50 anos de Pelé teve jogo contra Seleção do Mundo e gol de Neto; atletas relembram 'presente divino'
Em 1990, camisa 10 entrou em campo para amistoso de celebração de aniversário; em conversa com o LANCE!, personagens da partida falam de suas memórias do jogo

Neste sábado, 23 de outubro, Pelé completa 81 anos. Para celebrar a data, o LANCE! foi atrás das histórias de uma celebração especial organizada para o Rei quando ele tornou-se cinquentão, em 1990. No dia 31 de outubro daquele ano, Pelé entrou em campo pela Seleção Brasileira para disputar o que seria sua última partida com a camisa verde e amarela, 14 anos depois de ter pendurado oficialmente as chuteiras.
Com um grupo de jovens jogadores treinados por Paulo Roberto Falcão, o adversário da equipe canarinho no amistoso foi um combinado do resto do mundo, que reuniu atletas da elite do futebol de então, como Marco Van Basten, Hagi, Stoichkov e Roger Milla.
- Dentro do campo, se nota que são acima da média - disse Sérgio, goleiro do Brasil na ocasião, sobre o elenco estelar que atuou naquele dia no estádio Giuseppe Meazza, em Milão, na Itália.
Além de atletas de diversas nacionalidades, também havia brasileiros jogando pela Seleção do Mundo. João Paulo, atacante que à época jogava no Bari, da Itália, descreveu a situação como "emocionante", por estar na despedida do Pelé, e "chata" por ter de jogar contra a Seleção Brasileira. Ele estranhou a ocasião ao fim da partida.
- A festa não era nossa. Ali era uma homenagem ao Pelé. Foi uma sensação bem esquisita.
O jogo terminou 2 a 1 para o combinado internacional, que tinha também outros dois brasileiros: o zagueiro Júlio César e o meio-campista Alemão, que tinham vestido a camisa do país em Copas do Mundo. O detalhe é que o gol da Seleção Brasileira foi marcado em cobrança de falta de Neto, ex-meia do Corinthians e atualmente apresentador na TV Bandeirantes. O espanhol Michel e romeno Gheorghi Hagi balançaram as redes pelo adversário.
"Com 50 anos, fazendo um jogo de festa, bastante gente assistindo à homenagem, mesmo assim ele estava lá focado em vencer", Falcão, técnico da Seleção na ocasião
Apesar do caráter festivo do encontro, quem esteve em campo o encarou com máxima seriedade. Sérgio Guedes ressalta nível de profissionalismo com que todos encararam a partida. Especialmente porque a Seleção Brasileira iniciava um novo ciclo, após a queda nas oitavas de final da Copa do Mundo para a Argentina, também em solo italiano.
- Foi um jogo festivo, mas não para nós, que buscávamos afirmação. Um jogo festivo somente até o momento de começar.
Dentro deste contexto, estava Pelé, que embora fosse o homenageado, concentrou-se com os demais, treinou, correu e esteve na preparação ao lado dos jogadores da Seleção. Para Falcão, então técnico do Brasil, foi justamente essa seriedade, além da velocidade de raciocínio acima da média, que credenciaram o jogador a ser reverenciado como o maior da história.
- Vi um Pelé muito concentrado, com muita vontade de ganhar o jogo. Era um jogo de festa, mas para ele não. Talvez para os outros fosse. Com 50 anos, fazendo um jogo de festa, bastante gente assistindo à homenagem, mesmo assim ele estava lá focado em vencer.
Sérgio Guedes descreve o Rei como "simples e competente". Nos dias anteriores ao jogo, Pelé conviveu com os jogadores "como se estivesse começando a carreira na Seleção", segundo Falcão. Participou dos treinamentos, jogadas de bola parada e ensaios táticos, demonstrando um alto nível de competitividade e ajudando os atletas recém-chegados à Seleção Brasileira.
- Ele (Pelé) até conversou comigo assim: "Posso treinar umas jogadas?". Eu disse: 'claro! O jogo é seu, você manda'. Só não pode tirar o meu lugar de treinador - contou Falcão, em tom de brincadeira.
"Foi mais do que eu esperava. O primeiro jogo pela Seleção, com o Pelé… Foi um presente divino", César Sampaio, que estreou pela Seleção no jogo dos 50 anos de Pelé
César Sampaio, que fazia sua primeira partida na Seleção, pela qual seria vice-campeão do mundo oito anos depois, revelou que estava muito ansioso para jogar ao lado do Pelé, ainda mais na condição de estreante.
- Ficávamos até sem referência de campo. Como íamos falar: "cuidado, Pelé", "Pelé, toca rápido", "ladrão"... Uma hora fomos montar uma barreira e o goleiro tinha que orientar "mais pra cá", "mais pra lá" e ninguém falava com o Pelé! - relembrou o ex-volante.
O lance do 'não-gol' de Pelé
No amistoso do cinquentenário de Pelé, um lance chamou a atenção do estádio lotado em Milão, dos envolvidos na partida e de todos os espectadores que acompanhavam o jogo ao redor do mundo. Rinaldo, atacante que fazia 22 anos naquela noite e vestia a camisa da Seleção pela primeira vez, disparou pelo lado esquerdo do campo e tentou a finalização em vez de passar a bola para Pelé, que fechava pelo meio entrando sozinho na área, sozinho. O chute do então jogador do Fluminense foi para fora e o estádio San Siro reagiu em desespero e lamentação pela 'assistência que não aconteceu'.
- Dentro de campo, os jogadores abriram para ele servir o Pelé. O mundo inteiro falou pro Rinaldo fazer aquilo. Eu acho até que custou a sequência dele na Seleção, não sei se só por isso, mas também - afirmou Sérgio.
Falcão, por outro lado, defendeu Rinaldo, pois ele tinha a chance de fazer parte e consolidar seu espaço em uma renovada Seleção Brasileira na esteira do fracasso da Copa do Mundo de 1990.
- Se ele não passou foi porque tinha a possibilidade de chutar no gol. Na hora, não houve nenhum comentário. E o Rinaldo também estava com a chance dele de jogar na Seleção, ir bem, fazer um gol e continuar depois na Seleção.

