L! Com a palavra: Carlinhos foi um craque de bola

*Colunista do LANCE!
Luis Carlos Nunes da Silva, conhecido como Carlinhos Violino foi um craque de bola, e como se não bastasse, cismou de contrariar um mito do futebol, o de que grandes jogadores não conseguem se transformar em técnicos de sucesso. Nenhum outro na história do Flamengo conquistou mais títulos ocupando tal cargo. Vamos lá. Três vezes o Brasileiro, 1983, em dado momento como interino, 1987 e 1992, três o Estadual, 1991, 1999 e 2000, a Copa Mercosul de 1999, Taça Guanabara em 1987, 1988 e 1999, e a Taça Rio de Janeiro em 1991 e 2000, sem contar torneios nacionais e internacionais.
Carlinhos começou a ganhar destaque nas divisões de base do clube. E em 1958 já estava no time de profissionais. Curiosamente, estreou e encerrou a carreira no clube com derrotas. Começou em 13 de abril de 1958, perdendo por 4 a 0 para o Bangu-RJ, num amistoso, e atuou pela última vez em 9 de novembro de 1969, 3 a 1 para o Botafogo-RJ, pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, no Maracanã. Mas foram 516 partidas, e é hoje o oitavo craque com mais jogos pelo vermelho e preto, atrás apenas de Júnior (876), Zico (732), Adílio (617), Jordan (609), Andrade (568), Cantarelli (557) e Leonardo Moura (519). Foi campeão carioca em 1963 e 1965, num tempo em que as conquistas regionais eram absolutamente relevantes, e do Rio-São Paulo de 1961, superando o Corinthians-SP, 2 a 0 no Maracanã, num período em que o Santos de Pelé ganhava quase tudo.
Num resumo, Carlinhos venceu 277 vezes, empatou 112 e perdeu 127. E entre tantos títulos, levantou pelo menos dois épicos na trajetória rubro-negra. O Carioca de 1963, como jogador, no empate de 0 a 0 no Fla-Flu que é, ainda hoje, a partida entre clubes de maior público da história do futebol: 177.020 pagantes. E o Brasileiro de 1987, quando formou o último grande esquadrão que o Flamengo ostentou: Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Aílton, Zico, Renato Gaúcho, Bebeto e Zinho. Aldair, queiram crer, era reserva. Desses 12, quatro acabaram como campeões mundiais pelo Brasil em 1994, nos EUA: Leonardo, Bebeto, Zinho, e o próprio Aldair.
Carlinhos nasceu no Rio em 19 de novembro de 1937. E foi de um tempo em que o primeiro homem de meio-campo, hoje chamado de volante, ou pior, numa linguagem rasteira, de brucutu, tinha a capacidade de sair jogando com elegância, sem errar passes, evitando os chutões que agridem o espetáculo. E ainda se arriscava no ataque, assinalando gols - fez 23 - ou deixando os companheiros em condições de marcá-los. Daí o apelido, que se encaixou com perfeição no seu estilo, numa homenagem de Waldir Amaral, um dos maiores locutores de todos os tempos,.
Curiosamente, fez apenas uma partida pela Seleção Brasileira, em 4 de junho de 1964, na goleada de 4 a 1 sobre Portugal, no Maracanã, pela Taça das Nações. Vejam o timaço: Gilmar, Carlos Alberto Torres, Brito, Joel Camargo, Rildo, Carlinhos, Gérson, Jairzinho, Aírton Beleza, Pelé e Rinaldo, depois Zagallo. Destes 12, à exceção de Carlinhos, Aírton Beleza e Rinaldo, todos foram campeões mundiais. A pequena presença dele na Seleção se explica pela concorrência, ditada pela quantidade de craques que havia na sua época, e pela obrigação que os treinadores tinham de equilibrar as convocações com jogadores do Rio e de São Paulo. Na realidade, vestir a camisa do Flamengo era, para Carlinhos, mais importante do que a verde e amarela. Tanto que fez a sua carreira praticamente inteira pelo clube, como jogador e como técnico, e frequentou no seu cotidiano, e enquanto a saúde permitiu, a sede da Gávea.
Quem dera o Flamengo possuir hoje 11 Carlinhos em campo, outro no banco, e mais um, no bate-papo diário do clube. Quisera que ele fosse imortal para viver a sua própria e eterna glória.
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