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De Mangabeira para o mundo: a história de luta de Douglas Santos

Lateral paraibano abre a série Os 26 de 26, com o perfil dos escolhidos de Ancelotti

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Rio de Janeiro (RJ)
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Marcio Dolzan
Rio de Janeiro (RJ)
Dia 25/05/2026
06:00
Douglas Santos em ação pela Seleção no jogo do Brasil com o Chile, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo
imagem cameraDouglas Santos voltou a ser chamado para o jogo do Brasil com o Chile, pelas Eliminatórias (Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

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De esquecido na Seleção por nove anos à provável titularidade na Copa do Mundo, Douglas Santos é um dos jogadores menos badalados na lista de 26 convocados por Carlo Ancelotti para o Mundial. Mas o trabalho silencioso, a resiliência de um menino de infância humilde e que ficou um ano se recuperando de uma fratura no fêmur, e a inspiração em três laterais que fizeram história na Seleção deram ao jogador do Zenit a possibilidade de disputar um Mundial quando muitos — e até ele mesmo — já não imaginavam.

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➡️Neymar diz que não recebeu ligação de Ancelotti antes de convocação para a Copa

Douglas dos Santos Justino de Melo nasceu em João Pessoa, na Paraíba, em 22 de março de 1994 — portanto, menos de três meses antes da conquista do tetra. Filho de pai motorista de ônibus e de mãe dona de casa, ele cresceu em um bairro popular da capital paraibana e teve uma infância simples. E, como quase todo menino, logo teve o futebol como uma das paixões.

— Lembro dele no campo jogando bola, dentro de casa jogando bola, lá atrás jogando bola — conta a mãe do jogador, Rizomar, no documentário "A vitória da fé", que conta a trajetória de Douglas Santos.

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— Marca muito, porque ele sempre quis. Ele sempre dizia: "Eu vou ser jogador, mainha" — acrescenta ela.

Douglas Santos começou a jogar em um campinho de chão batido em frente à casa onde morava, no bairro de Mangabeira, o mais populoso de João Pessoa. O pai, Marcos, sempre foi o maior incentivador. O garoto passou pelo futsal, em times amadores da cidade, como o Benfica e o Estrela do Mar. Muitas vezes, não tinha dinheiro para pagar a passagem para ir aos treinos e jogos e pedia a ajuda da avó.

Os amigos logo viram que Douglas era diferenciado e, quando surgiu a oportunidade de participar de um peneirão, o incentivaram. Semanas antes do teste, porém, ele fraturou o fêmur... jogando bola. Ficou um ano se recuperando, período que incluiu uma segunda cirurgia.

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Apesar do baque, a paixão pelo futebol não arrefeceu. E, quando voltou a jogar, surgiu uma nova oportunidade de participar de uma peneira. Era no Náutico, de Recife. O teste contou com outros 200 meninos, mas 25 minutos sob os olhares dos treinadores foram suficientes para ele ser escolhido. Era 2011, e começava aí a trajetória de Douglas Santos na base de um clube profissional.

No ano seguinte, assumiu uma vaga no time principal e logo se destacou. As boas atuações no Brasileirão valeram a primeira convocação para a seleção, em 2013, aos 19 anos: foi chamado pelo técnico Luís Felipe Scolari para um amistoso contra a Bolívia.

Douglas Santos durante infância em casa
Douglas Santos: infância foi de muito futebol, inclusive dentro de casa (Arquivo Pessoal)

Copa América, ouro olímpico e... esquecimento

Douglas não entrou em campo naquele jogo, mas a seleção foi o passaporte para a Europa. Acabou negociado pelo Náutico com o Granada, da Espanha, em 2013. Os primeiros anos como atleta profissional foram de rodagem. Do Granada para a Udinese, da Itália, e da Udinese de volta ao Brasil, para o Atlético-MG. No time mineiro, assumiu a titularidade, virou um dos destaques e foi escolhido para a seleção do Brasileirão 2015. E, no ano seguinte, foi chamado para a Seleção.

Douglas Santos foi titular dos seis jogos do Brasil na campanha do até então inédito ouro olímpico, nos Jogos do Rio-2016. Meses antes, havia sido convocado por Dunga para a disputa da Copa América Centenário com a Seleção principal. Daquele grupo, também faziam parte os goleiros Alisson e Éderson, o zagueiro Marquinhos, o lateral e hoje volante Fabinho, e o também volante Casemiro. Weverton e Neymar, além de Marquinhos, foram companheiros na Olimpíada. Todos eles estarão na Copa do Mundo deste ano.

