violência é cultural em setores de algumas torcidas organizadas. O mesmo acontecia na Inglaterra e creio que só pode ser mudado com a mudança da estrutura dos estádios. É um problema de arquitetura. Na maioria os estádios sul-americanos, os torcedores ficam muito perto dos jogadores e não há policiamento necessário para contê-los.
A curto prazo é difícil termos soluções definitivas, mas creio que, em caso de violência fora de campo (e dentro também), os dirigentes dos clubes precisam ser mais responsabilizados"
Norte-americanos na Libertadores. Solução?
O flerte entre a MLS (Major League Soccer) e a Conmebol existe há tempos. O próprio presidente sul-americano Nicolas Leóz confirmou, ao LANCE!, que gostaria de receber times norte-americanos para a disputa da Libertadores.Com um mercado em franco crescimento (veja números abaixo) e cada vez mais recheado de estrelas (Beckham e Henry devem receber a companhia de Ballack na próxima temporada), a MLS pode ser uma alternativa eficaz para que os clubes aumentem suas rendas e a própria competição passe a ter mais dinheiro para distribuir entre
seus próprios representantes.
Para que uma fusão com o futebol norte-americano dê certo, porém, é preciso retirar alguns malefícios da competição, explica Amir Sommogi,
especialista em marketing:
– É uma punição um time mexicanos não conquistar a vaga no Mundial via Libertadores. Dessa forma, não entram com seus principais jogadores e isso diminui o poder de atração da competição no México. Para que os americanos entrassem, esse direito teria de lhes ser garantido. Isso daria uma maior atenção do público e dos clubes.
No entanto, nem tudo são flores. A distância entre Canadá (que tem times disputando a MLS) e Argentina, por exemplo, é grande. Para efei-
to de comparação, um time russo que precise jogar na Inglaterra (a maior distância na Liga) faz a viagem de 2.508 km em 3h de voo. Uma
viagem Montreal-Buenos Aires (8.996 km) é feita num voo de 11h.Há também um problema de calendário. A temporada nos EUA se inicia em abril, enquanto a Libertadores tem seus primeiros jogos ainda em janeiro. E aí, vale a pena?
OPINIÕES
Vale a pena trazer o futebol dos Estados Unidos para a Libertadores?
"Não. Sou a favor de eles terem a própria hegemonia. Até porque a vinda dos americanos enfraqueceria o futebol em países da América Central, que precisam se desenvolver"
Tim Vickery, da "BBC" (ING)
"Sim. Os times americanos podem ajudar na massificação do torneio. Equipes como o Galaxy de Beckham ajudariam a valorizarm o nome da Libertadores"
Patricio de la Barra, da Rádio Cooperativa do Chile
"Sou contra o convite a clubes dos Estados Unidos. Eles não acrescentariam nada tecnicamente e a Conmebol, do jeito que é hoje, não aproveitaria o potencial de marketing"
Demián Meltzer, do "Olé" (ARG)
"É algo que tem que ser visto com muito cuidado. Sou a favor de trazerem os americanos, mas que eles possam ter todos os direitos e não se faça como fazemos com os mexicanos"
Gabriel Cazenave, da "ABC COLOR" (PAR)
PRÓS E CONTRAS:
Pontos positivos:
Marketing
Os americanos sabem fazer marketing como poucos. Astros como Beckham e Henry ajudariam a encher estádios. Outros veteranos conhecidos devem ir para os Estados Unidos em breve.
Mercado
Com a inclusão da MLS, abre-se um mercado importante, não só de americanos, mas com latinos residentes nos Estados Unidos, apaixonados por futebol.
Pontos negativos
Distância
Uma viagem para os Estados Unidos, a exemplo do México, é muito longa e desgastante. A organização teria de acertar o calendário para minimizar a distância.
Benefício
Para ajudar a atrair os clubes norte-americanos, a Libertadores não pode dar os mesmos benefícios aos mexicanos. É uma punição desportiva que os times do México sejam proibidos de ter vaga no Mundial via Liberta.
Números da MLS
Média de público
Estudo da "Deloitte" surpreendeu ao expor os números de média de público da MLS. A liga americana tem média superior ao Brasileirão (17.872
contra 14.976). Além de superar a Série A, a MLS também chegou a ficar na frente da NBA (basquete) e da NHL (hóquei), que tiveram temporadas regulares com médias de público abaixo de 17.500.
Direitos de TV
Em 2005, a Fifa assinou um contrato milionário para transmitir jogos da MLS de 2007 a 2014. A organização mundial pagou aos americanos 425
milhões de dólares (quase R$ 1 bilhão na cotação da época) pelos direitos de transmissão nesse período. Outros contratos têm sido mais modestos, com a Liga assinando um compromisso recente de 30 milhões de dólares (R$ 57 milhões) por três anos. A chegada de Beckham ao
Galaxy permitiu que a negociação de direitos mais lucrativos.. Mesmo assim, os valores são modestos se comparados ao do Brasileirão.
Mercado de latinos
Além de mostrar números em crescimento, a Major League Soccer ainda tem um mercado pouco explorado pelo futebol: o de latinos residentes nos Estados Unidos. De acordo com o especialista em marketing esportivo Amir Somoggi, há cerca de 70 milhões de latinos que consomem futebol nos Estados Unidos.
– Há um expoente muito grande de latinos que gostam de esportes. Dentre esse mix, a nacionalidade mais forte é a mexicana, que tem uma cultura muito ligada ao futebol. Com isso, clubes como Flamengo, Santos, Corinthians, Boca Juniors poderiam invadir esse mercado, ativar ainda
mais o interesse dos latinos no futebol e também "converter" americanos que antes não se interessavam pelo "soccer".
Para Somoggi, o modelo igualitário da MLS significa que os clubes sul-americanos são mais ricos e, portanto, têm mais capacidade de conseguir "novos" torcedores:
– Na MLS tudo é negociado pela Liga e dividido de forma muito igualitária. Os valores ainda são modestos. Dessa forma, um clube com a força do Corinthians ou do Flamengo poderia até criar uma franquia por lá. É claro que não vale a pena, mas a Libertadores seria uma porta de entrada nesse mercado ainda pouco explorado. Os fãs de futebol veriam os times sul-americanos ao vivo e poderiam se tornar torcedores ou consumir produtos do clube.
Colaboraram Raphael Martins e Thiago Correia

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