Um novo time após a Copa
César Sampaio, à época com 22 anos, iniciou sua trajetória na Seleção naquele dia e define a coincidência de fatos como "presente divino".
Paulo Roberto Falcão liderava essa renovação e convocou diversos jovens jogadores, além de ter deixado de fora atletas consagrados como Branco, Bebeto, Romário e Careca. O então treinador considerou a figura do Pelé fundamental neste processo do qual a Seleção passava.
- Estava num processo de renovar para montar a Seleção para a Copa América e a participação do Pelé foi importante, porque eram jogadores jovens com o Pelé. O maior da história tendo a convivência com os jogadores.
Falcão renovou bastante a lista de convocados em relação ao Mundial. Segundo Sérgio Guedes, a busca era por "impacto devido ao fracasso da Copa anterior", de 1990, em que o Brasil foi eliminado nas oitavas de final para a Argentina. César Sampaio, que acabou não chegando à Copa do mundo de 1994 e seria vice-campeão em 1998, na França, se sentia parte da renovação.
- Foi prazeroso. Não fui para a Copa de 94, mas tivemos duas Copas América nesse período.
Sérgio também se sentia bem integrado. O ex-goleiro exalta Falcão e considera que chegaria à Copa do mundo se o então treinador - posteriormente substituído por Carlos Alberto Parreira - tivesse continuado no cargo. Ele ainda afirma que muitos jogadores sequer teriam seguido na Seleção se não fosse pelo ex-técnico.
Após esse processo de renovação, que contou até com a participação do Rei do futebol, o Brasil foi tetracampeão Mundial, em 1994, nos Estados Unidos, vencendo a Itália nos pênaltis na decisão.
FICHA TÉCNICA
BRASIL 1 X 2 SELEÇÃO DO MUNDO
Data: 31 de outubro de 1990, quarta-feira;
Local: Estádio Giuseppe Meazza (San Siro), em Milão, na Itália;
Árbitro: Tullio Lanese;
Assistentes: Sem registro;
Público/renda: Sem registro;
Cartões amarelos: -
Cartões vermelhos: -
Gols: Michel (35'/1°T) (0-1), Gheorghe Hagi (04'/2°T) (0-2) e Neto (15'/2°T).
BRASIL: Sérgio (Ronaldo); Gil Baiano (Bismarck), Paulão, Adílson (Cléber) e Leonardo (Cássio); César Sampaio, Donizete Oliveira (Luís Henrique), Cafu e Pelé (Neto); Charles (Valdeir) e Rinaldo (Careca Bianchezzi). Técnico: Paulo Roberto Falcão.
RESTO DO MUNDO: Sérgio Goycoechea (Michel Preud'Homme), (Thomas N'Kono), (René Higuita); Leo Clijsters (Emmanuel Kunde), Júlio César, Oscar Ruggeri (Sergej Alejnikov) e Hugo Eduardo De León (Lajos Detari); Michel (Gabriel Calderón), Alemão (José Basualdo), Rafael Martín Vasquez (Gheorghe Hagi) e Carlo Ancelotti (Enzo Francescoli); Marco Van Basten (Hristro Stoichkov) e Roger Milla (João Paulo). Técnico: Franz Beckenbauer.

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