Mas, diferentemente da trajetória dos demais, que seguiram sendo chamados para a Seleção nos anos que se seguiram, Douglas Santos perdeu espaço e nunca mais foi lembrado. Quem resgatou o lateral para a Seleção foi Carlo Ancelotti, que o convocou para os jogos com Chile e Bolívia, pelas duas últimas rodadas das Eliminatórias, ano passado.

— Logo após as Olimpíadas, que foi meu último período com a Seleção, eu ficava assistindo às convocações. Tinha alimentado a vontade de voltar à Seleção, de estar em alguma lista, mas depois fui perdendo isso de assistir às convocações. Já tinha feito bastante tempo e meu nome não tinha sido ventilado, não tinha estado ali no radar — revelou Douglas Santos, ao Lance!.

Douglas Santos chega à Copa tendo atuado apenas cinco vezes pela Seleção principal (Arte: Lance!, via Notebooklm)
Douglas Santos chega à Copa tendo atuado apenas cinco vezes pela Seleção principal (Arte: Lance!, via Notebooklm)

Enquanto não chamava a atenção de Tite, Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior, os sucessores de Dunga no comando da Seleção, o lateral-esquerdo foi construindo trajetória sem alarde no futebol europeu. Inicialmente na segunda divisão alemã, com o Hamburgo, depois na elite do futebol russo. No Zenit, clube que defende desde 2019, Douglas Santos conquistou seis títulos da liga nacional, além da Copa e da Supercopa da Rússia em diferentes oportunidades.

Cidadania russa e oferta para jogar na seleção do país

O desempenho no Zenit e a falta de perspectiva na Seleção Brasileira fizeram com que o lateral virasse alvo da seleção russa. Douglas Santos obteve a cidadania do país por tempo de residência e chegou a ser convocado. Se aceitasse, nunca mais poderia jogar pelo Brasil. Por isso, disse não, mesmo que já tivesse passado dos 30 anos.

— Fica um misto de sentimentos, porque hoje em dia falam que jogador de 30 anos já é veterano, já está mais velho. Mas a partir dos 28 anos você atinge uma idade muito boa na profissão, em que você já sabe os atalhos, já sabe controlar o corpo, o que precisa ser feito em academia, mobilidade, força. Então fica aquele sentimento de "será que estou ficando velho?", "será que vou corresponder ao nível da Seleção?"_ lembrou.

Douglas Santos correspondeu ao que queria Carlo Ancelotti. Convocado em setembro do ano passado depois de nove anos, irá agora, aos 32 anos, disputar a primeira Copa do Mundo. 

Ele diz que sempre se inspirou em três laterais com histórico na Seleção em Mundiais:

Roberto Carlos, Marcelo e Filipe Luís. Antes de jogos e treinos, eu assistia a vídeos deles em casa, tentando aprender algo. Foram jogadores incríveis e grandes referências do futebol brasileiro, na Europa e na Seleção.

Douglas Santos em ação pelo Zenit
Douglas Santos é multicampeão pelo Zenit, da Rússia (Foto: Divulgação/Zenit)

Douglas Santos: 'Tenho raízes firmes na Paraíba e no Brasil'

Junto com Matheus Cunha, Douglas Santos é um dos dois representantes de João Pessoa, na Paraíba, que foram convocados por Carlo Ancelotti.

O lateral da Seleção tem ligação muito forte com a terra natal, mesmo morando há mais de uma década longe.

— Minha família é muito presente na minha vida. Tenho contato diário com eles. Isso mantém minhas raízes firmes, na Paraíba e no Brasil. Mesmo após tantos anos fora, o Brasil é um lugar incrível. Quando eu parar de jogar, quero morar aqui — afirmou.

Valeu o tempo de espera. Douglas Santos chega à Copa com chances de virar titular — já que Alex Sandro, mais experiente, vive má fase física e técnica. Entrar em campo com a camisa da seleção num Mundial será a recompensa por tanta perseverança — e a realização do sonho que começou num campinho de terra do bairro de Mangabeira.

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