Em 2007, relatório de inspeção da Fifa mostrou Brasil fora da realidade
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O Comitê Executivo da Fifa tomou como base dados distantes da realidade sobre o Brasil para escolher o país como anfitrião da Copa do Mundo de 2014.
Um relatório de inspeção foi preparado em outubro de 2007 por uma comissão especial da entidade formada por cinco de seus membros. O grupo visitou o país por dez dias.
Na ocasião, a candidatura apresentou 18 cidades como potenciais sedes da Copa. O grupo visitou apenas cinco delas (Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília) – as outras 13 fizeram apenas apresentações. A avaliação final da comissão presidida pelo mexicano Hugo Salcedo revelou pontos desconhecidos até mesmo dos brasileiros.
O mais alarmante dizia respeito às condições dos aeroportos brasileiros. O relatório rasga elogios ao sistema de transportes aéreos do país. Chega a garantir que, em 2007 mesmo, estaria pronto para suportar o fluxo de turistas e profissionais de um Mundial. Na época, cinco terminais já estavam saturados.
Meses antes da divulgação do documento, o Brasil viveu dois apagões aéreos. O primeiro, em outubro de 2006, após o acidente do voo 1907 da Gol que matou 154 pessoas.
A própria Fifa, quase quatro anos depois, passou a ter visão distinta dos aeroportos brasileiros. Em julho passado, o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, criticou os terminais do país, assim como outros aspectos elogiados no relatório de 2007:
– Eles (Brasil) ainda têm muito o que entregar. Não temos os estádios, não temos aeroportos, não temos um sistema de transporte nacional em funcionamento.
Questionada se o Brasil possuía infraestrutura aeroportuária para receber um Mundial em 2007, como bancou o documento, a Infraero afirmou desconhecer o relatório. Em nota, disse que "mantém um planejamento constante que prevê as necessidades dos aeroportos da rede para o atendimento da demanda em curto, médio e longo prazos, considerando o crescimento do setor como um todo, inclusas também as demandas pontuais."
BNDES e Ipea fizeram alertas
Dois estudos recentes alertaram para problemas nos aeroportos brasileiros durante a Copa de 2014. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), nove terminais – Manaus, Fortaleza, Brasília, Guarulhos, Salvador, Campinas, Cuiabá, Confins e Porto Alegre – não ficarão prontos para a competição. Segundo o estudo "Aeroportos no Brasil: investimentos recentes, perspectivas e preocupações", divulgado em abril, nem mesmo a conclusão de todas as obras livraria o país de problemas durante o Mundial.
Em janeiro de 2010, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também ressaltou a necessidade de investimentos no setor. Estudo encomendado à consultoria McKinsey & Company apontou que, em 2009, todos os aeroportos da Copa tinham algum gargalo.
Polêmica no ano passado
Os relatórios de inspeção da Fifa também provocaram questionamentos na eleição para as sedes dos Mundiais de 2018 e 2022.
A Inglaterra era considerada favorita para levar a Copa de 2018. O relatório da Fifa apontou a candidatura como a melhor tecnicamente, ao lado da proposta conjunta de Portugal e Espanha. Dos 16 pontos avaliados, 14 foram considerados de "baixo risco" – apenas operações dos estádios e acomodações teriam "médio risco".
A confiança na candidatura inglesa era imensa. Para sua surpresa, acabou eliminada na primeira rodada da eleição, como a pior votada. A Rússia venceu.
O cenário oposto aconteceu em relação ao Qatar, eleito sede do Mundial de 2022. A candidatura recebeu a pior avaliação entre os concorrentes. Somente sete dos 16 itens analisados pela Fifa foram vistos como de "baixo risco".
Prova da desaprovação inicial da Fifa foi o pronunciamento do então presidente da comissão de inspeção da Fifa, o chileno Harold Mayne-Nicholls, após a visita ao Qatar, em setembro passado. A candidatura foi a única a ser criticada publicamente.
– A última vez em que tivemos um Mundial compacto foi em 1930, no Uruguai. É um desafio logístico muito grande– afirmou o dirigente, sobre a proposta de uma Copa em que a maior distância entre estádios seja percorrida em até uma hora.
Telecomunicações são gargalo
Apesar do que a Fifa garantiu em seu relatório, o Brasil não possuía em 2007 infraestrutura de telecomunicações de "primeiro mundo". Segundo analistas, sequer hoje o país estaria nas condições ideais para receber um Mundial.
– O relatório me parece superficial. A penetração de banda larga, por exemplo, ainda é precária. Acontece basicamente nos grandes centros, mas restrito a alguns bairros – explica Mauro Peres, presidente da IDC Brasil, empresa líder em consultoria de tecnologia da informação e telecomunicações.
Governo e iniciativa privada reconhecem os gargalos no setor. Em janeiro, a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústria de Base (Abdib) entregou ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, estudo em que é a apontada a necessidade de investimento de R$ 100 bilhões em telecomunicações.
A maior preocupação do empresariado está na implantação da rede de telefonia móvel 4G, tecnologia com velocidade de até 100 megabites. A promessa do governo é de que o projeto sairá do papel até 2013.
A presidente Dilma Rousseff disse ontem que já autorizou investimentos de R$ 200 milhões na infraestrutura de telecomunicações das 12 cidades-sede.
Confira bate-bola com Nelson Worstman, diretor da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom):
LANCENET!: Em 2007 a infra de telecomunicações era a apresentada pela Fifa?
NELSON WORSTMAN: Não. No fim de 2007 fizemos um estudo e um dos pontos importantes demonstrados era que tínhamos a banda larga mais cara, de pior qualidade e de pior penetração do mundo. Apresentamos esse trabalho a todos os ministérios envolvidos e começou a haver uma movimentação, em 2009.
LNET!: E o que podemos esperar do setor para a Copa?
O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, falou em tecnologia 4G, pelo menos nas cidades-sede, e em novas licitações para frequências que ainda não foram licitadas. Isso no curto prazo. É um bom sinal. Mas vai resolver? Não sei. Estamos tirando uma foto nesse momento, mas a tecnologia anda muito mais rapidamente do que os processos habituais e burocráticos que o mundo tem.
LNET!: Você acredita que as cidades-sede estarão nas mesmas condições?
Não. Os problemas são distintos de cidade para cidade. Não adianta São Paulo dar show de tecnologia e uma outra cidade estar ruim.
LNET!: Que outros gargalos temos?
Os governantes estão, com algumas exceções, desatualizados de que a Tecnologia da Informação (TI) faz parte de tudo. Quando falamos em eventos, pensam em estádios bonitos... E esquecem que tudo tem de ser administrado por TI.
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