O que é a SDC Sports, grupo que quer comprar a SAF do Santos
Grupo deve ter reunião com conselheiros no final deste mês

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A possível transformação do Santos em SAF começa a atravessar uma fronteira importante. Durante cinco meses, números, contratos, ativos, dívidas e operações do clube passaram pelo escrutínio da SDC Sports, braço esportivo da gestora norte-americana Saint-Dominique Capital. A etapa de diligência chegou ao fim nas últimas semanas, e o grupo agora se prepara para apresentar aos conselheiros santistas o projeto que pode colocá-lo no controle de 80% da futura SAF.
Representantes do grupo devem estar em Santos em 31 de agosto para uma apresentação aos conselheiros. A intenção da reunião é permitir que os responsáveis pelo projeto expliquem a origem da empresa, sua estrutura, os profissionais envolvidos e os planos para o clube. Não haverá decisão sobre a venda nessa primeira reunião.
O desenho financeiro discutido desde fevereiro prevê até R$ 1 bilhão pela participação majoritária e a assunção de mais de R$ 1 bilhão em dívidas do Santos.
Ainda existe, porém, uma distância considerável entre o estágio atual e a assinatura de uma venda. A oferta apresentada inicialmente é não vinculante, o estatuto do Santos ainda limita a venda a 49% das ações e a mudança dessa regra depende do Conselho Deliberativo e dos associados. Depois, a própria oferta vinculante terá de passar por novas votações antes que qualquer contrato definitivo possa ser assinado.
A administração de Marcelo Teixeira trabalha para fazer avançar o processo antes das eleições de dezembro, enquanto um grupo de conselheiros já manifestou preocupação com o momento escolhido para discutir a SAF e com a situação financeira deixada pela atual gestão.
O que é a SDC Sports e quem está conduzindo a operação
A SDC Sports é a plataforma esportiva da Saint-Dominique Capital, gestora de investimentos que pretende transformar a experiência acumulada no mercado financeiro e esportivo em um projeto de longo prazo para o Santos. O grupo reúne profissionais com trajetórias bastante diferentes, mas que convergem em três áreas centrais para uma SAF: capital, gestão esportiva e negócios ligados ao entretenimento.
À frente da operação aparecem Michael Lipman, Diego Garcia e Jesse Fioranelli, cada um responsável por uma parte importante da tese apresentada aos santistas.
Lipman é o principal nome da SDC Sports na área esportiva. Ele acumula 25 anos de experiência em mídia, estratégia, operações e infraestrutura esportiva, tendo passado pela estrutura da NFL e ocupado uma posição na Uefa, entidade na qual trabalhou com mídia e infraestrutura da Euro 2012 e participou da entrega de oito estádios.
Depois, esteve ligado a projetos de transformação digital e estratégia comercial do Liverpool e participou da construção de estruturas próprias de mídia da Roma e da Inter de Milão. Nos últimos anos, também assessorou operações envolvendo clubes, ligas e empresas esportivas, incluindo a aquisição do Como pela família Djarum/Hartono e operações no setor de e-sports.
Sua experiência ajuda a explicar uma parte da proposta apresentada ao Santos: transformar uma marca de enorme reconhecimento histórico em uma operação comercial capaz de explorar melhor mídia, conteúdo, patrocínios, formação de atletas e mercado internacional.
Diego Garcia, cofundador e co-gestor da Saint-Dominique Capital, vem de uma trajetória diferente. O executivo é especializado em private equity, operações de aquisição, crescimento empresarial, estruturação de negócios complexos e captação de recursos. Antes da criação da gestora, foi diretor da Riverstone Holdings, empresa de private equity com atuação global, pela qual participou de operações em diferentes setores e mercados.
Também foi consultor sênior da Fortescue Capital, braço de investimentos da Fortescue, uma das grandes empresas mundiais dos setores de energia e recursos naturais. Sua experiência está, portanto, muito mais relacionada à estrutura financeira da operação e à criação de valor no longo prazo.
Já Jesse Fioranelli aparece como o principal nome ligado ao futebol dentro da estrutura. Diretor esportivo credenciado pela Federação Italiana e fluente em cinco idiomas, acumulou experiências em departamentos técnicos e executivos de clubes como Lazio, Roma, Milan, Al Nassr e San Jose Earthquakes.
Fioranelli trabalhou com estratégia esportiva, scouting, desenvolvimento de jogadores, negociações e organização de departamentos de futebol. Também participou de estruturas ligadas à MLS e ao desenvolvimento de atletas.
O grupo conta ainda com Peter Cohen como consultor-sênior. O executivo reúne quase 35 anos de experiência em banco de investimento e já comandou a área global de mídia, entretenimento e esportes do Barclays. Antes disso, passou pela Blackstone Advisory Partners e pelo J.P. Morgan.
Sua trajetória inclui trabalhos em operações envolvendo o Chicago Cubs e o Los Angeles Dodgers, além de outras transações de grande porte nos setores de mídia e entretenimento esportivo.
A composição da equipe revela o tipo de projeto que a SDC Sports pretende apresentar. Há um executivo dedicado à operação esportiva, outro especializado em capital e estruturação financeira, um profissional com experiência em departamentos de futebol e um consultor acostumado a grandes transações corporativas.
A ideia apresentada pelos investidores é atacar quatro áreas que consideram fundamentais para a recuperação do Santos: categorias de base, infraestrutura, marca e futebol profissional.
