Paquetá chega à segunda Copa do Mundo após vencer obstáculos e polêmica
Meia superou problema ósseo na base e acusação de envolvimento com apostas

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Quatro meses depois de tomar a decisão que mudou o rumo da sua carreira e culminou no retorno ao Flamengo, Lucas Paquetá se prepara para disputar mais uma Copa do Mundo. Será uma nova oportunidade para o garoto da ilha de Paquetá ajudar a Seleção Brasileira a buscar o hexa. Mas, até chegar a esse momento, o caminho foi marcado por dificuldades, turbulências e reviravoltas.
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Da Ilha de Paquetá para o Ninho do Urubu
Lucas Tolentino Coelho de Lima perseguiu desde cedo, ao lado do irmão Matheus, o sonho de se tornar jogador profissional. A família dava apoio incondicional. Os primeiros passos foram no campinho do Municipal Futebol Clube, vizinho à casa onde cresceu. Até que surgiu a primeira oportunidade aos nove anos de idade, numa peneira no Flamengo. O pequeno Luquinha passou e, a partir daí, começou a vencer obstáculos. O primeiro deles: a distância para ir treinar no clube. Morando em Paquetá, no meio da Baía de Guanabara, no Rio, levava mais de quatro horas para ir e voltar.
— A gente vivia em Paquetá, e o trajeto era muito difícil. A barca demorava quase duas horas para chegar ao Rio. A nossa situação financeira não era confortável. A gente sobrevivia. Saía de manhã e voltava quase à meia-noite para casa com as crianças — relembrou Cris Toletino, mãe do jogador, ao Lance!.

O segundo obstáculo foi o físico franzino. Paquetá enfrentou problemas de maturação óssea, o que fez com que o Flamengo tivesse dúvidas sobre a sua permanência nas divisões de base. Ainda assim, conseguiu superar as dificuldades e rapidamente passou a ser tratado como uma das principais promessas do clube.
— O Lucas teve um problema de retardo ósseo, de maturação. E, por várias vezes, o Flamengo avaliava se poderia liberá-lo ou não, algo que a gente conversava internamente. Eu falava para ele: "A gente só sai daqui do Flamengo com você (no) profissional". Sempre falei isso, desde quando ele entrou. Lembro que a dona Graça, funcionária do Flamengo, me chamou para uma conversa. Ela perguntou: "Se um dia o Paquetá fosse dispensado, vocês teriam uma segunda opção?" Respondi: "Não existe essa possibilidade". Ela insistiu: "Mas se houvesse…". E eu disse: "Não vai haver. Meu filho só sai daqui profissional do Flamengo". Eu não deixei margem, o plano B era o plano A. Meu filho só sairia do Flamengo como profissional, e foi isso que aconteceu — detalhou Cris Tollentino.

Da barca para o avião. Destino: Europa
Paquetá passou por um trabalho de crescimento e fortalecimento muscular. Aos 15 anos, tinha apenas 1,53 m de altura, mas cresceu 27 centímetros e corrigiu a sua principal deficiência: as disputas corpo a corpo com os marcadores adversários. Habilidade e talento ele sempre teve. Aos 18 anos, com o título da Copa São Paulo de Juniores, começou a atrair a atenção dos dirigentes e da comissão técnica do time profissional. Foi promovido ao elenco principal naquele ano, sob o comando de Muricy Ramalho e de Zé Ricardo, seu técnico na base.
A partir daí, a carreira decolou. Paquetá virou um dos destaques do time e artilheiro do Flamengo no Brasileirão de 2018. Aos 21 anos, foi negociado com o Milan, da Itália, por 38 milhões de euros, iniciando a sua carreira na Europa. Apesar da expectativa, sua passagem pelo futebol italiano não teve o impacto esperado e ainda contou com atritos com o astro Zlatan Ibrahimović. Depois de apenas uma temporada, com 44 jogos e um gol marcado, foi vendido ao Lyon, da França.
Foi no futebol francês que Paquetá retomou o protagonismo e viveu grande fase. Com personalidade e qualidade técnica, virou referência do Lyon e voltou a chamar atenção do mercado europeu. Os números foram bem diferentes: 80 jogos, 21 gols e o interesse de clubes da bilionária Premier League. Seu próximo destino foi o West Ham, da Inglaterra. Mesmo atuando em um clube fora da principal prateleira inglesa, o meia conseguiu se destacar e chegou a flertar com uma transferência para o Manchester City, após um pedido do técnico Pep Guardiola, que o elogiou, antes que ele decidisse voltar ao Brasil.
— Ele é muito bom para proteger a bola, faz gols, tem personalidade. É um jogador fantástico. Fico feliz que tenha decidido voltar ao futebol brasileiro para estar com a sua gente. Desejo tudo de melhor para ele — disse Guardiola à "TNT Sports", em janeiro deste ano.

