Aniversariante, Claudinei diz: 'Como técnico, não sei o que é fracassar'
Ninguém, nem mesmo Claudinei Oliveira, imaginava que 2013 seria um ano tão revolucionário na carreira dele. Neste domingo, o treinador completa 44 anos e não tem dúvidas em dizer que este é o melhor ano de sua vida profissional.
O aniversário será longe da família e o presente ideal, uma vitória do Santos sobre o Atlético-MG, no Independência, às 18h30. Um triunfo recoloca o Peixe na briga pelo G4, sonho de Claudinei. Porém, após uma temporada tão boa, ficar fora da competição sul-americana não é considerado um fracasso para ele.
– Acho que podemos conquistar alguma coisa, mas não prometo nada. O Brasileiro é difícil e estou aprendendo a disputá-lo. Independentemente disso, acho que já fui bem-sucedido nessa minha experiencia – disse, em entrevista ao L!Net.
Claudinei tem uma carreira curta como técnico, mas muito vencedora. Foi campeão em todas as categorias de base do Peixe que dirigiu, sub-15, 17 e 20. Por isso, deixa a modéstia de lado e fala que não sabe o que é o fracasso. Porém, tem certeza de que um dia sentirá esse gosto amargo.
No bate-papo que teve com a reportagem do LANCE!, na última sexta-feira, no CT Rei Pelé, Claudinei comentou sobre seu estilo como treinador, o que mudou desde que assumiu o Peixe no fim de maio, relembrou momentos difíceis à frente da equipe e projetou o futuro. Confira:
Desde que assumiu o Santos, mudou o pensamento sobre o papel do treinador de futebol?
Não, ainda é a mesma. Acho que o técnico tem importância, é o cara que mais se preocupa com o dia a dia. Eu joguei e sei que o atleta treina e só vai pensar em futebol de novo no dia seguinte. E olhe lá! O técnico, não, já está pensando em qual vai ser o próximo treino, olha o material sobre o adversário, analisa, vê se tem alguém suspenso, pensa no próprio time, elabora o treino do dia seguinte... A importância do técnico é no trabalho da semana, quando o calendário permite, é claro. Aí é 70% do treinador e 30% dos jogadores. Na partida, inverte, o time tem maior importância. Cabe a mim mexer no time, fazer uma ou outra modificação, falar com os jogadores. A importância do técnico é grande, mas no jogo quem faz acontecer são eles.
Já houve alguma partida em que você acredita ter maior importância no resultado, aumentando esse percentual de 30%?
Não é dizer que fui determinante, mas algumas substituições que fiz tiveram sucesso instantâneo, como o Giva contra o São Paulo ou o Renato Abreu contra o Inter, que fizeram gols. Só que eles fizeram dar certo, não eu. Teve outras situações que mexi no vestiário... Vejo situações que mudei e deu certo, mas depende do atleta, de como ele entra no jogo.
Você faz aniversário no domingo. É o primeiro que passa longe da família sendo técnico?
Não, já passei um monte, e até sem ter alguém da família, na época de solteiro. Ano passado, se não me engano, estava em Rio Preto e perdemos de 4 a 2 em um jogo horrível. Espero que isso não se repita (risos).
Claro que a vitória sobre o Galo seria um grande presente. Tem alguma outra coisa que queira ganhar?
Não dá para pedir mais presentes, tenho só que agradecer. No ano passado participei de um programa em uma TV local de Santos e me perguntaram o que eu pediria no centenário do Santos. Eu falei que só de dirigir uma categoria do clube num ano importante como esse era um privilégio. Ano passado ganhei o Paulista Sub-20, e esse ano a Copa São Paulo... Meu presente Deus tem me dado ao longo desse tempo no Santos.
Profissionalmente, é o melhor ano de sua vida, imagino...
Desde que assumi o sub-15, em 2009, eu só progredi. A gente perde alguns jogos, lógico, como em 2011, quando eu não fui campeão. Mas era auxiliar do sub-17, virei técnico do sub-15, subi para o sub-17, depois sub-20, sendo campeão em todos. É até chato falar, mas eu não conheço o fracasso como técnico! Sei que um dia vou conhecer o fracasso, o insucesso. A gente trabalha pra que isso não aconteça nunca, mas sei que vou oscilar. Profissionalmente, o ano que estou tendo, a oportunidade de aprender a cada dia, até com vocês da imprensa... é o melhor. Se eu falar que imaginava que ia ser técnico do Santos em 2013, estaria mentindo.
Sua vida mudou muito desde junho? Deixou de fazer coisas ou frequentar lugares que gostava?
Até hoje não precisei deixar de fazer nada. Quando aconteceu, foi porque fiquei chateado com alguma coisa, que o time foi mal ou perdeu, aí pedi para ficar em casa. Mas vou levar meu filho na escola sempre que posso, vou na padaria quando dá...
Costuma ser cornetado?