— Além do compromisso de capital, pretendemos investir nas quatro áreas que sempre definiram o clube. A academia, para que o Santos volte a desenvolver e reter os melhores jovens jogadores do Brasil. A infraestrutura, começando pela Rei Pelé e pelos Meninos da Vila e pelas instalações usadas diariamente pelos jogadores, sempre respeitando a história e a identidade do clube, também representadas pela Vila Belmiro. A marca, para que a posição global do clube seja refletida em sua presença comercial e de mídia. E o primeiro time, para que o que acontece em campo esteja à altura do escudo — afirmaram Michael Lipman e Diego Garcia.
— Você não compra um clube como o Santos; assume a responsabilidade pela oportunidade de fazer parte dele.
O que já aconteceu e o que ainda falta para a SAF sair do papel
A negociação começou oficialmente com uma proposta não vinculante apresentada em 20 de fevereiro de 2026. O documento previa R$ 1 bilhão pelo controle de 80% da futura SAF e a responsabilização pela dívida do clube, estimada naquele momento em aproximadamente R$ 1 bilhão.
A aprovação dessa proposta permitiu o início da diligência. Durante cinco meses, a SDC Sports teve acesso a documentos e informações do Santos para verificar a situação financeira, os ativos e as operações do clube. A investigação também foi bilateral: o Santos realizou uma análise inicial da empresa para entender sua estrutura e capacidade de realizar um investimento desse porte.

O trabalho contou com a participação da Rothschild & Co., da Alvarez & Marsal e da BMA pelo lado dos investidores. O Santos foi assessorado pela XP Investimentos, pela EXA Capital e pelo escritório Bichara e Motta Advogados.
A diligência terminou nas últimas semanas. Agora, a expectativa é de que a SDC Sports avance para uma oferta vinculante e apresente o projeto ao Conselho Deliberativo.
O passo seguinte depende de uma mudança importante no estatuto. Atualmente, o Santos pode vender apenas 49% das ações, enquanto a proposta da SDC Sports considera a aquisição de 80%. Será necessário, portanto, alterar a legislação interna do clube para permitir a participação majoritária.
O processo ficará sob responsabilidade do Conselho Deliberativo, presidido por Fernando Akaoui. Depois que o estudo completo for recebido, a Mesa do Conselho terá até 30 dias para convocar uma reunião destinada a analisar o mérito da mudança e recomendar ou não sua aprovação.
Se o Conselho aprovar a alteração, o presidente do órgão terá até 60 dias para convocar a Assembleia Geral dos associados.
Antes da votação, o Conselho deverá promover sessões informativas com especialistas para esclarecer dúvidas dos sócios. A Assembleia terá, então, a palavra sobre a reforma estatutária.
Se os associados aprovarem a mudança, o processo ainda não estará encerrado. Será necessária a formalização da oferta vinculante, sua análise e aprovação no Conselho Deliberativo e uma nova votação na Assembleia Geral para que os sócios decidam sobre a própria venda.
Somente depois dessas etapas será possível assinar definitivamente a operação.
O caminho, portanto, pode ser resumido em duas fases distintas. A primeira foi empresarial: proposta não vinculante, diligência e análise das partes. A segunda é institucional e política: alteração do estatuto, votação dos conselheiros, Assembleia Geral e aprovação da oferta definitiva.
É justamente essa segunda etapa que começa a provocar as maiores discussões internas.
Dívidas, eleições e a reação dos conselheiros
A discussão sobre a SAF acontece em um momento particularmente delicado para o Santos. A dívida do clube ultrapassa R$ 1,1 bilhão, há dois meses de atraso nos pagamentos de direitos de imagem do elenco profissional e o clube está sob transfer ban imposto pela Fifa por causa de uma dívida com o Monaco relacionada à contratação de Jean Lucas, atualmente no Bahia.
A diretoria também mantém uma dívida milionária com a NR Sports, empresa administrada pela família de Neymar.
Nesta segunda-feira (10), um grupo de 37 conselheiros publicou uma nota contra o projeto de SAF que vem sendo conduzido pela gestão Marcelo Teixeira. O documento critica a proposta e chama atenção para o crescimento do passivo durante a atual administração, que ultrapassou R$ 1 bilhão.
Os conselheiros também questionam o momento político do processo. O mandato de Marcelo Teixeira termina em dezembro, e o grupo sustenta que a SAF não pode ser tratada como instrumento eleitoral.
O desenho apresentado prevê vetos para impedir mudanças no nome, no hino oficial, nas cores básicas do uniforme e na localização do Santos. A própria Vila Belmiro aparece no discurso dos investidores como parte da identidade que deve ser preservada.
O interesse da SDC Sports, segundo os executivos, está relacionado à força histórica da marca. Pelé e Neymar aparecem como exemplos de uma produção de talentos que, na visão do grupo, ainda não foi convertida em todo o seu potencial econômico.
O projeto, portanto, não está baseado apenas na recuperação do time profissional. A promessa é investir na formação, nas estruturas do clube, na marca e no futebol.
A SDC Sports já fez seu raio-X. O Santos também investigou quem está do outro lado da mesa. Os investidores agora terão de apresentar o projeto aos conselheiros e transformar uma negociação conduzida durante meses em uma proposta concreta.
A partir daí, a discussão deixará de ser apenas sobre quanto vale o Santos. Será sobre qual estrutura o clube quer construir, quem terá o direito de comandá-la e quais garantias serão suficientes para que a maior mudança empresarial de sua história não seja decidida apenas pela urgência financeira do presente.
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