Tensão e alívio com a volta para casa
A trajetória ascendente sofreu uma reviravolta inesperada quando seu nome passou a ser investigado por suposta manipulação envolvendo apostas esportivas. Acusado de forçar cartões amarelos entre novembro de 2022 e agosto de 2023 para beneficiar apostadores da ilha de Paquetá, ele viveu o período mais tenso da carreira.
Após meses turbulentos, recebeu a notícia que representou um alívio: foi inocentado no processo movido pela Federação Inglesa em julho de 2025. Ainda assim, o momento delicado fez com que Paquetá enxergasse a necessidade de uma mudança importante na carreira. Foi então que decidiu voltar para casa. Mesmo ainda jovem e com mercado no futebol europeu, optou por retornar ao Flamengo, onde foi recebido de braços abertos pela torcida rubro-negra.

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Contratação mais cara da história
A contratação foi a mais cara da história do Flamengo: 42 milhões de euros (cerca de R$ 260 milhões). Mas a recepção no aeroporto já demonstrava o tamanho da identificação entre jogador e torcida. Em poucos jogos, Paquetá mostrou que não havia perdido a qualidade que o transformou em um dos grandes talentos do futebol brasileiro. Rapidamente, passou a ser um dos pilares da equipe na temporada, com sete gols em 23 jogos.

Na mira de Ancelotti
O retorno em alto nível também serviu para convencer Carlo Ancelotti de que o meia merecia uma vaga na Seleção Brasileira. Mesmo sem viver o auge técnico da carreira, Paquetá segue sendo um dos principais nomes do elenco rubro-negro.
Em março, durante a convocação da Seleção para os amistosos contra França e Croácia, Ancelotti comentou sobre a ausência de Paquetá naquela lista, deixando clara a possibilidade de ele ser convocado para a Copa, o que veio a acontecer posteriormente.
— Hoje, por exemplo, não está o Paquetá, que voltou para cá, mas ele pode estar muito bem na convocação final e ter uma nova oportunidade. Quis ter a chance de ver dois meias novos que estão jogando muito bem no Botafogo e no Galatasaray — detalhou Ancelotti, referindo-se a Danilo e Gabriel Sara, convocados naquela ocasião.

Experiência em Copa e versatilidade
Agora, o meia disputará sua segunda Copa do Mundo, após participar da edição de 2022. Além da experiência acumulada, o jogador oferece uma versatilidade rara. Meio-campista de origem, pode atuar mais avançado e aberto pelos lados, além de desempenhar diferentes funções no setor central.

Depois de atravessar momentos de incerteza dentro e fora de campo, Lucas Paquetá chega à segunda Copa do Mundo da carreira novamente como protagonista. De volta ao Flamengo, clube onde tudo começou, o meia tentará transformar a trajetória de reconstrução em mais um capítulo marcante com a camisa da Seleção Brasileira.
Números de Lucas Paquetá pela Seleção
- 61 jogos (42 como titular)
- 12 gols
- 7 assistências
- 185 minutos para participar de gol
- 1,0 passe decisivo por jogo
- 1,3 finalizações por jogo
- 1,0 passe longo certo por jogo
- 82% de acerto no passe
- 3,9 bolas recuperadas por jogo
- 1,7 desarmes por jogo
- 53% de eficiência nos duelos
- 1,3 faltas por jogo
- 1,2 faltas sofridas por jogo
Trajetória de Lucas Paquetá em clubes

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