Tem um comentário ou outro. Geralmente, 80% ou 90% das pessoas que vêm falar comigo elogiam o trabalho, falam que estão torcendo para dar certo. Alguns falam que o time não foi bem, que tal jogador esteve mal, mas nada agressivo. Até quando a Torcida Jovem esteve no CT, depois do jogo contra o Barcelona, eles foram super tranquilos, não houve agressividade. Conversei com eles e o que falaram foi uma coisa normal. O torcedor quando vai a campo quer ver o time vestindo a camisa com amor, raça, e incentiva quando percebe isso incentiva. É isso que estamos vendo aqui no Santos.
Aquela goleada para o Barça fez você perder o sono?
Perco o sono depois de todo o jogo, ganhando ou perdendo vou dormir 4h ou 5h, quando o jogo é de noite. Isso desde a época que eu jogava (era goleiro). A adrenalina vai lá em cima, então procuro algum filme pra assistir ou vejo o VT dos outros jogos. Fico muito acelerado. Quando ganha, pela felicidade, quando perde, com a cabeça quente, pensando.
Pensou que suportaria a pressão após o vexame na Espanha?
Tem uma coisa que está na Bíblia: cada dia com o seu mal. Não me preocupo ou sofro por antecipação, achando que as coisas vão dar errado, vivo a cada dia. Se não der certo, paciência, ficamos chateados, abalados, mas tem outro jogo e tem que jogar. Não adianta ficar remoendo aquele resultado, senão não vai sair do lugar. Tem que motivar os jogadores e foi o que fizemos depois da derrota para o Barcelona. Pegamos o Corinthians, sofremos um gol no primeiro ataque deles, logo no começo, e a gente atacou o Corinthians a partida inteira, criamos mais chances, empurramos eles para o campo de defesa, o que é difícil ser feito. É claro que ninguém vai esquecer aquele resultado, como não esqueceram os 7 a 1 (para o Corinthians, em 2005), mas, para mim, ficou bastante marcado o poder de reação do grupo.
Não temeu ser demitido?
Não temo nada, já passei por situações bem mais adversas. Se amanhã ou depois eu sair do Santos, vou ficar chateado, pois estou desde 2006 trabalhando no clube, sendo essa a minha quinta temporada como técnico. Sentirei falta das pessoas, do ambiente, mas a vida segue, tem que estar preparado para tudo. Como técnico do Santos, tenho que saber que, se uma sequência ruim acontecer eu estarei sujeito a sair. Independentemente do que acontecer, não vou considerar minha passagem pelo Santos ruim ou como um fracasso. O time hoje está em sexto, poderia estar em quinto, não é uma campanha ruim. Sempre quero que o time jogue melhor, que tenha alternância de esquema tático, mas infelizmente não temos contado com todos os jogadores. Prova disso é que não repeti o time até hoje. Às vezes, é por opção minha, mas a maioria é porque alguém recebeu o terceiro cartão, está machucado ou mesmo na seleção.

Ficar fora do G4 é um fracasso?
Mesmo que aconteça algo e eu saia amanhã ou depois, não julgo um fracasso. O momento que assumi era complicado, com o Neymar e o Rafael saindo. Depois, perdemos o Montillo, nosso principal jogador, para a seleção argentina e machucado. Eu acho que o que fizemos até agora é bom, embora longe do ideal do torcedor santista, que gosta de um futebol bonito, ofensivo, que encha os olhos. Ainda não atingimos isso, embora tenhamos chegado perto em alguns jogos. Somos a única equipe que não perdeu ou sofreu gols do Cruzeiro no Mineirão, por exemplo. Acho que é uma coisa super positiva. Pelo pouco de experiência que tenho, estou bastante satisfeito. Vemos treinadores com mais bagagem e até melhores elencos não encaixando.
Mas dá para melhorar, né?
Vou buscar algo a mais para agradar a exigente torcida. Vai ter o momento de procurar a excelência de performance, mas agora é hora de manter os pés no chão, saber que temos um elenco jovem. Pelo grupo que a gente tem, não pela qualidade, mas pela inexperiência, creio que onde a gente está hoje é satisfatório.
Esta está sendo a sua primeira experiência como técnico de time profissional. O que mais lhe surpreendeu até agora?
O grupo de jogadores. Antes de assumir não sabia como era o elenco. Vim comandar um grupo heterogêneo, com jogadores experientes, alguns que passaram por seleção e não estavam bem, jovens em boa fase... Mas encontrei um ambiente muito bom. Da mesma forma que trabalhei na base, estou trabalhando aqui, com honestidade, um ambiente descontraído, de confiança... Todos são comprometidos. Alguns falavam: "O cara assumiu o profissional e vai ter problema com jogador bicudo, ou panelinhas para derrubar". E eu assumi o grupo fragilizado, era interino, só ia ficar até a pausa da Copa das Confederações... Isso surpreendeu.
Para não perder o controle do grupo e o bom ambiente, adiou algumas mudanças no time?
Tem jogadores que têm histórico de conquistas, eles merecem um credito a mais que os outros, não é um jogo ruim que vai tirá-los do time. O Gustavo Henrique, por exemplo, está bem, em um momento melhor que o Durval, já o Léo resolveu sair da lateral. Eles são jogadores comprometidos, com história, mereciam uma continuidade maior. Eu trabalho dessa forma, dando confiança.

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