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Em alta no futebol, Levir Culpi reforça revolta política: 'Quero ir pra rua'

Levir Culpi está em alta. Atual campeão mineiro, o treinador vê agora o Atlético-MG como uma das equipes a serem batidas no Brasileirão. A principal equipe, talvez. No entanto, ele ainda não enxerga nenhum time realmente bom na competição nacional. Nem o próprio Galo.

A briga de Levir é ver o Atlético-MG jogar bonito, nem que para isso o resultado final seja a derrota. Mas as brigas do treinador vão além das quatro linhas. Figura pública e respeitada dentro do futebol, ele pretende cada vez mais se posicionar politicamente. Quer ir às ruas protestar.

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LANCE!: Os adversários têm dito que o Atlético-MG é o melhor time do Brasileirão. Como vê os elogios?
Levir Culpi: O pessoal está gostando do futebol do Atlético. Isso é gostoso de saber. Tenho prazer de trabalhar em um time que prioriza a parte da técnica, o ataque e as vitórias. Isso tudo leva a uma resposta: não se chega a um time assim sem jogadores de qualidade. O elenco que proporciona isso. Se o Galo mantiver essa base, a probabilidade de dar certo neste ano ou no ano que vem é muito boa também.

LANCE!: Acredita que um time só tem sucesso se mantiver a base?
Levir Culpi: Lógico, é um pensamento lógico, baseado em estatísticas. Não tem nenhum time bom no Brasil hoje. Por quê? Porque a gente não sabe a escalação de nenhum. Ter a variação de dois ou três jogadores é normal, porque existem lesões e suspensões. Antigamente, não querendo ser saudosista, você pegava Dorval, Coutinho, Pelé e Pepe. O time do Santos estava na boca de todos. Hoje não existe mais continuidade. Agora os meninos têm saído antes mesmo de chegar ao profissional. Isso gera um desequilíbrio enorme, é uma situação incontrolável. Quem tiver peito para bater de frente e mantiver uma base de dois ou três anos, vai ter os mesmos resultados de Barcelona e Real Madrid.

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LANCE!: Você peita e bate de frente com dirigentes para manter a base?
Levir Culpi: Já fiz muito isso. Os dirigentes sabem como eu sou. Converso muito sobre isso, sobre a formação do time. Sei que às vezes precisa vender um para pagar outro. Eu digo que é ruim, mas vou aceitar porque é preciso salvar o clube. Não sou radical, mas defendo as minhas ideias. E tem também os atletas que o clube não quer se desfazer, porque são ídolos. Mas eu não os quero. É uma situação difícil. Preciso me posicionar e dizer que, com ele fora, será melhor. Se puder tirar, melhor. Se não puder, vou conviver com ele. Se me derem a seleção com os melhores jogadores, ótimo. Se me derem um time com um monte de desconhecidos, vou treinar os onze desconhecidos.

LANCE!: O que falta para o Atlético-MG se tornar um "time bom"?
Levir Culpi: Fico reticente com perguntas assim. Nós não temos um time bom ainda. Os atletas são bons, mas o time tem muita falha, na frente e atrás. Eu, às vezes, não tenho um time titular na cabeça. Precisamos melhorar em muitos aspectos. Só agora no Brasil que começamos a jogar com as linhas encurtadas. A Fifa determinou a medida 105x68 para os gramados. Ficou muito mais compacto, bola rápida, espaço encurtado... Isso deixou o jogo melhor, para atacar e defender. É uma cultura futebolística nova aqui. Nosso time não tem entrosamento, muita coisa ainda não dá certo.

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LANCE!: Vai dar tempo para o futuro campeão do Brasileirão, seja o Galo ou não, ter um "time bom"?
Levir Culpi: Dá, dá... Se a gente tiver uma regularidade, sim. Vão falar que a gente teve o time mais regular do campeonato. É um mérito. O Cruzeiro, por exemplo, ficou com o mesmo elenco dois anos. Era um time com coordenação. Não era um puta de um timaço, mas era o melhor time, porque manteve a base.

