ANÁLISE: Pouco mudou na Seleção de Ancelotti após a Copa
Seleção repete erros da Copa e tem atuação frustrante em estreia de novo ciclo

O novo ciclo da Seleção Brasileira começou com uma cara conhecida. Apesar da renovação promovida por Carlo Ancelotti na convocação, o primeiro time montado pelo treinador depois da eliminação para a Noruega, na Copa do Mundo, apresentou mais continuidade do que ruptura. Contra a Austrália, nesta sexta-feira (25), em Townsville, o Brasil empatou em 1 a 1 e repetiu algumas das escolhas que marcaram a campanha no Mundial.
A principal delas está na estrutura. Ancelotti voltou a apostar em um time com quatro jogadores de características ofensivas — Estêvão, Raphinha, Endrick e Vini Jr — e apenas dois homens no meio-campo, Bruno Guimarães e Danilo Santos. Foi justamente uma formação semelhante ao 4-2-4 que o treinador utilizou em determinados momentos da Copa e que acabou deixando evidente um dos problemas da equipe: a dificuldade para controlar o meio-campo diante de adversários organizados.
Na eliminação para a Noruega, esse desenho também apareceu como uma questão importante. O Brasil teve dificuldades para controlar a partida, sofreu com a superioridade norueguesa no setor central e acabou permitindo que Martin Odegaard e Sander Berge ditassem o ritmo. Segundo as estatísticas da partida na ocasião, os dois jogadores trocaram 218 passes na partida, quase 80% do total de passes da dupla brasileira no meio-campo.
Naquele jogo, o Brasil até teve seus momentos. Bruno Guimarães desperdiçou um pênalti ainda no primeiro tempo e Endrick perdeu uma oportunidade clara quando o placar permanecia zerado. Mas as chances não se transformaram em controle. No segundo tempo, Haaland apareceu duas vezes, a Noruega abriu vantagem e a Seleção não encontrou respostas suficientes para mudar o rumo da partida.
Pouco mais de dois meses depois, a pergunta naturalmente aparece: o que, de fato, mudou?
A resposta, ao menos no primeiro jogo do novo ciclo, é: menos do que os torcedores poderiam imaginar.
É verdade que houve renovação. Dos jogadores que disputaram a Copa, apenas nove apareceram na primeira convocação para os amistosos contra Austrália e Índia, enquanto a lista teve oito estreantes. Neymar, Casemiro, Danilo, Fabinho, Alex Sandro e Weverton, por exemplo, ficaram fora do grupo.
Mas a renovação da lista não significou necessariamente uma renovação da ideia de jogo.
Ancelotti manteve Bruno Guimarães como uma peça central do meio-campo e novamente colocou quatro atacantes à frente dele. É um desenho que privilegia a velocidade e a capacidade individual dos homens de frente, mas que também pode deixar a equipe dependente demais de transições e de soluções individuais quando o adversário consegue fechar os espaços.
Foi algo que apareceu novamente diante da Austrália. A Seleção repetiu velhos problemas, com excesso de ligações diretas e pouca criatividade, antes de buscar o empate apenas nos acréscimos, com Rayan.
Outro ponto chama atenção: Raphinha.
O atacante chega ao novo ciclo em alta pelo Barcelona, onde tem sido utilizado também como centroavante. Na Seleção, porém, Ancelotti novamente o posicionou aberto, dentro de um quarteto ofensivo que também contou com Vini Jr, Endrick e Estêvão. No segundo tempo, Ancelotti o colocou mais centralizado. O jogador ainda recebeu a camisa 10, herdada de Neymar, em uma mudança simbólica importante, mas sua função em campo continua sendo um ponto de discussão.
Vini Jr também representa esse contraste. Na Copa, foi uma das principais referências ofensivas do Brasil, mas não conseguiu repetir esse protagonismo diante da Austrália. A expectativa em torno do atacante do Real Madrid permanece enorme, especialmente porque, sem Neymar, a Seleção precisa encontrar novos pontos de desequilíbrio e liderança técnica.
No meio dessa discussão, Estêvão talvez seja uma das imagens mais interessantes do novo ciclo. O atacante ficou fora da Copa por lesão e voltou à Seleção justamente na primeira partida após o Mundial. Contra a Austrália, mostrou movimentação e participou dos melhores momentos brasileiros no primeiro tempo. Sua presença representa uma mudança real de nomes e de geração, ainda que o modelo escolhido por Ancelotti permaneça bastante parecido.
E esse talvez seja o principal ponto da estreia.
A renovação brasileira começou mais pela troca de peças do que pela transformação do funcionamento da equipe. O próprio Ancelotti afirmou que não pretende começar um trabalho do zero, mas dar continuidade ao que vinha sendo construído, buscando evolução com jogadores mais jovens.
Isso significa que ainda é cedo para cobrar uma mudança definitiva de comportamento. O ciclo até 2030 será longo, e Ancelotti terá tempo para testar outras formações, incorporar novos jogadores e, principalmente, encontrar soluções para um setor que já apareceu como problema durante a Copa: o meio-campo.
Mas a estreia deixa um sinal claro. Mudar os nomes não necessariamente muda o time.
A Seleção que começou o novo ciclo contra a Austrália teve Estêvão no lugar de jogadores que não fazem mais parte dos planos, Vitor Reis na zaga e Matheuzinho na lateral, mas manteve uma espinha dorsal e, sobretudo, uma estrutura ofensiva muito semelhante àquela que terminou a Copa diante da Noruega.
Se o objetivo é realmente construir uma nova Seleção para 2030, os próximos amistosos serão importantes não apenas para observar novos jogadores, mas para descobrir se Ancelotti pretende também experimentar novas ideias. Porque o maior desafio não parece ser simplesmente encontrar outros nomes para vestir a camisa amarela.
É fazer a Seleção jogar de outra maneira.

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