OPINIÃO: escolha do camisa 10 é o primeiro erro de Ancelotti em novo ciclo do Brasil
Treinador faz escolha de segurança e perde a chance de sinalizar a renovação

A camisa 10 da Seleção Brasileira nunca foi apenas um número. Ela carrega uma história que começa em Pelé, passa por Zico, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e chega a Neymar. Por isso, toda troca de dono carrega uma mensagem. E, neste início de novo ciclo, Carlo Ancelotti tinha nas mãos a oportunidade de fazer da escolha do novo camisa 10 um símbolo da renovação que o próprio treinador anunciou para a Seleção.
Não foi o que aconteceu.
Raphinha foi o escolhido para assumir o número. A CBF confirmou a numeração para os amistosos contra Austrália e Índia, e o atacante do Barcelona assumiu a camisa que pertenceu a Neymar na Copa do Mundo de 2026.
É uma escolha lógica. Talvez até a mais fácil de todas. Mas justamente por isso deixa escapar uma oportunidade.
Antes de Neymar, o Brasil viveu um período de transição com a camisa 10. Zico deixou de atuar pela Seleção depois da Copa de 1986 e, durante o ciclo seguinte, o número passou por diferentes mãos até encontrar em Rivaldo um novo protagonista. Raí foi o camisa 10 do tetra, em 1994, mas não terminou aquela Copa como titular. Quatro anos depois, Rivaldo assumiu definitivamente o número e foi um dos grandes nomes do Brasil no vice-campeonato mundial de 1998 e no título de 2002.
Depois dele, veio Ronaldinho Gaúcho. Um jogador que parecia ter sido desenhado para vestir a 10. Em seguida, Kaká, vencedor da Bola de Ouro, assumiu o posto na Copa de 2010.
Então chegou Neymar.
A partir de 2013, antes da Copa das Confederações, a camisa 10 encontrou um dono que parecia destinado a ela. Neymar não apenas vestiu o número. Tornou-se a referência técnica da Seleção e carregou durante anos o peso de suceder uma linhagem de jogadores que fizeram da 10 sinônimo de criatividade e magia. Virou o maior artilheiro da história da amarelinha, com 80 gols em 130 jogos.
Agora, depois da despedida de Neymar, o Brasil tinha a chance de virar a página de maneira simbólica.
E Estêvão parecia ter sido escrito para esse papel.
O garoto é justamente uma das imagens mais fortes da renovação pretendida por Ancelotti. Foi um dos destaques do curto ciclo do treinador antes da Copa do Mundo (ele ficou fora por lesão) e voltou a receber espaço importante na primeira convocação pós-Mundial. Ancelotti, aliás, deixou claro que os amistosos contra Austrália e Índia seriam oportunidades para observar jovens e formar um novo grupo para os próximos anos. A convocação teve oito estreantes.
Estêvão usar a 10 seria mais do que uma escolha técnica. Seria uma passagem de bastão.
Um jogador de 19 anos recebendo um número que acabou de perder seu último grande dono e tendo quatro anos pela frente para entender, amadurecer e absorver a responsabilidade. Não seria necessário cobrar de Estêvão que ele fosse Neymar. Muito menos Pelé, Zico ou Rivaldo. A camisa poderia crescer junto com ele.
E o curioso é que Estêvão teve justamente a oportunidade de mostrar novamente por que essa possibilidade fazia sentido. No empate em 1 a 1 com a Austrália, nesta sexta-feira, ele esteve entre os titulares ao lado de Vini Jr, Endrick e Raphinha.
Mas Ancelotti escolheu o caminho da segurança.
E Raphinha não pode ser acusado de não merecer a camisa pelo que vem fazendo no Barcelona. Muito pelo contrário. O início de temporada do atacante é impressionante. Ele chegou à Data Fifa com 14 gols em oito partidas pelo clube catalão. Pela La Liga, eram 12 gols em sete jogos, marca que o colocou entre os melhores inícios da história do Campeonato Espanhol.
É, portanto, o melhor jogador brasileiro em atividade neste começo de temporada europeia. No Barcelona, Raphinha também passou a exercer uma função mais central, aproximando-se da posição de centroavante depois da saída de Robert Lewandowski. O próprio clube espanhol destacava, antes da Data Fifa, a parceria do brasileiro com Lamine Yamal como uma das principais armas da equipe.
O problema é que a camisa 10 da Seleção não deveria ser apenas uma fotografia do momento.
E é aí que a escolha fica mais interessante.
Raphinha é um jogador importante, experiente, competitivo e que vive um momento extraordinário no Barcelona. Mas ainda é alguém que não conseguiu reproduzir com a camisa da Seleção o mesmo futebol que apresenta no clube. Na Copa do Mundo de 2026, antes de sua lesão, suas atuações não tiveram o mesmo peso que aquelas que o transformaram em protagonista no Barcelona.
No empate por 1 a 1 com a Austrália, em Townsville, no primeiro jogo do ciclo para a Copa do Mundo de 2030, também decepcionou. Não repetiu as atuações do Barcelona. Atuou pelo lado do campo e centralizado, mas não fez o mesmo que costuma desempenhar na Catalunha.
Na Seleção, a história de Raphinha também tem capítulos de frustração. Um deles ficou marcado pela entrevista concedida a Romário antes do clássico contra a Argentina, em março de 2025. Instigado pelo Baixinho, o atacante falou em "porrada" nos argentinos, dentro e fora de campo, e prometeu marcar. O Brasil acabou derrotado por 4 a 1 em Buenos Aires.
Não é a entrevista que define Raphinha como jogador. Nem deveria. Mas ela ajuda a lembrar que personalidade, confiança e desempenho não caminham necessariamente juntos quando ele veste amarelo.
É justamente essa contradição que torna a escolha de Ancelotti tão equivocada.
O treinador tinha a possibilidade de escolher a camisa 10 como uma mensagem. Preferiu escolhê-la como consequência do presente. Raphinha é o 10 porque está jogando muito. Estêvão poderia ter sido o 10 porque representa aquilo que a Seleção pretende ser.
São conceitos diferentes.
E talvez seja essa a principal questão deixada pela escolha: a Seleção precisava apenas encontrar alguém para ocupar o espaço deixado por Neymar ou precisava começar a construir, desde já, o próximo dono da camisa?
Ancelotti escolheu o presente. Estêvão representaria o futuro.
O futebol brasileiro já viu a camisa 10 passar por momentos de vazio e reconstrução. Zico saiu. Raí não conseguiu sustentar o posto. Rivaldo transformou a camisa novamente em protagonista. Ronaldinho e Kaká deram continuidade. Neymar a tornou sua por mais de uma década.
Agora, depois de 13 anos com Neymar e com a camisa novamente disponível, o Brasil tinha a oportunidade de fazer uma escolha que dissesse claramente: acabou uma era, começou outra.
Raphinha pode fazer a 10 jogar. E, pelo que apresenta no Barcelona, tem futebol para isso.
Mas Estêvão poderia fazer a camisa 10 significar outra coisa.
Poderia ser o primeiro capítulo de uma história que ainda nem começou.
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