LANCE!: Você sempre exalta o "futebol bonito". Perder jogando bonito é algo que te deixa satisfeito?
Levir Culpi: Sim, é a única situação em que fico legal no futebol. Quando o meu time perde, mas joga bem, durmo tranquilo. Pô, você ouve as pessoas dizendo que o time jogou muito, que poderia ter vencido... Aí que durmo tranquilo mesmo. É ruim quando ganho jogando mal. Não gosto, não gosto mesmo. A sensação dos três pontos é ótima, mas o gostoso é sentir o prazer de ter jogado muito... Prefiro ver o time jogando bem. A gente sobrevive de vitórias, eu sei, mas a arte no futebol é o que te dá prazer.

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LANCE!: Você retornou ao Brasil em 2014 depois de seis anos no Japão. Cansou de ser chamado de "técnico ultrapassado"?
Levir Culpi: Ouvi muito a frase: "O cara está fora do futebol brasileiro, ele não sabe de nada". Admito, eu acompanhava muito pouco. Mas o grande engano dos ignorantes é que eu não fui ao Japão para ensinar. Eu fui lá para aprender. Eles são muito mais bem organizados do que nós. Muito mais. Tudo o que funciona em volta do futebol japonês dá certo e é melhor do que aqui, tudo. Eu só aprendi lá. Voltei e muitos acharam que eu tinha esquecido o que era futebol. Como assim? O Japão joga no sistema europeu, que é o encurtamento das linhas. A gente nunca esquece tudo, assim como nunca sabe de tudo.

LANCE!: Assustou-se com o nível dos treinadores no Brasil quando voltou? Eles estão atrasados?
Levir Culpi: (Assustado) Não muito. Talvez eles não tenham tido a mesma chance que eu. Penso o seguinte: ninguém faz hoje um trabalho que ninguém sabe. Entende? Milan, Bayern... O que eles fazem lá a gente pode ter aqui, basta comprar e colocar em prática.

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LANCE!: Vê como "modismo" quando os treinadores brasileiros vão para Europa passar dias vendo treinos e jogos?
Levir Culpi: Acho. Ficar passeando lá? Eu já fiz isso, aliás. Mas não agrega nada de diferente. Agora, se você faz um curso da Fifa, de três anos, aí é outra história. Peguei recentemente um vídeo na internet, é um bobinho do Bayern. Quem está no meio não pega a bola, é muito rápido, eles não erram. Isso é fruto da posse de bola no jogo. Mas isso está na internet, pô. Cabe ao técnico brasileiro pesquisar, olhar e aproveitar. E outra: por que o brasileiro não pode inventar algo assim? Temos criatividade. Eu mesmo inventei um monte de coisa.

LANCE!: Como você viu o futebol no Brasil logo que voltou do Japão?
Levir Culpi: A evolução foi muito lenta. A gente viu aí os estádios padrão Fifa. Puta que pariu, é um pecado falar isso... Que nós melhoramos os gramados. O do Mineirão já alagou todo, a drenagem não funciona. Fui jogar na Arena Pantanal, que já está depredada, com menos de um ano de uso. Não aceito isso, não aceito a maneira como os estádios foram construídos no Brasil. Mas isso tem um lado político... Nós temos também o problema de êxodo de jogadores, estamos perdendo os nossos melhores talentos. Nosso futebol está esquisito, não tem um equilíbrio. Além disso, importamos muitos atletas. Sugeri à CBF limitar para três o número de estrangeiros para jogar no Brasil. E os três precisam ter passagem pela seleção. Você não proíbe ninguém de trabalhar, mas só traz quem tem qualidade comprovada.

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LANCE!: Como foi o encontro de treinadores da CBF? Foi um encontro sério ou uma fanfarra?
Levir Culpi: Vou ficar no meio termo do que a imprensa pensa e no meio do que a CBF acredita. No final da reunião, com todos reunidos, cada um começou a dar uma opinião. Resultado? Ficamos com mais de 25 opiniões. Eu queria o campo encurtado, o Felipão queria fair play correto, que é devolver a bola no mesmo lugar. Meu Deus, olha onde estamos ainda... É um absurdo ter que discutir isso nos dias de hoje.

LANCE!: A reunião pareceu bonita, mas...
Levir Culpi: É mais ou menos isso. Está mais para iniciativa do que para resolução. Muita coisa vai demorar para sair do papel. O problema do futebol brasileiro não é o jogo, o problema é o entorno. As pessoas querem o nosso futebol igual ao alemão. Mas tudo no futebol alemão funciona melhor. Quer copiar? Copia tudo. Copia a imprensa também. A imprensa se sente no direito de vir aqui no CT todos dias, acompanhar todos os treinos. Isso não é direito. Por quê? É o mesmo que eu entrar todo os dias no LANCE! e ficar olhando o seu trabalho. Vou ficar analisando: um foi no banheiro, outro está escrevendo errado... Se eu coloco a mão na cara no treinamento, falam que o Levir está desesperado. A imprensa mete muito o pau.

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LANCE!: A imprensa tem culpa no nível do futebol brasileiro?
Levir Culpi: Tem a mesma parcela que nós.

LANCE!: Por quê?
Levir Culpi: Porque vocês também fazem futebol. Aqui no Brasil tem muito jornalista que se acha mais importante que o treinador. Eles sabem tudo, julgam saber de tudo. Eu, que estou dentro do futebol, preciso ouvir cada coisa de quem não tem noção do que está acontecendo de fato. Mas eu sou assim também, critico muitos os políticos. A diferença é que eu paro e penso: o que será que eu faria no lugar deles? Não tenho a menor ideia. Mas o brasileiro é crítico por natureza...

LANCE!: Criticamos muito, mas não resolvemos quase nada. É por aí?
Levir Culpi: Em tudo.

LANCE!: Como mudar?
Levir Culpi: Peguem o Japão e a Coreia do Sul, dois países que brigam para ver quem é o mais desenvolvido. Ambos tiveram um investimento fortíssimo na educação, não é essa merda que o governo brasileiro está fazendo com o povo. O cara que estuda se vira melhor. Mas não há interesse nesse governo de deixar o povo inteligente. Pelo contrário. Querem um povo ignorante para votar neles. Pena.

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LANCE!: Temos pessoas capacitadas para mudar isso?
Levir Culpi: Poucas. O caso da Lava-Jato... Não prendem todo mundo porque não tem cadeia suficiente. Sabe aquele sambinha... "Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão"? O país está muito envolvido com corrupção. O futebol é reflexo da nossa política.

LANCE!: Você, como técnico de futebol e figura pública, não deveria se posicionar mais? Criticar?
Levir Culpi: É uma coisa que tenho pensando bastante. Quero participar de algumas manifestações, ir para as ruas. Eu faço parte de uma classe que tem mais noção do que está acontecendo, sou mais bem informado. Mas a grande maioria não tem acesso às informações, não sabe o que está acontecendo. Muitos só estão sobrevivendo no país. Talvez eu devesse me posicionar mais, dar opiniões mais fortes. Acho que vou seguir o seu conselho...

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LANCE!: Na contramão das críticas, você disse recentemente que técnico de futebol merece receber os grandes valores de hoje. Mas o salário de treinador é maior do que os de médicos, professores...
Levir Culpi: É uma disparidade inaceitável. A distribuição de renda é ridícula. Poucos ganham muito, muitos ganham muito pouco. No Japão, por exemplo, o médico não ganha muito mais do que o motorista de ônibus.

LANCE!: Te incomoda receber mais do que médicos e professores?
Levir Culpi: Não me incomoda. Para eles serem o que eu sou, eles precisam passar por onde passei. Isso já paga o preço. Você quer ganhar mais do que o Roberto Carlos, que ganha mais de 1 milhão por show? Cante igual ao Roberto Carlos. Isso serve para treinadores e jogadores de futebol. O jogador de futebol, que na sua grande maioria não tem formação, precisa fazer milagres ou ter um dom. Ele é um artista. Acho isso lógico, só não entendo a lógica da distância da distribuição de renda.

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